Não era preciso ser astrólogo, para adivinhar que a noite ia correr mal ao PSD. Rui Rio decidiu entrar pela garagem do hotel Sheraton, onde o partido fez a noite eleitoral, e Paulo Rangel, que chegou pela entrada principal, ficou alguns segundos preso na porta giratória encurralado pelos jornalistas. Depois chegou o silêncio à hora das projeções, que gelou uma sala com duas dezenas de apoiantes, e por fim Rangel e Rio a justificarem a derrota (“falhanço dos dois principais objetivos”) com a “turbulência interna“, a “criação de novos partidos” e até por culpa de um modelo de “campanha tradicional” que está ultrapassado. O líder prometeu ainda fazer diferente até outubro e voltar aos consensos com o PS (e outros) depois das legislativas.

Rui Rio tinha fintado os jornalistas à chegada, com uma manobra pouco habitual: a assessora disse que chegaria pela porta principal — e foram lá que se concentraram os jornalistas –, mas o presidente do PSD entrou pela garagem longe das câmaras. Subiu até ao 12º andar e ali ficou até às 22h55, altura em que desceu para fazer o discurso da derrota ainda com resultados por apurar. O “ferrari Rangel”, como chamou ao candidato Luís Filipe Menezes durante a campanha, não foi suficiente para que Rio saísse da garagem em direção aos Aliados. Nem lá perto: previsivelmente será o pior resultado de sempre do PSD numa eleição de âmbito nacional.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ainda na fase inicial do discurso, Rio felicitou todos os partidos, mas “em particular o PS [pela vitória], na pessoa de António Costa e Pedro Marques”. A sala não reagiu, não bateu palmas e o líder prosseguiu. Rio explicou então que o partido fez “uma campanha de uma forma tradicional” (leia-se arrudas, jantares-comícios, visitas a fábricas) mas que tem de ser capaz de “arranjar novas formas de fazer campanha”. O presidente do PSD sugere que terá algo na manga para fazer diferente nas legislativas.

Muitos no partido criticaram o líder por fazer acordos com o PS (na “descentralização” e nos “fundos europeus”), mas Rio vê nestes resultados uma legitimação de que esse é o caminho mais acertado. O presidente do PSD diz que o resultado das Europeias faz com que tenha “mais convicção de que os partidos têm de ser capazes de dialogar por Portugal” e “fazer reformas que são decisivas para o futuro de Portugal”. Foi um momento ‘eu tinha razão’. “O PS conseguiu passar a mensagem e nós não”, disse Rio, sugerindo que não foi eficaz hostilizar o PS (como tanto ele como Rangel fizeram na campanha).

Rio voltou a elencar áreas onde quer fazer acordos com os outros partidos: a “reforma do sistema político”, a “descentralização” ou a “reforma da segurança social”. É algo, destaca, que “nenhum partido pode fazer sozinho”. Mais à frente, após responder a uma questão, Rio explica que os consensos não são para já, mas para depois de outubro.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Depois, tal como tinha feito Rangel, Rui Rio lembrou que o PSD tinha tido 27,7% em 2014 e, por isso, descontando o resultado do CDS, o PSD “subiu em votação”. Isto porque, como já tinha dito durante a campanha, considera que o resultado real do PSD há cinco anos terá sido entre os 19 e os 20%. Ainda assim, Rio disse não querer fazer um “floreado dos números”, nem “tapar o sol com peneira”. É derrota, ponto. Embora prefira o eufemismo: “Não atingimos os objetivos, enquanto outros partidos atingiram”.

Sucederam-se as perguntas sobre se o líder tinha condições para levar o partido até às eleições de outubro. A cada pergunta houve sempre burburinho na sala, da autoria de militantes que apupam os jornalistas. “Outra vez arroz”, chegaram a gritar na audiência, após a pergunta de uma jornalista.

