Rádio Observador

Eleições Europeias

Saída à Passos Coelho. Pode uma geringonça europeia afastar Weber do trono europeu?

178

Equilíbrio do poder mudou na Europa e o método spitzenkandidaten pode ter os dias contados. Manfred Weber, rei do número de assentos em Bruxelas, pode não chegar a ser presidente da Comissão Europeia.

"Quando falamos em estabilidade, não há maioria estável possível contra o PPE", vincou Weber no seu discurso de domingo, noite eleitoral

AFP/Getty Images

Antigamente é que era, poderá pensar Manfred Weber, líder da bancada do Partido Popular Europeu (PPE), que vê a sua pretensão de chegar a um dos cargos mais cobiçados da Europa — presidente de Comissão Europeia — cada vez mais ameaçada. É certo que foi o PPE quem mais votos somou nas eleições europeias deste domingo. É certo que o método spitzenkandidaten, que lhe garantia lugar direto nesse trono sem mais demora por ser o candidato do partido mais votado nas europeias, tem sido usado desde 2014 para cá. Mas também é certo que a Europa já não é o que era e liberais e socialistas podem estar a cozinhar uma geringonça à moda de Bruxelas, com António Costa a explicar a Emanuele Macron e a Frans Timmermans como se misturam os ingredientes.

Vamos por partes. Primeiro uma rápida viagem ao passado, até às legislativas portuguesas de 2015, para avivar a memória. O PSD de Pedro Passos Coelho conseguiu a maioria dos votos dos portugueses, coligado com o CDS, mas não chegou a estar um mês no governo. Caiu com uma moção de censura, e o PS de Costa, segundo classificado nas legislativas, conseguiu construir uma maioria parlamentar com o BE e o PCP apelidada de geringonça e que mantém até hoje os socialistas no poder. Lembra-se? E voltamos a 2019.

Nas eleições europeias deste domingo, nada correu bem aos partidos tradicionais. Os trambolhões foram muitos e acabou-se o bipartidarismo que há anos reinava em Bruxelas. É certo que o PPE continua a ter o maior grupo parlamentar e que os Socialistas & Democratas (S&D) se mantém em segundo lugar na linha de sucessão ao trono. Mas atenção ao detalhe: juntos já não têm maioria absoluta no Parlamento Europeu. O que isto significa é que para governar vão ser precisos novos acordos com outras forças políticas. E significa também que o divórcio amigável entre PPE e S&D pode estar iminente.

A consequência imediata é que a eleição de Manfred Weber como presidente da Comissão Europeia pode não estar garantida. Como é que ela se processa? Em primeiro lugar, de entre os candidatos principais (os spitzenkandidaten) de cada bancada parlamentar, o Conselho Europeu — que reúne os chefes de Executivo dos Estados-Membros — faz a sua escolha. Em seguida, esse nome é aprovado por maioria simples no Parlamento Europeu. Desde 2014 que é este o processo eleitoral para designar o presidente da Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia.

Nos últimos tempos tem sido contestado, já que nada nos tratados internacionais obriga a escolher o spitzenkandidaten mais votado. À discussão, irão ainda juntar-se as presidências do Parlamento e do Conselho Europeu, todas entregues (por enquanto) ao centro-direita.

Extremistas não, obrigado

Tanto a bancada liberal como a socialista já puseram de parte entender-se com partidos extremistas, não sendo de acreditar que a aliança de Mateo Salvini com Marine Le Pen e outros partidos nacionalistas europeus tenha grande peso nas discussões sobre quem fica com o lugar ainda ocupado pelo luxemburguês Jean-Claude Juncker. A bancada dos Verdes, que se tornaram a quarta força política na Europa, é uma boa hipótese, mas melhor ainda — do ponto de vista dos socialistas — é uma união de facto com os liberais do ALDE, onde se inclui o partido do presidente francês Emmanuel Macron, com quem partilham mais ideais do que com o PPE.

E é aqui, entre S&D e a ALDE, que a geringonça europeia começa a mexer, não sendo líquido que o partido que mais votos obteve vá governar. A semana passada, António Costa e o presidente francês estiveram reunidos. Esta segunda-feira, no rescaldo das eleições, Macron janta com o socialista Pedro Sanchéz, presidente do Governo espanhol, que conseguiu com o seu PSOE 20 lugares no Parlamento Europeu.

