Hoje que aprendemos respeitar Luiz Pacheco de uma forma que os seus contemporâneos não foram capazes sabemos também o quão difícil era, quase impossível, ser um autor admirado por ele. Apenas por este facto já Manuel de Lima merecia “que fosse erguida uma estátua sua” numa praça desta cidade. Quem o garante é Rui Zink, que na segunda-feira apresentou, no bar do teatro A Barraca, a Obra Reunida de Lima, que acaba de sair na editora Ponto de Fuga. Alguns contos, uma novela e duas peças de teatro são tudo o que se salvou da vida atribulada deste escritor a quem Pacheco chamava “o careca evidente” e cuja obra é um OVNI na história da literatura portuguesa em geral e na literatura surrealista em particular.

Manuel de Lima, Obra Reunida (contos, romance, teatro, cartas). Editora Ponto de Fuga. 21.96 euros

Tornada célebre nos últimos anos pelas suas tertúlias de poesia e festas de escritores com aspiração a lenda pop, a sala do bar d’A Barraca estava estranhamente vazia, tendo em conta que se esperava o regresso de, nada mais, Manuel de Lima. O escritor Helder Macedo assegurou, num email enviado ao Observador, que era provável que Lima aparecesse com aquele cão do qual ele falava muito nos tempos do café Gelo. Um cão tão, tão cerimonioso que se chegavam a casa ambos ao mesmo tempo ficavam os dois à porta a ceder a passagem um ao outro: não, não entre você. E assim se passava a noite sem que nenhum dos dois conseguisse entrar.

Não sabemos se por causa do cão, se por intrigas da dupla Pacheco & Cesariny, se por causa de uma qualquer beldade perversa que o apanhou no caminho, a verdade é que o careca evidente não apareceu. A noite ficou por conta da sua amiga, a atriz Maria do Céu Guerra, do seu antigo colega de crítica musical nos jornais vespertinos de Lisboa, o ex-secretário de estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, e do escritor Rui Zink, que garantiu que era desta que que quebrava “a maldição” dos livros de Manuel de Lima, que trazem consigo um historial de fracassos de vendas. Note-se contudo, que estes “fracassos” aconteceram no tempo em que uma peça de teatro vendia mil exemplares, o que hoje corresponderia a um mega-sucesso.

A sala quase vazia da Barraca não augura nada de bom para esta cuidada edição que saiu da mãos de Vladimiro Nunes, da Ponto de Fuga, depois de mais de uma ano de trabalho que passou por vasculhar o espólio de Natália Correia, as cartas de Luiz Pacheco, procurar a viúva de Lima numa Venezuela em caos e escrever uma longa e saborosa introdução recheada de cartas, má-língua, amores, quartos alugados, desespero e persistência.

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Neste paraíso de Bosch revisto pelo ilustrador João Rodrigues, os desenhos pontuam com irónica melancolia este volume de quase 600 páginas. Estes esboços de um homem sem cabelo, sem rosto e com uma boina enterrada na cabeça eram depois vendidos por Rodrigues, pelos cafés de Lisboa: “Limas a cinco paus”, que davam para pagar umas bicas, tal como o careca e Cesariny pintavam quadros que depois iam vender para a Costa da Caparica. Vladimiro Nunes junta-se assim a uma estirpe de editores onde se contam Luiz Pacheco (Contraponto), Vitor Silva Tavares ( Ulisseia) e António Carlos Manso Pinheiro (Estampa).

Da esquerda para a direita: Mário Alberto, Luiz Pacheco, Manuel de Lima e Álvaro Galvão, Lisboa, anos 50. Foto: cortesia de Paulo Pacheco

No tempo em que humoristas esgotam salas de espetáculos não sabemos contudo como será recebido o humor absurdo, non-sense e melancólico de Manuel de Lima, que não era reeditado desde 1973. Mas não são esses cultores do humor sem sombras que o editor da Ponto de Fuga espera que venham a ler Malaquias o Clube dos Antropófagos ou A Pata de Pássaro Desenhou Uma Nova Paisagem. Antes “uma franja de pessoas suficientemente desencantadas com este tempo, que cultivam uma fina melancolia face à atualidade. Porque as obras de Lima são um espelho e não uma anestesia”.

