Basquetebol

Bird e Magic, a imagem de uma rivalidade histórica entre Celtics e Lakers que deu uma amizade à prova de bala

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Celtics e Lakers têm a maior rivalidade e jogaram a melhor final de sempre há 35 anos. Antes houve Russell-Chamberlain. Depois Big Three-Kobe. Esta é a história de Bird e Magic, os improváveis amigos.

Bird e Magic: uma rivalidade que deu origem a um livro, a uma peça de teatro e a um documentário

O mundo do desporto é feito de rivalidades. Da competição vivida de forma saudável que tem como objetivo derradeiro a vitória final. Da especial satisfação em bater um determinado adversário. Da importância superior que se atribui a alguns jogos, como se valessem mais do que todos os outros. Em Portugal, a rivalidade é normalmente transversal a todas as modalidades em função dos clubes: por exemplo, os adeptos do Benfica gostam de ganhar ao Sporting no futebol, no futsal, no andebol e no vólei e vice-versa. Não importa o que está em jogo, qual é a competição, se se joga com as mãos ou com os pés ou se um é inequivocamente superior ao outro naquela modalidade específica. Isso não interessa. Interessa ganhar ao principal rival.

Em Portugal, clássicos com FC Porto à parte, essa rivalidade no dérbi entre Sporting e Benfica prende-se com a proximidade rara entre os dois clubes. Apenas cinco quilómetros separam o Estádio José Alvalade e o Estádio da Luz, num percurso que demora menos de cinco minutos a cumprir de carro e que envolve a partilha de uma das estradas mais frequentadas de Lisboa e do país. Nos Estados Unidos, e especificamente no basquetebol norte-americano, a história não podia ser mais diferente. A principal rivalidade da NBA começou pouco depois de a liga de basquetebol do país se chamar NBA, tem 60 anos, e está somente relacionada com o facto de se tratarem das duas maiores franquias da história da modalidade nos Estados Unidos. Boston Celtics e Los Angeles Lakers protagonizam a maior, mais longa e mais intensa competição da NBA há seis décadas e a geografia nunca foi um fator decisivo – até porque na altura, nos anos 50, os Lakers ainda estavam em Minneapolis e não em Los Angeles.

Tudo começou em 1959, há precisamente 60 anos, quando os ainda Minneapolis Lakers viviam o primeiro período hegemónico da história da NBA. Na primeira década de National Basketball Association – o primeiro ano em que a organização existiu e passou a dar nome à liga de basquetebol foi em 1950 –, os Lakers ganharam o Campeonato em 1950, 1952, 1953 e 1954. Depois de Syracuse Nationals e Philadelphia Warriors conquistarem os títulos de 1955 e 1956, respetivamente, os Boston Celtics emergiram como segunda potência ao vencerem as finals do ano seguinte e chegarem novamente à fase derradeira em 1958 (onde perderam com os St. Louis Hawks que tinham batido um ano antes). Em 1959, no culminar de uma década quase experimental e que tinha nos Celtics e nos Lakers as duas primeiras estrelas da NBA, Bob Cousy de um lado e George Mikan do outro, as equipas de Boston e de Minneapolis encontravam-se pela primeira vez nas finals.

Um dos mais recentes confrontos entre as duas equipas, com Kyrie Irving e LeBron James enquanto protagonistas

Os Celtics conquistaram o título com um resultado final de 4-0 – quatro vitórias em quatro jogos – e carimbaram o primeiro do que seriam oito Campeonatos consecutivos. Mais do que isso, colocaram um ponto final na hegemonia dos Lakers e abriram um novo capítulo na NBA: os Estados Unidos tinham acabado de assistir ao primeiro episódio de uma rivalidade gigantesca que se estende até aos dias de hoje. No ano seguinte, 1960, os Lakers mudaram-se para Los Angeles mas a mudança não foi sinónimo de grandes alegrias – na década de 60, os Boston Celtics de Bill Russell, Tom Heinsohn, John Havlicek e Sam Jones ganharam o Campeonato todos os anos à exceção de 1967. Os Lakers de Elgin Baylor, Jerry West e Gail Goodrich foram os finalistas vencidos em seis dessas ocasiões e metade dos duelos entre as duas franquias só ficou decidido ao fim de sete jogos.

