Foi uma reunião “sincera” depois de uma derrota “chocante” nas urnas. O Conselho Nacional do CDS reuniu ontem para analisar os resultados das eleições europeias e houve culpas de parte a parte. Segundo apurou o Observador junto de fontes presentes na reunião, Assunção Cristas, que na noite eleitoral deu a cara pela derrota ao aparecer no palco ao lado de Nuno Melo e de toda a lista, começou por fazer um mea culpa enquanto líder do partido e pediu que se fizesse “uma reflexão profunda” sobre os sinais que os eleitores quiseram dar. Faltam três meses para as legislativas, é preciso “arregaçar as mangas” e pôr o foco nas soluções para os problemas concretos dos portugueses.

Mas não sem antes ouvir críticas e reparos. Algumas até da sua própria direção. Nuno Melo e Pedro Mota Soares foram dos primeiros a falar, tendo assumido responsabilidades pela derrota e fazendo reparos à forma como a direção (da qual fazem parte) lidou com alguns dossiês sensíveis em plena pré-campanha para as Europeias. Foi o caso da polémica com as passadeiras LGBT, na qual Cristas “errou” ao assinar um comunicado sobre o tema, transformando dessa forma uma polémica local numa “questão nacional”. E o caso do dossiê dos professores que “condicionou toda a campanha”, disse ao Observador uma fonte presente na reunião.

Mais: também o facto de os candidatos a deputados terem sido escolhidos pouco antes de arrancar a campanha para as europeias fez com que uma parte do partido fosse “desmobilizado” para o terreno. Esta foi uma das críticas feita por Filipe Lobo d’Ávila, conhecido crítico da estratégia de Cristas, que afirma ao Observador ter deixado claro no Conselhos Nacional que essa “imposição de candidatos de Lisboa às estruturas locais”, a par da questão dos professores, “condicionou a campanha”. “Houve um antes e um depois daquela fotografia assassina no caso da lei dos professores”, afirma ao Observador, dizendo que a gestão “desastrosa” desse dossiê fez “implodir” a campanha do CDS.

O ex-deputado, agora rosto do grupo interno “Juntos pelo Futuro”, diz ainda que Cristas e a direção do CDS caiu numa “armadilha” de António Costa ao ter aceitado fazer das europeias uma primeira volta das legislativas. “Queriam censurar o governo e acabaram censuramos”, afirmou lá dentro e, depois, ao Observador. “O centro-direita sai completamente chamuscado deste processo”, acrescenta.

É neste sentido que Lobo d’Ávila diz que as legislativas são “uma oportunidade” para Assunção Cristas mostrar que consegue pôr o CDS no trilho certo. Caso contrário, e não querendo fazer “futurologia”, tem de haver uma “reflexão profunda” porque “o CDS não é um partido de 6%”. “Há uma oportunidade para acertar o caminho”, diz, lembrando que os mandatos são para cumprir e que Cristas ainda não foi a votos em nome próprio para legislativas. Logo, qualquer “crise de liderança” fica para depois.

Para já, diz, é preciso voltar a fazer do CDS um “partido de causas” porque “o que move uma pessoa a sair de casa para ir votar são as causas, não os candidatos bonitos ou as líderes sexys”, disse ainda pedindo “foco” e “uma identidade clara” ao partido que em tempos foi “o partido do contribuinte”.

Para este crítico, que se mostrou disponível para ir no lugar simbólico de “último por Lisboa”, não elegível, apenas para dar um sinal de unidade caso Assunção Cristas devolvesse a palavra as militantes e reabrisse o processo de escolha dos candidatos a deputados, o CDS tem de escolher as causas que defende sob pena de não agradar todos. “Ao querer agradar a toda a gente, [Cristas] acaba por não agradar ninguém”, disse ainda.