A pintura Salvator Mundi, atribuída a Leonardo da Vinci e desaparecida desde que foi comprada por um valor recorde em 2017, poderá estar instalada no iate do príncipe saudita Mohammad Bin Salman. De acordo com o Artnet, um serviço de notícias sobre o mundo da arte, o quadro terá sido levado “a meio da noite” para o Serene, originalmente construído em 2011 para o magnata da vodka Yuri Shefle. A informação foi confirmada por duas fontes, não identificadas, ligadas à compra da obra, num leilão em Nova Iorque.

O Salvator Mundi foi comprado por 400 milhões de euros em 2017 por um comprador anónimo. Este foi mais tarde identificado como sendo Bader bin Abdullah bin Mohammed bin Farhan al-Saud, parente afastado da família real da Arábia Saudita. Há, contudo, quem aponte Farhan al-Saud como um mero intermediário do herdeiro da coroa saudita, o príncipe Mohammad Bin Salman, que agora terá o quadro em sua posse.

Esta é a mais recente polémica em torno da pintura que se acredita ter sido executada, total ou parcialmente, por Leonardo da Vinci. Depois do leilão em Nova Iorque, foi anunciado que o quadro seria a estrela do novo Louvre de Abu Dhabi, que abriu portas em novembro de 2017, só que o Salvator Mundi nunca apareceu. Isso levou a que muitos especulassem acerca do paradeiro da obra, que deveria fazer parte da exposição de outubro do Louvre de Paris, que celebrará os 500 anos de Leonardo. Recentemente, porém, surgiram notícias de que o retrato de Cristo poderá não ser exposto em França porque os curadores do Louvre têm dúvidas quanto à sua autoria.

Ben Lewis, autor do livro The Last Leonardo, sobre a história do Salvator Mundi, revelou durante o festival literário de Hay, no País de Gales, que “não há muitos curadores no Louvre a acreditar” que a pintura foi feita por Leonardo da Vinci. Segundo Lewis, o museu pretendia expor o quadro como um trabalho da oficina do artista florentino e não apenas de Leonardo, o que não terá deixado o seu dono satisfeito, já que essa atribuição diminui o valor da pintura.

Questionado pelo Observador no final de abril sobre se a pintura fará ou não parte da exposição de outubro, o Louvre de Paris admitiu ter pedido a obra emprestada e adiantou que esperava uma resposta da parte do dono.

O Observador entrou agora em contacto com o Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, responsável pela gestão do Louvre saudita, mas não foi possível obter uma resposta até à publicação deste artigo.

Quem é que pintou Salvator Mundi? A dúvida permanece

A autoria do Salvator Mundi permanece, até hoje, uma questão delicada. Apesar de alguns dos maiores especialistas na obra de Leonardo não hesitarem em afirmar que a obra teve a mão do artista, continuam a surgir opiniões contrárias. Ainda no início deste mês, num artigo publicado no The Guardian, Carmen Bambach, do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, disse que foi citada de forma errada no catálogo da leiloeira Christie’s, onde surgiu defendendo que Leonardo da Vinci tinha sido o único autor da pintura. Bambach defende que Leonardo pintou apenas uma parte do Salvator Mundi.

As incertezas relativamente ao Salvator Mundi baseiam-se em três pontos principais. Primeiro, e ao contrário de outras pinturas originais do artista, (como a Mona Lisa, que é logo referida na primeira biografia do pintor, de Giorgio Vasari), o quadro não é referido em nenhuma das fontes antigas. Por outro lado, só é possível traçar o seu percurso com certeza a partir do século XX, quando reapareceu no mercado depois de ter sido adquirido por um colecionador britânico, Charles Robinson. Anteriormente a isso, sabe-se apenas que pertenceu, em meados do século XVII, a Carlos I de Inglaterra e que foi leiloado pelo filho do duque de Buckingham em 1763.

Outro problema diz respeito ao estado de conservação. Em 2005, depois de ter sido adquirido por um consórcio de comerciantes de parte que pagou apenas cerca de 10 mil euros por ela, foi alvo de um restauro “radical” que o danificou gravemente (alguns peritos defendem que o Salvator Mundi foi tão restaurado que já nem pode ser considerado um trabalho original). O início do restauro não está documentado na sua totalidade e a publicação de todos os documentos, anunciada várias vezes desde 2011, ainda não aconteceu. Isso faz com que seja impossível dar por encerrado o processo de autenticação e definir, de uma vez por todas, se o Salvator Mundi foi ou não executado, ainda que parcialmente, por Leonardo da Vinci.