Agustina Bessa-Luís é uma escritora com muito mais defeitos do que qualidades. Os enredos de cordel, os episódios sempre longos, sem o menor sentido de ritmo narrativo, as sentenças grandíloquas e até pretensiosas, os dramas intelectualizados sem temperança, as biografias pouco rigorosas e ultra-interpretativas, tudo isso estaria marcado a vermelho no manuscrito de qualquer aspirante a escritor.

A crítica, com a sensação legítima de que, ainda assim, há em Agustina alguma coisa que é superior aos seus defeitos, tem-se esforçado por maquilhá-los. A escrita sem ritmo é “barroca”, os aforismos são “profundos” e as peripécias de chinelo são “conhecimento da natureza humana”, ou “revolta contra o neo-realismo”. Que Agustina tenha consciência do lado novelesco dos seus romances é suficiente para transformar em qualidade o que de outra forma seria defeito. Agustina é profunda no pensamento e ligeira na acção, tornando-se assim uma maravilhosa contradição ao gosto contemporâneo. “Complexa”, forma polida de desvalorizar contradições, “difícil”, forma de passar os óbvios defeitos da romancista para o entendimento do leitor.

No entanto, aquilo que nos parece errado na forma de falar sobre Agustina vem de uma intuição que nos parece muito mais certa. Não é precisar assobiar ao lado dos defeitos para ver em Agustina uma grande escritora; isto porque Agustina é muito maior do que os seus defeitos.

Agustina, em primeiro lugar, deu representatividade a uma parte do país sem representação desde os princípios do romance. Desde que o século XIX transformou o romance na forma narrativa por excelência, o mundo rural e nortenho foi olhado por ele de várias maneiras. Ou como o paraíso esquecido, em que o mundo citadino recupera a inocência e os costumes simples, ou como o reduto de Portugal genuíno, habitado por galhardos descendentes de fidalgos medievais, ou, mais recentemente, como o depósito dos abandonados.

Os escritores navegam entre estes mundos: Júlio Dinis é o mais óbvio representante do primeiro ponto de vista, mas também bebe do segundo; a “morgadinha” é, como os “Teles” de Malheiro Dias, “Gonçalo Ramires” ou “Calisto Elói da Barbuda”, um símbolo desta ideia oitocentista de que as fidalguias tinham cristalizado no Norte, e de que as verdadeiras linhagens, ao contrário do que nos diz a historiografia mais recente, não tinham acompanhado a descida da corte e continuavam no território dos velhos infanções. O Norte, sobretudo o Norte Rural, é assim o lugar da pureza, tanto moral como linhagística, que faz do romance sobre o Norte um confronto constante entre os mais altos, as linhagens mais antigas, e os mais pobres. É certo que em Camilo há uma certa variação; mas fora os corpos estranhos, como os Brasileiros ou os “francesados”, a sua sociedade rural também é horizontal ou binária: ou relações de pobres com pobres, ou relações de pobres com ricos.

A sociedade de Agustina, porém, tem uma subtileza e uma complexidade muito mais apuradas. Do ponto de vista moral, Agustina está muito longe de todas as concepções, oitocentistas ou novecentistas, do mundo rural. A terra não é um lugar puro mas é, como a literatura parece ter esquecido, o lugar do castigo. Os trabalhadores da terra são aqueles que esburacam o tecto dos demónios, pelo que a maldição, a desgraça, está sempre iminente. O mundo rural de Agustina não é o mundo solitário do romance moderno, um mundo em que o abandono significa somente a ausência de sociedades e a visão das personagens como vítimas, como solitários abandonados.

Em Agustina há um abandono, mas no sentido de vermos sociedades abandonadas. A lei está longe, o socorro também, pelo que a distância liberta, e não no bom sentido. As personagens de Agustina (naquilo que pode ser uma influência de Kierkegaard) estão mais entregues a si próprias, e isso aproxima-as mais do demónio do que de Deus. A liberdade não é um passo para a bondade, é um passo para a melhor expressão de cada um, e esta individualidade é aquilo que mais aproxima o Homem do mal. O Homem Bom age como Deus, o Homem mau age como quer, como ele próprio. Daí que o a distância seja, em Agustina, muito mais trágica. O mundo rural não é um castigo para pessoas boas, é um castigo que além disso cria pessoas más.

