África do Sul de um lado, Portugal do outro, Cristiano Ronaldo à memória. É inevitável. Foi contra o conjunto africano que o avançado marcou o seu primeiro golo pela Seleção Nacional, na altura nos Sub-15, numa vitória por 2-0 a 24 fevereiro de 2001, em Torres Novas. Diogo Andrade inaugurou o marcador, o madeirense fechou o resultado nesse particular. Mas não é apenas por isso que vamos buscar esta efeméride com quase duas décadas mas sim pelas palavras dos jogadores na antecâmara da última jornada da fase de grupos deste Campeonato do Mundo Sub-20, que se realiza na Polónia.

“Já o nosso grande Cristiano Ronaldo dizia que isto é como o ketchup: quando aparece o primeiro [golo], aparecem os outros todos. Trabalho para conseguir golos e assistências, procuro também fazer jogar. Infelizmente, não consegui marcar mas o mais importante é que consigamos a vitória no último jogo”, tinha referido Jota após a derrota com a Argentina. “Os golos são como o ketchup: quando começarem a sair, ninguém nos vai conseguir parar a seguir. Temos de trabalhar todos os dias para fazer golos, o importante é continuarmos a perseguir o nosso objetivo”, disse no dia a seguir Diogo Dalot, acrescentando que “os grandes homens e os grandes jogadores levantam-se depois dos resultados menos positivos”.

A expressão não foi “inventada” pelo atual capitão da Seleção mas começou a partir daí a ser utilizada de forma recorrente pelas equipas que, como Portugal frente à Argentina na última terça-feira, conseguem criar oportunidades até com relativa facilidade mas sem a eficácia desejada para converter essas bolas em golos. O físico de Gaich e o virtuosismo de Barco tiveram o condão de expor alguns problemas nas transições defensivas em alguns momentos do jogo com os sul-americanos mas o 2-0 final acabaria por ser enganador para o que se passou. Agora, no encontro frente ao conjunto teoricamente mais acessível nesta fase inicial, a margem de erro seria menor e o conjunto comandado por Hélio Sousa assumiu desde início o comando do jogo mas o problema foi o mesmo: com um penálti falhado, uma bola na trave e muitas chances criadas e desperdiçadas, Portugal não foi além do empate a uma bola e terminou como um dos dois piores classificados do Mundial Sub-20.

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Com duas alterações no onze inicial (que tinha sido o mesmo entre as partidas com a Coreia do Sul e com a Argentina), saindo Diogo Dalot e Miguel Luís das opções por troca com Thierry Correia e Nuno Santos, o primeiro lance de muito perigo até foi dos sul-africanos, com o avançado Kobamelo Kodisang, mais conhecido por Kay Kay, que está cedido por empréstimo do Bidvets Wits à Sanjoanense, a rematar fora da área de primeira numa grande execução técnica que bateu ainda ao de leve no poste da baliza de João Virgínia (4′). No entanto, essa seria uma exceção à regra da primeira parte e, depois de uma defesa atabalhoada para a frente de Kubheka após cabeceamento de Trincão (14′), Rafael Leão inaugurou mesmo o marcador com uma boa receção orientada seguida de remate na área depois de um bom cruzamento da direita do estreante Thierry Correia (18′).

No meio desse sentido único que o encontro foi ganhando, Gedson Fernandes ainda encontrou um telemóvel perdido no meio do relvado que tentou dar ao árbitro dizendo que não sabia o que estava ali a fazer mas que terminou arremessado para fora das quatro linhas. Um momentos de apanhados antes de mais duas oportunidades flagrantes de uma equipa nacional que começou com metade dos seus ataques pelo lado direito: primeiro foi Jota a receber sozinho na área um passe de Leão mas a atirar à figura (30′), depois foi Leão a ganhar espaço logo na receção à assistência de Rúben Vinagre para rematar forte para mais uma defesa de Kubheka (36′). O intervalo chegava com o 1-0 e com notícias que não passavam ao lado do outro jogo do grupo: a Coreia do Sul vencia a Argentina e assim Portugal descia para o terceiro lugar mesmo somando seis pontos.

A expetativa perante os resultados que se registavam ao intervalo era ver um Portugal a subir ainda mais as linhas, a pressionar a África do Sul logo à saída da sua área e a forçar o erro para poder marcar um ou mais golos que lhe valessem a subida pelo menos ao segundo lugar sem depender de terceiros. Ao invés, e no seguimento de uma entrada má a desligada do jogo, a última meia hora chegou com um empate a um, com James Monyane a aproveitar uma grande penalidade assinalada pelo VAR por mão na área para bater João Virgínia (53′) e Jota a falhar um castigo máximo também por mão na bola (60′).

Hélio trocou de lateral esquerdo (Moura no lugar de Rúben Vinagre) e arriscou mais com a colocação em campo de Pedro Martelo em vez de Nuno Santos para Portugal poder jogar com duas unidades na frente ou com Leão mais na esquerda, consoante as necessidades. Trincão, pouco depois dessa segunda mexida, aproveitou uma zona de ninguém à entrada da área para rematar forte mas Kubheka voltou a levar a melhor (69′). Dois minutos depois, após um livre lateral, Diogo Queirós conseguiu subir mais alto na área mas o cabeceamento acabou por bater na trave e não ter recarga que se pedia. A Seleção Nacional arriscava tudo, ficava até exposta em alguns lances ao contra-ataque dos sul-africanos, voltou a ter mais uma grande oportunidade por Rafael Leão travada pelo guarda-redes contrário (81′) mas não voltou a conseguir marcar e foi mesmo eliminado, até pelo triunfo da Coreia do Sul frente à Argentina por 2-1 que, dessa forma, só permitia sonhar com o segundo lugar com dois golos.