Com a exceção de “O Dia Mais Longo”, a maioria dos filmes em que aparece o desembarque do Dia D integra este acontecimento numa narrativa maior, que o ultrapassa ou utiliza como um elemento secundário. De “Mais do que Permite a Força Humana”, rodado em 1950 e que inclui a primeira referência à invasão aliada da Normandia, a “Operação Overlord”, de 2018, que, sinal dos tempos, cruza o filme de guerra com o de “zombies”, passando pelo modesto e intimista mas poderoso “Overlord”, feito em 1975, eis oito títulos em que o Dia D está contemplado.

“Mais do que Permite a Força Humana”

De Lewis Seiler (1950)

Embora o desembarque da Normandia seja apenas um dos episódios deste filme de guerra que se centra numa companhia de infantaria do exército dos EUA, desde o treino para a invasão em Inglaterra até ao combate na Europa em 1944 e 1945, ele fica para a história do cinema como o primeiro em que o Dia D é referido e recriado. Vários dos “extras” que participam em “Mais do que Permite a Força Humana” (“Breakthrough”, no original), combateram mesmo na II Guerra Mundial, que tinha terminado apenas cinco anos antes desta produção, contribuindo assim para a sua autenticidade. O veterano realizador Lewis Seiler serviu-se também de muitas imagens de arquivo.

“6 de Junho-Dia D”

De Henry Koster (1956)

Apesar da data da invasão da Normandia dar título a este filme, o desembarque em si ocupa apenas os 15 minutos finais da narrativa. Trata-se de um típico melodrama em tempo de guerra, contado em “flashback”, em que dois homens, um oficial americano (Robert Taylor) e outro inglês (Richard Todd) se preparam para participar na Operação Overlord, enquanto recordam os romances que tiveram com a mesma mulher (Dana Wynter). Lionel Shapiro, autor do livro em que este filme se baseia, foi correspondente de guerra e desembarcou com as forças canadianas no Dia D, na Praia Juno.

“O Dia Mais Longo”

De Ken Annakin, Andrew Marton, Gerd Oswald, Bernhard Wicki, Darryl F. Zanuck (1962)

Esta colossal e multinacional adaptação ao cinema do livro homónimo de Cornelius Ryan é o filme de referência sobre o desembarque da Normandia. Muito embora, e famosamente, o antigo Presidente dos EUA Dwight D. Eisenhower, à época Supremo Comandante Aliado encarregue do planeamento e da supervisão da Operação Overlord, tenha visto apenas o princípio de “O Dia Mais Longo” e depois abandonado o cinema, de tão incomodado que estava com as imprecisões e liberdades do argumento. “O Dia Mais Longo” foi rodado “in loco”, com os vários segmentos entregues a realizadores das respetivas nacionalidades. Alguns dos atores participaram mesmo nos desembarques do Dia D. Foi o caso do inglês Richard Todd, que interpreta o papel do comandante das tropas que tomaram a Ponte Pégaso, operação na qual esteve envolvido como soldado páraquedista. Os escritores James Jones e Roman Gary foram dois dos argumentistas da fita.

“Herói Precisa-se”

De Arthur Hiller (1964)

James Garner, James Coburn e Julie Andrews são os principais intérpretes desta comédia negra escrita por Paddy Chayevsky, condecorado por heroísmo durante a II Guerra Mundial, e cuja experiência de combate o pôs contra a glorificação da mesma e o falso heroísmo. Garner interpreta um oficial da Marinha que só quer boa vida em Inglaterra, onde está colocado, e ficar o mais longe possível da frente de combate. Mas acaba por ser um dos primeiros a desembarcar na Normandia, na Praia Omaha, e é transformado em herói de guerra por equívoco, quando tenta bater em retirada e é alvejado a tiro por um amigo ultra-militarista.

“Overlord”

De Stuart Cooper (1975)

Fotografado a preto e branco por John Alcott, que trabalhou em vários dos filmes de Stanley Kubrick, este filme inglês modesto de meios e intimista está em tudo nos antípodas de “O Dia Mais Longo”. Integrando material de arquivo numa narrativa ficcional, Stuart Cooper acompanha aqui um soldado inglês, Tom (Brian Stirner), desde os tempos da recruta até ao momento em que desembarca na Normandia, fazendo-nos partilhar o seu ponto de vista e a sua experiência dentro da colossal máquina militar aliada. “Overlord” é a pequeníssima mas poderosa história de um entre milhões de soldados que combateram na II Guerra Mundial, e tem um final de choque.

“O Sargento da Força Um”

De Samuel Fuller (1980)

O título original deste filme é “The Big Red One”, o nome dado à 1ª Divisão de Infantaria, a unidade onde o multicondecorado realizador Sam Fuller combateu na II Guerra Mundial, e com a qual desembarcou na Normandia, episódio que recorda a certa altura da história. Lee Marvin, que tal como Fuller era um veterano daquele conflito, tendo servido com os Marines no Pacífico, personifica o sargento duro de roer de um pelotão que luta em diversos dos teatros da II Guerra Mundial, destacando-se quatro dos seus soldados. Uma das imagens mais emblemáticas desta fita é a da mão de um soldado americano morto no desembarque na Praia Omaha, com a água em seu redor a ficar cada vez mais vermelha de sangue à medida que as horas (que vemos no seu relógio) passam.

“O Resgate do Soldado Ryan”

De Steven Spielberg (1998)

O mortífero desembarque na Praia Omaha que abre, de forma inesquecível, esta superprodução de guerra, recriado por Steven Spielberg com um realismo que não poupa sangue, tripas nem mutilações, custou, só por si, 11 milhões de dólares, envolveu um pequeno exército de cerca de mil extras e demorou um mês a rodar. O que as convenções e restrições da época em que “O Dia Mais Longo” foi filmado não permitiam, em termos de violência, que fosse mostrado em pormenor, Spielberg mais do que compensa em “O Resgate do Soldado Ryan” de forma explícita. De tal forma, que o resto da fita se esforça para estar à altura da sua arrasadora abertura (e não consegue). E há a história do velho ator alemão e veterano da II Guerra Mundial que tinha lutado na Normandia e estava a dobrar o filme em estúdio, em Berlim, tendo desistido de o fazer, tão forte foi o impacto emocional da sequência do desembarque sobre ele.

“Operação Overlord”

De Julius Avery (2018)

É caso para perguntar que mente doentia teria a ideia de cruzar um filme sobre o desembarque na Normandia com um filme de “zombies”. A resposta: os autores de “Operação Overlord”. No Dia D, um esquadrão de páraquedistas americanos tem a missão de destruir um emissor de rádio alemão instalado na igreja de uma vila francesa. O avião que transporta os soldados é abatido e quase todos os comandos perecem no desastre ou são mortos depois pelo inimigo. Apenas quatro sobrevivem, e acabam por fazer uma horrenda descoberta: os nazis têm um laboratório secreto na vila e estão a fazer experiências de reanimação de mortos. “Zombies” no Dia D, eis que já vimos tudo.