Tudo terá começado pouco depois de Betty DeGeneres ter recebido uma notícia que nenhuma mulher quer ouvir: tinha-lhe sido diagnosticado cancro da mama e estava forçada a fazer uma mastectomia, isto é, uma cirurgia de extração da mama ou de parte da mama. A filha, Ellen DeGeneres, não era ainda uma das comediantes e apresentadoras de televisão mais famosas do mundo, era apenas uma adolescente de 15 a 16 anos. Terá sido nessa altura que o padrasto de Ellen começou a molestar a enteada, segundo esta garante.

Ellen DeGeneres já tinha falado dos abusos sexuais do padrasto em 2005, numa entrevista à revista feminina Allure. Aí, tinha já dado conta do que se passara: então adolescente, viu o padrasto — que nunca identificou publicamente e que já teria morrido quando denunciou o caso pela primeira vez, em 2005 — aproximar-se e dizer-lhe que “achava que tinha sentido um nódulo” nas mamas da mãe. Por causa disso, alegando que “não queria alarmar” a progenitora de Ellen, disse à enteada que tinha de tocar e sentir as suas mamas, “para ter a certeza” de que o problema era mesmo grave.

Agora, 14 anos depois, Ellen DeGeneres voltou ao tema e à memória traumática, numa entrevista no programa My Next Guest Needs No Introduction, apresentado por David Letterman e exibido pela Netflix. A entrevista só será transmitida na íntegra esta sexta-feira, 31 de maio, mas foram já transmitidos alguns excertos promocionais citados pela imprensa norte-americana.

Nas primeiras imagens divulgadas da entrevista, Ellen DeGeneres explica que quis voltar ao tema depois da explosão do movimento #Metoo, de denúncias de assédio e abusos sexuais contra mulheres, por querer alertar outras raparigas de que não devem “permitir isto a ninguém”. E voltou a recordar o episódio, ocorrido há cerca de 45 anos, nos mesmos moldes: “Disse-me que sentiu um nódulo na mama dela e que precisava de sentir as minhas”.

Tentou fazê-lo depois novamente e numa outra vez tentou forçar a porta [do quarto de Ellen]”, recordou. Foi então que a adolescente saiu pela janela e “correu, porque sabia que iriam acontecer mais coisas” do género.

Na altura, Ellen DeGeneres teve medo de contar à mãe, por receio de a magoar. Hoje, arrepende-se: “Nunca deveria tê-la protegido, deveria ter-me protegido a mim. Não lhe contei até uns anos mais tarde e quando o fiz ela não acreditou em mim, ainda ficou com ele mais 18 anos”, revelou a David Letterman.

Ellen DeGeneres foi condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais elevada condecoração concedida a civis pelo Presidente dos EUA, que era à época Barack Obama (@ Chip Somodevilla/Getty Images)

A mãe de Ellen e o padrasto acabaram por se separar depois, dado que Betty DeGeneres começou a desconfiar da permanente mudança de versões dos acontecimentos dada pelo seu anterior marido, ao longo dos anos. “Há tantas raparigas jovens e não importa na verdade que idade têm. Quando vejo pessoas a denunciarem coisas destas, especialmente agora, enfurece-me que não se acredite nas vítimas, porque não inventamos simplesmente estas coisas. E eu gosto de homens, mas há tantos que se safam de tanta coisa…”

Ellen DeGenres revelou ainda estar “zangada também comigo mesma”, por ter sido ” demasiado fraca para me insurgir contra aquilo. Teria 15 ou 16 anos. É uma história horrível, verdadeiramente horrível”.