Há dúvidas do que pode estar ao lume? Basta pensar nas declarações feitas pelas principais caras das forças políticas que ficaram em segundo e terceiro lugar nas europeias.

Começamos pelos socialistas. Frans Timmermans — o spitzenkandidaten do S&D e natural candidato ao cargo de presidente da Comissão Europeia — reconheceu a derrota e perda de peso da sua bancada. O passo seguinte, afirmou, é trabalhar numa “aliança progressista” que dite a agenda na Europa, cabendo aos socialistas promover entendimentos com todas as forças parlamentares com quem se identifiquem. O piscar de olhos vai direto para ALDE, Verdes e Grupo da Esquerda Unitária.

Sobre o sucessor de Juncker foi assertivo: “Não é seguramente a principal preocupação dos cidadãos europeus”, que estarão mais interessados no programa que a União Europeia vai ter nos próximos cinco anos. E diz ser nisso que ele próprio está focado.

Do lado dos liberais, a frase de Pascal Canfin, número dois da lista do partido de Macron, proferida na noite eleitoral, é clara como água no que toca a este assunto, mostrando onde está o foco da sua bancada: “Claramente, pensamos que o candidato do PPE deixou hoje de ter qualificações [para presidente da Comissão]. Vamos usar todo o nosso peso para que haja um candidato francês — poderia ser Michel Barnier —, ou um candidato que esteja muito mais próximo do centro de gravidade do novo Parlamento, e muito menos à direita do que antes.”

Michel Barnier, francês de 68 anos, já foi deputado e ministro, e é o homem que negociou a saída do Reino Unido da União Europeia. Tal como Weber, Barnier pertence ao PPE, e já disse claramente que não está interessado no cargo, apoiando o spitzenkandidaten da sua bancada. O problema é que nem sempre quem tem maiores pretensões ao cargo é quem de facto lá acaba sentado. Macron sabe que um pouco de pressão pode ter grandes efeitos na vida política e parece imune ao que diz o seu conterrâneo.

“Barnier é um homem com grandes qualidades”, disse o presidente francês, dias antes das eleições. Como presidente da Comissão, Macron espera ver alguém “com experiência ao mais alto nível governamental ou ao nível da Comissão Europeia”. O capuz desenhado pelo presidente francês claramente não cabe na cabeça de Weber. A questão é se ele acusará o toque, ou não.

Weber vai sair a bem?

“Ganhámos as eleições”, disse Joseph Daul, presidente do PPE, ao final da noite eleitoral, com Weber a poucos metros de si. “Só há um lugar para nós — é presidente da Comissão Europeia. É Manfred Weber.”

Mais comedido nas palavras, Manfred Weber disse não se sentir realmente vitorioso, porque o PPE perdeu lugares, mas isso não o impediu de deixar claro que quer aquilo que pensa ser seu por direito. “A nossa família política está comprometida com o conceito spitzenkandidat. Só uma pessoa pode ser eleita [presidente da Comissão] e tem de ser um spitzenkandidat”, esclareceu. Pelo caminho, deixou claro que a sua bancada está aberta às contribuições de “socialistas, liberais e verdes”, e vedada a “qualquer partido que não acredite no futuro europeu”.

“Quando falamos em estabilidade, não há maioria estável possível contra o PPE”, vincou Weber. Resta saber se será com ele à frente da Comissão Europeia.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: akotowicz@observador.pt
Ambiente

A onda verde na UE e os nacionalismos

Inês Pina
134

Se hoje reduzíssemos as emissões de CO2 a zero já não impedíamos a subida de dois graus centígrados. E estes “míseros” dois graus vão conduzir ao fim das calotas polares e à subida do nível do mar.

PCP

PCP: partido liberal falhado?

José Miguel Pinto dos Santos
6.765

Será então que a proposta eleitoralista de taxar depósitos acima de 100 mil euros um desvio liberal de um partido warxista? De modo algum. Não só é iliberal como irá agravar a próxima crise económica.

Maioria de Esquerda

A síndrome Maria Heloísa /premium

André Abrantes Amaral

Não pensem que a maioria absoluta livra o PS do BE ou do PCP. Tanto um como outro são já parte integrante do PS que recebeu de braços abertos membros que, noutras eras, teriam aderido ao PCP ou ao BE.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)