A comissão parlamentar de inquérito à gestão da Caixa Geral de Depósitos vai chamar António Vieira Monteiro, antigo vice-presidente do banco com a tutela da direção financeira do banco quando foi aprovada a contratação de um produto complexo com o Crédit Suisse que veio gerar perdas de 340 milhões de euros, conhecido como Boats Caravela.

A audição foi pedida por um requerimento apresentado pelos socialistas que chamam o presidente não executivo do conselho de administração do Santander Totta na comissão parlamentar de inquérito à Caixa depois da audição a Tomás Correia, que fez parte da administração da Caixa quando essa operação foi aprovada no final de 1999.

Para além de Vieira Monteiro, e de perguntas que deverão ser dirigidas por escrito ao ex-presidente da Caixa nesta data, João Salgueiro sobre o tema, a comissão vai também ouvir outra vez Faria de Oliveira, presidente da Caixa entre 2008 e 2012, e Cabral dos Santos, antigo diretor de crédito de grandes empresas, cuja segunda audição foi pedida pelo PSD. As segundas audições são pedidas na sequência de outros testemunhos ouvidos entretanto pelos deputados e que suscitaram novas questões a esclarecer com estes dois antigos responsáveis.

Sobre a operação Boats Caravela, Tomás Correia assegurou esta terça-feira que nem ele, nem outros administradores tiveram conhecimento ou foram avisados na apresentação do produto para essas cláusulas que terão sido da responsabilidade da direção financeira do banco que à data era tutela de António Vieira Monteiro. E defendeu que se tivessem sabido nunca teriam aprovado.  Mas não conseguiu dar mais explicações sobre quem terá sido responsável pela operação que reconheceu ter sido um “erro monumental”.

O antigo administrador da Caixa garantiu ainda que o conselho do qual fez parte e que era liderado por João Salgueiro não foi avisado para os riscos desta operação e que aquilo que foi aprovado não corresponde ao que acabou por ser contratado com o banco suíço.  Segundo Tomás Correia, o problema estava deste produto estava no contrato de gestão conferido ao Crédit Suisse que lhe dava discricionaridade para trocar os ativos e títulos que compunham o veículo da qual a Caixa subscreveu unidades de participação. Essa margem permitia ao banco suíço colocar ativos de má qualidade sem o controlo do banco português que tinha de assumir as perdas.

Este produto foi contratado como uma operação de tesouraria para evitar o reconhecimento de perdas em títulos de dívida pública que obrigaram a constituir provisões em subsidiárias da Caixa, mas acabou por provocar perdas nos quatro anos seguintes que foram provisionadas por ordem do Banco de Portugal, até ser vendido ao Crédit Suisse.

Para o deputado socialista João Paulo Correia, este produto representa uma das maiores perdas em operações individuais sinalizadas na auditoria da EY à gestão do banco. Para além da audição de Vieira Monteiro, e das perguntas a João Salgueiro, os socialistas pediram também o contrato assinado entre a Caixa e o Crédit Suisse First Boston, a ata do conselho diário de 14 dezembro que aprovou a operação e a respetiva ficha técnica.