“Já foi difícil andar um ano com turbulência interna e chegar a estas eleições assim”

Rio já tinha dito na campanha que não se demitia, fosse qual fosse o resultado e por isso acredita que “tem condições para levar PSD a um bom resultado nas legislativas”. E foi taxativo: “Eu não abandono”. O presidente do PSD acrescentou ainda que “só se estivesse completamente farto” é que “aproveitava esta desculpa” para “ir embora e fugir às  responsabilidades” de levar o partido até ao próximo escrutínio. E voltou a reforçar que “uma eleição europeia não tem nada a ver com as legislativas“.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Questionado sobre se terá o PSD unido até outubro, Rio diz que “acredita” que sim, mas não tem controlo sobre isso: “Não sou eu que determino isto”. O presidente do PSD não deixou de lembrar que foi atacado internamente praticamente desde que tomou posse até estas Europeias: “Se já foi difícil andar um ano com turbulência interna e chegar a estas eleições assim, como não será chegar a outubro se entretanto vierem fazer a mesma coisa?

E aí há sempre um nome que vem à cabeça: Luís Montenegro. Questionado sobre se o antigo líder parlamentar (dinamizador do falhado “impeachment” de Rio) era o responsável, Rio não quis “atribuir” a uma pessoa em particular responsabilidade da derrota porque isso seria “sacudir a água do capote e atirar as responsabilidades para os outros” e ele é que é o líder do partido. No que diria a seguir, não seria tão benevolente com outro seu possível sucessor: “A responsabilidade é do PSD com um todo. O dr. Paulo Rangel tem um bocadinho mais de responsabilidade e eu também que sou líder do partido”.

Rangel e os “novos partidos da área do PSD” e a “turbulência interna”

Antes de Rui Rio, falou Paulo Rangel que começou por dizer que justificou a derrota com as “circunstâncias difíceis” em que o PSD chegou a estas eleições com o “aparecimento de novos partidos da área do PSD” e a “turbulência interna”. Rangel quis dizer que “deu a cara”, que avançou mesmo numa situação difícil sem calculismos. Sobre o seu futuro político, o candidato do PSD só deu a garantia de que os eurodeputados vão “cumprir rigorosamente” o mandato para que foram eleitos.

Depois tentou colorir o resultado, dizendo que o PSD “reforçou a votação” e o seu “peso em termos de votos”, numa alusão ao facto de há cinco anos ter tido 27,7% em coligação com o CDS. Ainda assim, admitiu que falhou os dois principais objetivos: reforçar o número de deputados e ganhar as eleições.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Outra das razões que Rangel apontou para o fracasso do PSD foi a existência de uma “OPA [Oferta Pública de Aquisição] da campanha pelo primeiro-ministro, que nacionalizou a campanha, ofuscando os assuntos europeus”. Isto apesar de admitir que o PSD correspondeu a este “repto”.

Sobre o impacto deste resultado nas legislativas, Paulo Rangel diz que “só um astrólogo é que poderá dizer” que efeitos terá esta eleição nas próximas e lembra que, em 2009, “o PSD ganhou as Europeias, o PS as legislativas e depois o PSD as autárquicas”. O  cabeça de lista do PSD diz que “não há grandes ilações a tirar” e acrescenta que às vezes uma derrota tem um efeito contrário. “Às vezes ganha-se dinâmica, põe-nos a tocar a rebate”, recorda.

Rangel, apontado como uma candidato à liderança no pós-Rio, tem assim uma derrota dura, mas a confirmar-se que o PSD mantém os seus seis eurodeputados, pode manter a influência no Partido Popular Europeu (PPE). O cabeça de lista regressa a Bruxelas para fazer o que fez nos últimos dez anos. Já Rio também segue segunda-feira para Bruxelas para participar na cimeira do PPE de terça-feira, onde certamente se irá analisar o resultado das eleições europeias por toda a Europa.

[Difamações, frustrações e outras lamentações. A noite eleitoral num minuto]