Os anos 60 de Celtics e Lakers ficaram ainda marcados pela rivalidade pessoal entre Bill Russell e Wilt Chamberlain. O último chegou a Los Angeles em 1968 e engrossou uma competição mano a mano que já ia mantendo com Russell quando ainda jogava nos Philadelphia 76ers. Ainda assim, e apesar da enorme competição dentro de campo, os dois jogadores eram amigos na vida pessoal: até ao dia do decisivo Jogo 7 das finais de 1969. A seis minutos do fim da partida, numa altura em que era já evidente que os Boston Celtics sairiam vencedores, Chamberlain pediu ao treinador Butch van Breda Kolff para não voltar a entrar em jogo, alegando dores fortes num joelho. No final do encontro, no meio dos festejos por mais um título da NBA conquistado, Bill Russell afirmou que Wilt Chamberlain era “um mau perdedor” e que tinha fingido a lesão para não ter de estar em campo quando já tinha certezas de que iria perder. O pivô não perdoou o antigo amigo e os dois não falaram nos 20 anos seguintes. Quando Chamberlain morreu, em 1999, o sobrinho e herdeiro do antigo jogador dos Lakers garantiu que este tinha deixado escrito que Russell seria a segunda pessoa a ser avisada da sua morte.

Antes de Bird e Magic, existiam Russell e Chamberlain: os dois jogadores foram os protagonistas da rivalidade entre Celtics e Lakers nos anos 60

Russell e Chamberlain fecharam uma década de 60 em que os encontros entre Celtics e Lakers foram recorrentes e a rivalidade foi sentida como nunca e abriram uma década de 70 onde as duas franquias nunca se encontraram numas finals e viveram sucesso de forma separada e individualmente. A equipa de Boston voltou a conquistar o título da NBA em 1974 e 1976, primeiro perante os Milwaukee Bucks e depois contra os Phoenix Suns, e os de Los Angeles agarraram o primeiro Campeonato desde que se tinham mudado para a Califórnia logo em 1972, ao baterem os New York Knicks. O pontapé de saída para mais dez anos de rivalidade intensa, tal como em 1959, foi dado no último ano da década: em 1979, os Celtics garantiram o jovem Larry Bird no draft anual e os Lakers ficaram com Magic Johnson. E a competição entre um e outro, tal como havia acontecido com Russell e Chamberlain, já vinha de trás.

Nesse mesmo ano, em 1979, Bird e Johnson disputaram o título da National Collegiate Athletic Association, a liga de basquetebol universitário dos Estados Unidos. Estrelas inequívocas da Indiana State University e da Michigan State University, respetivamente, os dois jogadores acabaram por protagonizar aquela que foi a final universitária mais vista de sempre e que foi desde logo antecipada como um confronto entre o ala e o base – mais do que entre as duas equipas. Magic Johnson (e a universidade do Michigan) saiu vencedor mas a competição estava longe de ter terminado. Um foi para Boston, outro para Los Angeles: e a década de 80 foi a mais importante da rivalidade vivida entre os Celtics e os Lakers.

“Quando o novo calendário era revelado, ano após ano, a primeira coisa que eu fazia era fazer um círculo à volta dos jogos com os Celtics. Para mim, eram aqueles dois e depois os outros 80”, disse Magic Johnson em entrevista há alguns anos. O testemunho de Larry Bird é semelhante: “A primeira coisa que eu fazia todas as manhãs era olhar para os resultados e ver o que é que o Magic tinha feito. Não me preocupava com mais nada”, garantiu o antigo ala. Ainda assim, os dois jogadores tiveram de esperar até 1984 para poderem voltar a disputar um título um contra o outro. E a espera valeu a pena.

O primeiro confronto de dois dos melhores jogadores de sempre da NBA. Na final da liga universitária, Magic Johnson levou a melhor sobre Larry Bird

Há precisamente 35 anos, a 12 de junho de 1984, jogava-se no Boston Garden o sétimo e decisivo jogo das finals dessa temporada. O último encontro entre Celtics e Lakers, porém, foi o culminar de uma odisseia de quase duas semanas com episódios que agora parecem inacreditáveis. Os Lakers abriram as finais com uma vitória convincente em Boston, onde Kareem Abdul-Jabbar liderou com 32 pontos, mas os Celtics igualaram o resultado logo no jogo seguinte, muito graças à contribuição dos 27 pontos de Larry Bird. A franquia da Califórnia surpreendeu na terceira partida, ao vencer em casa por 137-104, naquela ainda é a pior derrota da história dos Celtics nos playoffs – no final do jogo, Bird acusou os próprios colegas de terem “jogado como uns mariquinhas”.

