Um mestre entre mestres — é esta a melhor forma de apresentar a mais recente exposição da Wallace Collection, que convidou Manolo Blahnik, o génio dos sapatos, a expor uns quantos pares no centro de Londres. No total, são 160, resultado de quase 50 anos de marca — a data redonda é alcançada no próximo ano — e de uma curadoria levada a cabo por Xavier Bray, diretor da Hertford House, e pelo próprio designer espanhol, de 76 anos. O cenário é de exceção. Aos interiores ricos, datados do século XVIII, junta-se uma coleção de arte que inclui obras de Boucher, Rembrandt e Velázquez, entre outros.

Aos 76 anos, o espanhol Manolo Blahnik é considerado o designer de sapatos mais famoso do mundo. No próximo ano, a sua marca homónima celebra 50 anos © Jason Hughes

A admiração do senhor Blahnik por este ambiente já não é de hoje. “Foi há muitos e longos anos. Foi o [editor e designer de interiores] Min Hogg que, há anos, me falou desta casa divina, onde se podem descobrir vários objetos lindíssimos. É uma casa única no mundo. Estão aqui 11 [quadros de] Fragonard… Inglaterra devia pular de alegria por ter tal coisa”, referiu Manolo Blahnik durante a visita que antecedeu a inauguração da exposição, no último fim de semana, citado pela Vogue.

As peças provêm do arquivo do próprio designer e fundem-se perfeitamente no cenário do museu. O universo de influências e referências de Blahnik, supracitado na série “O Sexo e a Cidade” por ser o favorito de Carrie Bradshaw, vem ao de cima. Da commedia dell’arte ao rococó do século XVIII, dos códigos estéticos tipicamente britânicos ao gosto pelo ornamento, todos os exemplares foram trazidos diretamente do arquivo do criador, espalhados ao longo de dez salas e protegidos por campânulas de vidro.

O modelo “Olvido”, desenhado por Manolo Blahnik © Manolo Blahnik

Em alguns casos, o diálogo entre arte e sapatos (também eles obras-primas de valor inquestionável) é imediatamente percetível. Acontece com os exemplares cor-de-rosa, desenhados para o filme “Marie Antoinette”, de Sofia Coppola, justapostos ao quadro “O Baloiço”, de Jean-Honoré Fragonard. As decorações douradas dos saltos correspondem-se com os detalhes do mobiliário de André Charles Boulle. “É uma excelente oportunidade para mostrar como a Wallace Collection inspirou um dos grandes génios da moda. Isto também permite que os nossos públicos vejam a coleção com outro enfoque e que estabeleçam ligações entre as várias disciplinas artísticas dentro do museu”, afirmou Xavier Bray, diretor do museu.

A harmonia visual é tal que o próprio Manolo Blahnik sugeriu, em tom de brincadeira, que o museu ficasse com todos os sapatos, quando questionado sobre a possibilidade de alguns exemplares ficarem expostos permanentemente em Hertford House. “Muitas das minhas clientes são mulheres na casa dos 70, mas agora temos as filhas dessas mulheres e até mesmo as netas. Espero que essas netas venham ver esta exposição”, rematou o designer.

Os sapatos desenhados para o filme “Marie Antoinette”, junto ao quadro “O Baloiço” de Fragonard © The Wallace Collection

Por enquanto, a exposição “An Enquiring Mind: Manolo Blahnik” fica patente até 1 de setembro, com entrada livre, na zona de Marylebone. Para o mês de julho já estão marcadas conversas em torno da coleção da casa e da obra de Blahnik. Temas como “Moda ou Arte?”, “Moda e Poder” e “O Colecionador” fazem parte do programa. A cidade de Londres continua a ser um destino apetecível no que toca a exposições de moda. Até 14 de julho, a exposição “Christian Dior: Designer of Dreams” pode ser visitada no Victoria & Albert Museum.