O Ministério Público acusou 82 pessoas, a maioria cidadãos marroquinos, pela prática de crimes de associação criminosa, burla qualificada, branqueamento de capitais, falsificação de documentos, venda, circulação ou ocultação de produtos e artigos e corrupção ativa e passiva, avança o jornal Público. Quatro funcionários da CTT estão entre os acusados. Segundo a acusação, vendiam ténis falsos como se fossem verdadeiros. Lesados recebiam caixas vazias ou com chinelos velhos.

Os quatro funcionários dos correios são todos da zona de Leiria, duas mulheres e dois homens. Segundo o Ministério Público, juntaram-se aos outros arguidos, num esquema de burla que ultrapassou mais de três milhões de euros. Alegadamente, foram essenciais para todo o esquema porque facilitavam a criação e manutenção de novos apartados.

De acordo com o Ministério Público, dois dos arguidos, um casal — Tarik H., marroquino, e Alice B., portuguesa — criavam páginas no Instagram e no Facebook com anúncios de ténis de várias marcas a preço de saldo (entre 35 a 70 euros cada par). Por dia, chegavam a ter entre 300 a 500 encomendas e, com a burla a aumentar, juntaram mais pessoas ao esquema. As páginas criadas tinham nomes como ““Ténis Xpto”, “Sapatilhas da moda” ou “Loja da Lili”.

Os funcionários dos CTT criavam, alegadamente, apartados nos Correios e ajudavam o casal a continuar esta burla. Foram criados apartados na Maceira, Marinha Grande, Minde, Caranguejeira, Batalha, Marrazes, Pombal, no concelho de Leiria e em Santarém e Vila Real de Santo António, no Algarve. Além disso, empacotavam o material e geriam as encomendas. Por dia, cada um fazia entre 30 a 50 euros.

Um dos exemplos dados pelo jornal é o de “João C.”, um esteticista de 22 anos, que sempre que cumpria uma tarefa recebia entre 20 e 30 euros, além de bebidas e entradas em discotecas.

Os funcionários dos CTT não ligavam ao acumular de queixas de clientes dos Correios e continuavam a permitir que os arguidos descarregassem encomendas. Além disso, entregavam dinheiro em vales postais sem verificar a assinatura.

Ao todo, a acusação tem mais de 700 páginas e 1088 testemunhos de pessoas que foram enganadas por todo o país. Há quem afirme que pagou 42 euros por um par de ténis Nike, mas recebeu uns usados. Há também quem tenha pago 44 euros por uns ténis Asics, mas recebeu um par de botas de salto alto. Havia de tudo, desde caixas a chegarem vazias a réplicas contrafeitas. Contudo, nunca eram os ténis prometidos.

Para branquear o dinheiro, os arguidos transferiam o que ganhavam para contas no estrangeiro, em Marrocos, e compravam imóveis em nome de familiares.

O Ministério Público quer agora julgar os 82 arguidos. Desde maio de 2018 que 13 pessoas estão em prisão preventiva, dois estão com pulseira eletrónica e outros dois têm de se apresentar mensalmente às autoridades (a dois dos funcionários dos CTT foi aplicada esta medida). Na aplicação das medidas de coação foi considerado que os arguidos podiam continuar a atividade criminosa, fugir ou perturbar o inquérito.