Antigamente é que era, poderá pensar Manfred Weber, líder da bancada do Partido Popular Europeu (PPE), que vê a sua pretensão de chegar a um dos cargos mais cobiçados da Europa — presidente de Comissão Europeia — cada vez mais ameaçada. É certo que foi o PPE quem mais votos somou nas eleições europeias deste domingo. É certo que o método spitzenkandidaten, que lhe garantia lugar direto nesse trono sem mais demora por ser o candidato do partido mais votado nas europeias, tem sido usado desde 2014 para cá. Mas também é certo que a Europa já não é o que era e liberais e socialistas podem estar a cozinhar uma geringonça à moda de Bruxelas, com António Costa a explicar a Emanuele Macron e a Frans Timmermans como se misturam os ingredientes.

Vamos por partes. Primeiro uma rápida viagem ao passado, até às legislativas portuguesas de 2015, para avivar a memória. O PSD de Pedro Passos Coelho conseguiu a maioria dos votos dos portugueses, coligado com o CDS, mas não chegou a estar um mês no governo. Caiu com uma moção de censura, e o PS de Costa, segundo classificado nas legislativas, conseguiu construir uma maioria parlamentar com o BE e o PCP apelidada de geringonça e que mantém até hoje os socialistas no poder. Lembra-se? E voltamos a 2019.

Nas eleições europeias deste domingo, nada correu bem aos partidos tradicionais. Os trambolhões foram muitos e acabou-se o bipartidarismo que há anos reinava em Bruxelas. É certo que o PPE continua a ter o maior grupo parlamentar e que os Socialistas & Democratas (S&D) se mantém em segundo lugar na linha de sucessão ao trono. Mas atenção ao detalhe: juntos já não têm maioria absoluta no Parlamento Europeu. O que isto significa é que para governar vão ser precisos novos acordos com outras forças políticas. E significa também que o divórcio amigável entre PPE e S&D pode estar iminente.

A consequência imediata é que a eleição de Manfred Weber como presidente da Comissão Europeia pode não estar garantida. Como é que ela se processa? Em primeiro lugar, de entre os candidatos principais (os spitzenkandidaten) de cada bancada parlamentar, o Conselho Europeu — que reúne os chefes de Executivo dos Estados-Membros — faz a sua escolha. Em seguida, esse nome é aprovado por maioria simples no Parlamento Europeu. Desde 2014 que é este o processo eleitoral para designar o presidente da Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia.

Nos últimos tempos tem sido contestado, já que nada nos tratados internacionais obriga a escolher o spitzenkandidaten mais votado. À discussão, irão ainda juntar-se as presidências do Parlamento e do Conselho Europeu, todas entregues (por enquanto) ao centro-direita.

Extremistas não, obrigado

Tanto a bancada liberal como a socialista já puseram de parte entender-se com partidos extremistas, não sendo de acreditar que a aliança de Mateo Salvini com Marine Le Pen e outros partidos nacionalistas europeus tenha grande peso nas discussões sobre quem fica com o lugar ainda ocupado pelo luxemburguês Jean-Claude Juncker. A bancada dos Verdes, que se tornaram a quarta força política na Europa, é uma boa hipótese, mas melhor ainda — do ponto de vista dos socialistas — é uma união de facto com os liberais do ALDE, onde se inclui o partido do presidente francês Emmanuel Macron, com quem partilham mais ideais do que com o PPE.

E é aqui, entre S&D e a ALDE, que a geringonça europeia começa a mexer, não sendo líquido que o partido que mais votos obteve vá governar. A semana passada, António Costa e o presidente francês estiveram reunidos. Esta segunda-feira, no rescaldo das eleições, Macron janta com o socialista Pedro Sanchéz, presidente do Governo espanhol, que conseguiu com o seu PSOE 20 lugares no Parlamento Europeu.

Há dúvidas do que pode estar ao lume? Basta pensar nas declarações feitas pelas principais caras das forças políticas que ficaram em segundo e terceiro lugar nas europeias.

Começamos pelos socialistas. Frans Timmermans — o spitzenkandidaten do S&D e natural candidato ao cargo de presidente da Comissão Europeia — reconheceu a derrota e perda de peso da sua bancada. O passo seguinte, afirmou, é trabalhar numa “aliança progressista” que dite a agenda na Europa, cabendo aos socialistas promover entendimentos com todas as forças parlamentares com quem se identifiquem. O piscar de olhos vai direto para ALDE, Verdes e Grupo da Esquerda Unitária.

Sobre o sucessor de Juncker foi assertivo: “Não é seguramente a principal preocupação dos cidadãos europeus”, que estarão mais interessados no programa que a União Europeia vai ter nos próximos cinco anos. E diz ser nisso que ele próprio está focado.

Do lado dos liberais, a frase de Pascal Canfin, número dois da lista do partido de Macron, proferida na noite eleitoral, é clara como água no que toca a este assunto, mostrando onde está o foco da sua bancada: “Claramente, pensamos que o candidato do PPE deixou hoje de ter qualificações [para presidente da Comissão]. Vamos usar todo o nosso peso para que haja um candidato francês — poderia ser Michel Barnier —, ou um candidato que esteja muito mais próximo do centro de gravidade do novo Parlamento, e muito menos à direita do que antes.”

Michel Barnier, francês de 68 anos, já foi deputado e ministro, e é o homem que negociou a saída do Reino Unido da União Europeia. Tal como Weber, Barnier pertence ao PPE, e já disse claramente que não está interessado no cargo, apoiando o spitzenkandidaten da sua bancada. O problema é que nem sempre quem tem maiores pretensões ao cargo é quem de facto lá acaba sentado. Macron sabe que um pouco de pressão pode ter grandes efeitos na vida política e parece imune ao que diz o seu conterrâneo.

“Barnier é um homem com grandes qualidades”, disse o presidente francês, dias antes das eleições. Como presidente da Comissão, Macron espera ver alguém “com experiência ao mais alto nível governamental ou ao nível da Comissão Europeia”. O capuz desenhado pelo presidente francês claramente não cabe na cabeça de Weber. A questão é se ele acusará o toque, ou não.

Weber vai sair a bem?

“Ganhámos as eleições”, disse Joseph Daul, presidente do PPE, ao final da noite eleitoral, com Weber a poucos metros de si. “Só há um lugar para nós — é presidente da Comissão Europeia. É Manfred Weber.”

Mais comedido nas palavras, Manfred Weber disse não se sentir realmente vitorioso, porque o PPE perdeu lugares, mas isso não o impediu de deixar claro que quer aquilo que pensa ser seu por direito. “A nossa família política está comprometida com o conceito spitzenkandidat. Só uma pessoa pode ser eleita [presidente da Comissão] e tem de ser um spitzenkandidat”, esclareceu. Pelo caminho, deixou claro que a sua bancada está aberta às contribuições de “socialistas, liberais e verdes”, e vedada a “qualquer partido que não acredite no futuro europeu”.

“Quando falamos em estabilidade, não há maioria estável possível contra o PPE”, vincou Weber. Resta saber se será com ele à frente da Comissão Europeia.