Lamar Odom é um daqueles casos estranhos em que o nome de alguém é reconhecido a partir de vários círculos da sociedade, vários círculos de interesse, vários círculos de ação. Para alguns, Lamar é o antigo jogador de basquetebol que atuou ao lado de Kobe Bryant nos Lakers; para outros, Lamar é o ex-marido da socialite Khloé Kardashian e foi protagonista de vários reality shows seguidos por milhões de pessoas no mundo inteiro. Para alguns, Lamar é parte da última geração de sucesso dos Lakers; para outros, Lamar é o toxicodependente que traiu repetidamente uma das irmãs Kardashian e cuja adição foi tema central dos tais reality shows. A maior das verdades não é uma nem outra: a maior das verdades é que Lamar Odom é o conjunto destas duas versões.

Atualmente, aos 39 anos, o norte-americano está a treinar com a Mighty Sports, uma equipa de basquetebol das Filipinas, para tentar voltar à forma física que há muitos anos não tem e integrar a BIG3, uma liga de basquetebol três para três criada pelo rapper Ice Cube nos Estados Unidos. Esta semana, Lamar voltou à atualidade – desportiva e mais cor-de-rosa, como sempre –devido ao livro de memórias que acabou de lançar, “Darkness Into Light”, onde descreve o vórtice de sex, drugs and basketball em que caiu quando jogava nos Lakers e que culminou com uma overdose que o obrigou a reaprender a falar e a andar. Depois de ser pai ainda na escola secundária, o basquetebolista entrou na NBA pelos LA Clippers e teve mais um filho de Liza Morales, a namorada de adolescência. Lamar e Liza tiveram o terceiro filho, Jayden, em 2005, mas o bebé acabou por morrer com apenas seis meses devido ao síndrome de morte súbita infantil. Foi a partir daí que o atleta, que já tinha tido o primeiro contacto com a cocaína, se entregou às drogas e ao álcool para colmatar a dor de ter perdido um filho.

“Recebi a chamada que me mudou a vida no verão de 2006. Tinha estado numa festa a noite toda, não tinha ido para casa. O meu filho Jayden tinha seis meses. Estava em casa, no berço. Devia ter estado em casa com ele. Mas estava fora, a fazer sei lá o quê. A mãe dele ligou-me e estava em pânico porque ele não acordava. Estava em Manhattan, conduzi até Long Island e os médicos no hospital disseram-me que ele tinha morrido. Seis meses. Morto (…) Os médicos disseram-nos que era síndrome de morte súbita infantil. Quase parecia inventado. Nenhuma explicação. Nenhuma resposta. Morreu. Assim. E é suposto aceitar. É suposto viver com isso. Acho que as coisas se agravaram a partir daí, com as drogas. Até subconscientemente. Nessa altura nem sabemos o que andamos a fazer. Acho que subsconscientemente, tornei-me um viciado devido ao trauma que estava a atravessar”, contou Lamar Odom ao The Players’ Tribune.

Tudo piorou a partir daí e o atleta já contou inúmeras vezes a cronologia dos acontecimentos: a separação da primeira mulher, o casamento com a mais nova das irmãs Kardashian após apenas um mês de namoro, o divórcio da socialite depois de quatro anos de polémicas e traições e a overdose em outubro de 2015, num bordel no estado do Nevada. Lamar Odom sofreu 12 AVC e seis enfartes, esteve ligado a máquinas de suporte artificial de vida, sobreviveu e reaprendeu a andar sozinho, a comer sozinho, a falar e a escrever. A história, só assim, é uma das mais cruas e dramáticas do panorama desportivo internacional: mas esta semana, como teaser para o livro que acabou de lançar, o basquetebolista decidiu revelar mais pormenores que tornam todo o passado de Lamar quase inacreditável.

Odom formou uma parceria de sucesso com Kobe Bryant nos Lakers

Em entrevistas separadas – uma à ABC, outra ao programa “The View” e uma terceira ao “Good Morning America” –, o norte-americano contou duas histórias novas que voltaram a colocar o nome de Lamar Odom nas capas dos desportivos e nas capas das revistas cor-de-rosa, como não podia deixar de ser. Primeiro, o basquetebolista revelou que as drogas não eram o seu único vício: “Eram demasiadas strippers para poder contar. Sou obcecado por sexo desde que me lembro, sou viciado em sexo. Devo ter dormido com 2 mil mulheres. Não podia ir sozinho para casa e estava com uma média de seis mulheres diferentes por semana com quem mantinha relações sexuais sempre sem proteção. Tive de pagar muitos abortos ao longo da minha vida”, contou Lamar. O “cocktail letal de fama, vício, uma carreira em decrescendo e infidelidade”, como o jogador descreve esses anos, terá estado na origem da segunda história – que é esta semana o assunto mais falado na imprensa especializada dos Estados Unidos.

Lamar recordou um dia em que tinha consumido ecstasy e cocaína e estava a ter um episódio de paranóia, em que destruiu várias paredes da própria casa e estava “à procura das pessoas que estavam atrás” dele. A mulher, Khloé Kardashian, chamou vários amigos do atleta e pediu ajuda. “Desceram até ao andar onde eu estava e bateram à porta. Eu abri de repente e agarrei-a com força pelos ombros, o que a assustou. Gritei: ‘O que raio estás a fazer? Estás a tentar envergonhar-me à frente dos meus amigos? Eu mato-te! Eu mato-te! Tu não sabes aquilo de que eu sou capaz’. Foi a partir daí que ela ficou com medo de mim”, confidenciou Lamar Odom, que revelou também que decidiu internar-se numa clínica de reabilitação, em 2015, porque a filha mais velha ameaçou não voltar a falar com ele caso não o fizesse.

Em termos desportivos, o currículo de Lamar Odom provoca inveja a muita gente: foi duas vezes campeão da NBA, foi considerado o melhor substituto da temporada em 2011, passou pelos LA Clippers, Miami Heat, Lakers e Dallas Mavericks e jogou com Bryant, Gasol e Wade. Tudo isso, porém, é hoje uma névoa num passado marcado por drogas, traições, ameaças de morte e dezenas de AVC numa só noite. Depois de ser durante anos um “mentiroso profissional”, como o próprio admite, Lamar dedicou-se agora à honestidade sem reservas – mesmo que a verdade ainda choque muita gente.