Ora, acontece que este mundo não é interessante apenas do ponto de vista moral. Agustina vê uma sociedade muito mais complexa do que qualquer literatura sobre o mundo rural nos tinha trazido até agora. Os fidalgos e os patrões não são, à maneira oitocentista, as linhas puras e inacessíveis que o povo ora odeia ora admira; estas sociedades são pequenas, a distância entre uns e outros é impossível, pelo que o mundo está cheio de bastardias, parentescos longínquos e nuances genealógicas que tornam as distâncias e as proximidades muito mais subtis, muito mais complexas e muito mais desejadas.

O mundo de Agustina não é propriamente um mundo de fidalgos; é um mundo de figuras principais, algumas levemente afidalgadas, e isso, em vez de mitigar as hierarquias, torna-as muito mais desejadas e difíceis. Como explica Girard, a igualdade traz uma violência desejosa de distinção e de distância. Ora, Agustina fez do seu mundo um exemplo perfeito disto mesmo. Famílias orgulhosas mas cheias de falhas no seu orgulho, ciosas dos seus estatutos incompreensíveis à distância, com lendas genealógicas mirabolantes para desculpar traições, vícios ou desgraças, este é um mundo em que tudo é tão próximo que as distâncias, com a crueldade que implicam, têm de ser constantemente conquistadas.

Este mundo cheio de comunidades independentes, Homens modicamente prósperos e famílias mais ou menos tradicionais, parece ser um modelo para a clara paixão que o mundo conservador ganhou por Agustina. No entanto, há um ponto da sua obra que nos parece visceralmente mais próximo do pensamento conservador e que é pouco explorado, quer no olhar sobre Agustina, quer na mundividência conservadora. Há, nas mentes mais rápidas e mais facilmente talhadas para aferir as consequências dos seus raciocínios, uma evidente queda para o cepticismo. Isto porque é fácil perceber até que ponto é que os nossos raciocínios estão sempre dependentes de premissas que, por sua vez, dependem de outras premissas, de tal modo que umas se sustentam às outras ou se sustentam numa grandiosa primeira premissa abstracta. Ora, este modo de entender a razão como um jogo de desenvolvimento sobre ideias que se justificam a si próprias, sem um ponto sólido de apoio, casou bem com um tipo de pensamento que não defende grandes causas nem grandes justificações, que acredita mais na realidade do que nos seus princípios e que tem pouca fé nas capacidades do Homem.

Agustina tem, de facto, uma razão céptica, no sentido em que as suas observações sobre a Natureza Humana nunca são soluções; isto é, Agustina é hábil a ver a maldade, e a perceber de que sentimentos ou de que ideias virá a degeneração ou a desgraça dos Homens; no fundo, é hábil a perceber o erro, à maneira céptica, mas nunca propõe a solução.

Ao mesmo tempo, porém, há na sua forma de pensar algo que a afasta do mero cepticismo conservador. É que a razão de Agustina, além de cética, é cínica, e é cínica de uma maneira muito peculiar. Agustina não acredita nas soluções da razão, percebe que a razão se propõe a objectivos que não pode alcançar, mas ainda assim gosta dela. A razão céptica percebe que não encontra a solução, que não propõe nada para o Homem a não ser que ele viva como quer; a razão cínica percebe, além disso, que o Homem quer mais do que aquilo que pode, e Agustina, além do mais, diverte-se a apontar o erro.

O olhar de Agustina sobre o Homem é maldoso, tem um prazer na malícia que é quase assustador; Agustina percebe a inutilidade daquilo que nos é mais querido, mas ao mesmo tempo não deixa de gostar disso. Daí que haja nela, ao mesmo tempo, uma certa admiração e uma quase inconsequência a respeito das grandes ideias sobre o mundo. O Cristianismo não é para ela verdadeiro, mas é um prazer da razão; o mesmo acontece com a psicanálise, ou com qualquer grande sistema; o pensamento de Agustina tem aquela forma cáustica e destruidora dos grandes cépticos; mas isto, que na generalidade traz ao Homem uma solidão difícil, em Agustina torna-se um prazer aterrador. Agustina viu tudo e não acredita em nada. Ainda assim, este vazio nunca a assustou, alegrou-a. É isso que a torna tão fascinante, tão grande, maior do que tudo, mas também tão assustadora.