“Quando a Contraponto editou Malaquias, com uma vasta campanha publicitária um tanto fora dos moldes habituais (o Gaspar Simões e outros receberam telegramas assinados por Golliwog, um personagem do romance. Destinado ao Gaspas [João Gaspar Simões] era em latim: Cave ne cadas!, tem cuidado não caias, estávamos preparados para o pior. E aconteceu. (…) a ficção de Manuel de Lima, que segue a linha do Almada e vem por aí fora até às experiências mais recentes, as novidades que saltam sobre o pesadume neorealista, os existenciais em terceira mão, os novíssimos que nasciam já sem dentes. Que a crítica gasparota, a universitária, a sectária, lhe permaneçam indiferentes, hostis, que importa? Todas terão a sua guilhotina própria. Que é o Juízo do Tempo.” [Luiz Pacheco, Textos de Guerrilha]

Um aristocrata marginal

Pouco se sabe da vida de Manuel de Lima até ao momento em que entra para o circulo de amizades da poeta Natália Correia e vê publicado o seu conto O Homem de Barbas, em 1944. Nem família, nem idade, nem genealogia. Dizia vagamente que tinha nascido depois do Armistício (1918), mas agora sabe-se que nasceu em 1915, em plena Guerra, portanto. Estudou música no Conservatório mas abandonou o curso a meio. Tocou violino na Emissora Nacional, em fossos de orquestra, em paquetes coloniais, no S. Carlos e no Villaret até ao dia em que colocou o instrumento musical no prego e deitou fora o recibo. Só voltaria à música como espectador e como crítico no Século Ilustrado, no Artes e Letras, no Diário Popular. Sonhava com uma utópica orquestra sem maestro, com um meio literário sem Neorealistas nem João Gaspar Simões. Amava a peça Woyzeck de Georg Büchner, partia muitos corações femininos, mas só mesmo a ópera o fazia chorar.

Durante décadas teve um romance intermitente com Natália Correia. Acabaram por cortar relações com amargura

Apesar de ter tido o primeiro livro prefaciado por Almada Negreiros, os contos de Lima não entusiasmaram o sumo pontífice da crítica literária, João Gaspar Simões, mas conhecido como o “gaspas”. O escritor só voltaria a publicar 10 anos depois, em 1953, o Malaquias ou a História de um homem barbaramente agredido, já com Luiz Pacheco, que investiu no romance e na publicidade todo o seu dinheiro. A obra, como todas as de Lima, tende a esquivar-se a classificações simplistas, mas nela encontramos o absurdo de Ionesco ou Bunüel, com a respetiva feição surrealizante, mas mais nihilista e menos freudiana. O livro foi prefaciado pelo poeta António Maria Lisboa:

“Malaquias tem o seu lugar nas suas épocas, em todas, e o Manuel de Lima, podemos dizer, é as épocas (…) como Manuel de Lima sonha na nossa cabeça. Não é uma história de que somos espectadores, mas um sonho que o autor tem que nós e Malaquias vivemos.”

Infatigável contador de histórias, usava com os seus interlocutores o método que Sherazade usava com o Sultão, para os manter em permanente encantamento e idealmente pagarem depois o almoço ou o jantar. Entre dias e dias em jejum e jantares opíparos no Gambrinus, entre quartos alugados de onde tinha de fugir por não pagar a renda e as festas de Natália Correia, entre cravar “vintes” e “cemzes”, herdar os fatos do empresário Manuel Vinhas e ser o crítico musical mais temido pelos maestros deste país, Lima foi sempre um aristocrata que, ensinado a não dar importância ao dinheiro, vivia perdulariamente entre os marginais.

Mesmo dentro de um grupo tão excêntrico como era o Café Gelo, Lima era uma criatura solitária, esquiva, misteriosa, algo perdida no seu universo humorístico que era simultaneamente compassivo e aniquilador. Como conta Maria do Céu Guerra, o escritor tanto podia enaltecer alguém como a seguir arrasá-lo como uma só frase. O seu olhar — onde se juntava uma profunda e comovida compreensão da alma humana com uma capacidade de ser venenoso e perverso — plasma-se em todos os seus livros, perante os quais nos rimos mais para dentro do que para fora, porque, dificilmente, não nos reconhecemos nas sua personagens, todas elas fadadas a viverem, como o próprio Lima, sobre o signo do “quase” sem nunca chegarem a tocar o Sol, a brasa, o céu prometido.

