Nasceu e cresceu na Índia, mas foi no Canadá que concluiu os estudos em Informática, há mais de 15 anos. Komal Singh, gestora de programas de engenharia da Google desde 2016, é o rosto e o cérebro por detrás da história de Ara, uma menina de seis anos que quer ser engenheira das estrelas e que conta com a ajuda de Kripa (a prolífera solucionadora de problemas), Parisa (a intrépida inovadora), Diane (comandante da codificação) e de Marian (a reparadora obstinada) para conseguir criar o algoritmo que vai permitir contar todas as estrelas do céu.

A missão da pequena Ara e da sua androide Deedee chegou a Portugal a 4 de junho, pela Asa, depois de Komal Singh ter decidido explicar e mostrar à filha de 4 anos que a engenharia não é só para rapazes. A ideia surgiu quando a filha lhe disse uma coisa que “está muito enraizada na nossa sociedade: que ‘os engenheiros são meninos'”.

A capa de “Ara, a engenheira das estrelas”, de Komal Singh (Asa)

“Quando ela disse aquilo, tocou-me, porque antes de qualquer outra coisa sou mulher, depois, sou uma mulher em tecnologia, mãe de duas crianças e também uma pessoa de cor. Percebi que era algo que alguém como eu precisava de fazer. Lido com tecnologia há 15 anos e parece que fiquei imune, mas ouvir isto de uma criança foi muito doloroso. Comecei a pesquisar sobre o porquê de as crianças desenvolverem este preconceito e encontrei investigação publicada que prova que as meninas se desinteressam pelas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) por causa do preconceito social e não porque são menos inteligente ou capazes”, contou ao Observador.

Antes de ser responsável pela programação da Google, Komal trabalhou durante oito anos na Accenture, primeiro como engenheira de software e depois como gestora de tecnologia. Quando começou a fazer investigação para o livro infantil, percebeu que, nos EUA e no Canadá, menos de 5% dos livros têm como personagens meninas de cor e a percentagem daqueles que incidem sobre as CTEM é ainda menor. Não teve dúvidas de que era isto que queria fazer.

“Os livros são um meio universal para falar com as crianças e os seus pais e são acessíveis a qualquer grupo. E daí surgiu a ideia de editar este livro, que, ao longo do tempo, se tornou num projeto não apenas meu mas no de mais pessoas. Comecei o livro enquanto projeto paralelo à Google, mas comecei a discutir estas ideias com mais e mais colegas e todos eles se reuniram para ajudar de todas as formas que conseguiram. De certa forma, tornou-se num projeto comunitário”, acrescenta.

Mas um livro infantil é suficiente para combater a desigualdade de género que se vive na indústria tecnológica? Não, mas é uma ajuda, reconheceu a engenheira. E os livros podem ser fundamentais, porque quando as crianças leem criam imagens mentais na sua cabeça sobre o que leem e essas imagens permanecem durante muito tempo, explica. “Se as crianças conseguem começar a duvidar das suas capacidades nessa idade, sobretudo as raparigas e as minorias, então também podem criar imagens das suas competências ao verem livros que foram escritos por mulheres pioneiras que resolveram os grandes problemas dos computadores nos dias de hoje. Podem dizer que se estas mulheres conseguiram fazê-lo, então também consigo.”

E quanto à discriminação? Diz que é uma “sortuda”, porque nunca viveu nenhuma situação em que se sentisse discriminada, ainda que reconheça que é um problema. “Sei que há mulheres que já sentiram, eu não, mas vejo muito preconceito inconsciente no dia a dia. Quando estava na escola, éramos cerca de 5 raparigas numa turma de 40, então, quando acertávamos alguma coisa nas aulas de ciências de computação, os professores achavam que era apenas força do acaso. Não levavam sequer a sério. E no trabalho, vejo pequenas coisas acontecerem que te fazem duvidar de ti, se pertences ou não àquele sítio”, conta, à medida que dá exemplos: os memes de celebração que algumas equipas partilham para celebrar os objetivos alcançados.

“Como a maioria das pessoas que criam os memes são homens, então, todos os memes de celebração que temos são de homens, não há mulheres”, diz ao Observador.

É então um caminho mais solitário? É. E que conselhos dá às outras mulheres que trabalham em empresas tecnológicas, com muito mais homens do que mulheres? Os mesmos que dá às crianças que lerem “Ara, a Engenheira das Estrelas: “Ser uma boa programadora ou engenheira é uma parte da vida, importante para o sucesso, mas não é o único ingrediente. Se queres resolver um grande problema tens de ter coragem para dar o primeiro passo. Muitas de nós nem sequer tentam, com medo de falhar. Dar o primeiro passo é a ação principal e isso vem da coragem. Depois, é preciso criatividade para pensar em diferentes formas de resolver problemas e é disso que a tecnologia trata hoje: de resolver os mesmos problemas, mas com um novo ângulo, uma nova lente. E, depois, a colaboração. E isso é muito importante: tens de saber como criar uma equipa, como motivá-la e fazer com que continue”.

Komal Singh apresentou a versão portuguesa do livro infantil “Ara, a engenheira das estrelas”, a 4 de junho na Feira do Livro de Lisboa

A engenheira que adora cupcakes, analisar dados e sonhar acordada diz que a própria perceção que se tem da tecnologia está a mudar: no início, versava muito sobre desenvolvimento de hardware, de semicondutores, de construir computadores. E acrescenta que agora existem “coisas como as linguagens de alto nível” e que, por isso, qualquer pessoa pode aprender a programar. O foco não está tanto no desenvolvimento de infraestruturas e mais nos problemas dos negócios. É mais sobre como devemos usar a tecnologia para resolver problemas, diz.

Agora, as pessoas estão a começar a pensar em formas muito criativas nas quais podem aplicar tecnologia. E acho que é aqui que as mulheres precisam de se envolver e de fazer parte. Porque estamos a fazer produtos para o mundo e se as mulheres não fizerem parte do desenvolvimento da força de trabalho, então não vamos fazer produtos inclusivos para o mundo. Os pacemakers, por exemplo, são mais testados nos corações dos homens do que nos das mulheres, então estão desenhados para a saúde e anatomia do homem e não para a da mulher”, acrescenta.

Responsável pela programação da Google, quando o Observador lhe pergunta se esta é também uma forma de a empresa melhorar a sua imagem — depois de ter sido alvo de alguns processos judiciais por discriminação de género –, responde que “é uma pergunta interessante”, mas que “o livro não é um produto da Google”. “É um produto feito com a minha boa vontade e a boa vontade de algumas pessoas que sentiram uma ligação a esta causa. Pode a Google fazer parte? Talvez, não tenho uma boa resposta para isso.”

Sobre a forma como Silicon Valley e a indústria tecnológica tem tratado as mulheres, diz que há coisas que os líderes das empresas podem fazer, mas que que são as pessoas, a sociedade que tem de continuar a agir. “Os homens têm de ter consciência de que, se têm uma mulher na sua equipa, então têm de se certificar que têm um ambiente inclusivo e que não partilham memes só para homens. Por isso, a sensação que tenho é que o que a sociedade e o público fazem, em grande escala, é mais importante do que aquilo que os líderes fazem”, diz.

Às crianças que crescem e que escolhem um caminho na área tecnológica pede para não desistirem, seguirem o seu caminho, “porque vão inspirar todo um outro grupo de mulheres a fazer o mesmo. Não pensem que estão sozinhas e falem, estiverem a ter problemas e encontrem um mentor, seja homem ou mulher”.