Panfleto satírico feito por Manuel de Lima, Luiz Pacheco e Natália Correia, assinado por um tal de Delfim da Costa. Aqui a visar o antigo amigo Almada Negreiros e o crítico José- Augusto França

O encontro de Lima com Natália, Pacheco e Cesariny parece pois uma coisa óbvia num meio cultural abafado e pouco aberto a inovações e muito menos a pessoas que tinham ficha na PIDE não devido às suas incursões na oposição mas à sua vida íntima. E, se a sua relação com Natália foi um longo e intermitente romance que acabou em zanga, a sua relação com Pacheco e Cesariny não foi menos truculenta.

Quando, Lima morre, em 1976, há muito que o quarteto terrível, que fazia panfletos com exéquias fúnebres satíricas, se tinha separado. Ainda assim Pacheco foi o único que continuou a ter uma admiração assumida por Lima e a lembrar o quão importante era lê-lo. Maria do Céu Guerra recorda-se de que, no dia 25 de Abril de 74, enquanto desciam a Avenida e Pacheco gritava “para o ano menos livros p’ró Urbano”, ela reparou que ele tinha vestido um fato que era de Lima e lhe disse que era uma vergonha ele andar com fatos de uma pessoa com a qual não falava. Pacheco tranquilizou-a, dizendo que ele e Lima eram primos, pelo que poderiam estar zangados, mas seriam sempre “da mesma família”.

Casado, quotidiano e… morto

“Limas a cinco paus”, ou Manuel de Lima caricaturado por João Rodrigues

É quase impossível ler Manuel de Lima e não nos identificarmos com as suas personagens que, no meio do ridículo, tentam salvar o que resta da sua dignidade para escaparem à animalidade que parece ser o seu destino. Aqui não há redenção, nem amanhãs que cantam, apesar de o escritor ler Bulgakov e admirar Álvaro Cunhal. Bebeu do modernismo de Almada Negreiros e, como ele, mostrou a banalidade invadida pelo absurdo para nos falar do avesso do mundo, da mesquinhez, da pequenez de todos mesmo dos heróis. A diferença entre ele e outros escritores que usam o realismo com forma de sátira, diz-nos Vladimiro Nunes, é que “Lima não se colocava em bicos de pé, não se fazia superior à turba, ele era sempre tão visado pela crítica como os outros”.

Nas suas novelas ou peças teatrais, como na sua vida, Manuel de Lima pareceu sempre ter um horror à banalidade, ao quotidiano, para ele a normalidade só pode gerar monstros. Por isso os amigos ficaram espantados quando, já com 60 anos, o escritor e crítico decidiu abandonar tudo, casar com Maria Magdalena Hernandez, a ex-mulher do embaixador da Venezuela em Portugal, um caso de amor antigo. Desencantado com as ideologias e as revoluções, talvez cansado de viver em quartos de circunstância, do seu eterno papel de guerrilheiro no meio literário que insistia em não lhe dar crédito, Lima partiu para Caracas para, dirão os românticos, viver o amor da sua vida (mas de qual vida, se ele teve tantas?), ou para apressar a morte, dirão os desencantados.

Certo é que o artista já tinha problemas cardíacos e na Venezuela “a esposa obrigava-o a uma vida regrada: dormir de noite e não de dia, levantar-se cedo, comer devidamente”, recorda Mário Vieira de Almeida. Foi portanto um homem novo que voltou a Portugal no verão de 76 supostamente para visitar amigos e reunir papéis. Instalou-se em casa de Maria do Céu Guerra e do marido, o artista plástico Mário Alberto. Rapidamente regressou ao álcool, ceias e noites longas. Talvez por isso, talvez porque tenha desistido Manuel de Lima teve um AVC e morreria em outubro desse ano, em Lisboa, de onde afinal ele nunca terá saído.

“Se não fosse o facto de se encontrarem juntos, talvez sentissem grande admiração pelo feito do seu conterrâneo. Porém, reunidos em sociedade foram arrastados pela força reacionária da maioria, sempre hostil a inovações que possam perturbar, de algum modo a rotina retrógrada da existência”
[Manuel de Lima, Um Homem de Barbas e outros contos]