A provocação terá resultado e a equipa de Boston voltou a empatar a série na partida seguinte, num jogo onde Magic Johnson ganhou a alcunha de “trágico Johnson” por ter cometido dois erros que anularam a vantagem de cinco pontos que os Lakers tinham a menos de um minuto do final. O jogo 4 ficou ainda marcado por uma entrada muito dura de Kevin McHale, jogador dos Celtics, a Kurt Rambis, que acabou por ser o gatilho de vários confrontos físicos entre elementos das duas equipas durante alguns segundos. O ambiente estava a ferver nas finais de 1984 e o jogo 5 levou essa metáfora até ao seu sentido literal: na quinta partida, o ar condicionado do Boston Garden avariou e o encontro foi realizado com uma temperatura média de 36 graus. Abdul-Jabbar, que na altura já tinha 36 anos, teve de recorrer à ajuda de uma botija de oxigénio durante as pausas e o árbitro do encontro desmaiou durante o primeiro período, tendo de ser substituído no que ainda restava do jogo.

Calor à parte, os Celtics voltaram a ganhar, os Lakers venceram a sexta partida e todas as decisões ficaram adiadas para o sétimo encontro. A 12 de junho de 1984, a franquia de Boston bateu a equipa de Los Angeles por 111-102, conquistou o 15.º título da NBA da sua história e Larry Bird foi considerado o MVP das finais. Foi o primeiro capítulo da enorme rivalidade vivida nos anos 80 entre as duas equipas com Bird e Johnson enquanto protagonistas – e foi também o início de uma bela amizade. Poucos meses depois das finais, a marca Converse decidiu lançar dois modelos novos de ténis, um inspirado no jogador dos Celtics, outro inspirado no jogador dos Lakers. Para promover o produto, era necessário gravar um anúncio publicitário com a presença dos dois. Mas Magic, ainda ressentido com a derrota, recusou participar. Foi aí que entrou Bird – e a mãe de Bird.

“Eu queria. Tínhamos acabado de ganhar, eu tinha acabado de bater o Magic, eu queria. Mas para que fosse uma coisa mais confortável sugeri que fosse no terraço da casa da minha família, no Indiana. E assim ele aceitou”, contou o antigo jogador dos Celtics em 2010, numa entrevista no talk show de David Letterman, onde Magic Johnson também esteve. “A minha mãe estava muito entusiasmada, os meus irmãos estavam muito entusiasmados, todos adoravam o Magic, a cidade estava ao rubro”, acrescentou Bird, que pediu à mãe para cozinhar o almoço e preparar a casa para a chegada do base dos Lakers. “Foi o início da nossa amizade. Não dissemos muita coisa quando eu cheguei, na verdade nunca tínhamos propriamente interagido. Cheguei lá e a mãe dele abraçou-me como a minha mãe me teria abraçado e isso acalmou-me. No final do dia, o que aconteceu foi que percebemos que tínhamos muito em comum: dois rapazes do Midwest, crescemos pobres, crescemos em famílias com dificuldades, tínhamos os mesmos valores. Eu conheci Larry, o homem, e ele conheceu Earvin, o homem”, garantiu o antigo jogador de basquetebol, que atualmente tem 59 anos e foi presidente dos Lakers de fevereiro de 2017 até ao passado mês de abril.

Bird e Magic ficaram amigos até aos dias de hoje – o jogador dos Celtics foi um dos primeiros a saber que o dos Lakers tinha contraído o vírus do VIH, motivo que o levou a terminar a carreira antes daquilo que seria esperado –, escreveram um livro juntos, motivaram uma peça da Broadway e um documentário. A rivalidade de dois dos melhores jogadores da história da NBA, ambos parte da Dream Team dos Jogos Olímpicos de 1992, tornou-se também uma representação de vários confrontos que existiam na sociedade norte-americana da altura, desde a população operária de Boston vs o lifestyle de Hollywood de Los Angeles e o inevitável branco vs negro. Os confrontos entre Larry Bird e Magic Johnson, porém, permitiram à NBA superar uma década de 70 que tinha sido pobre em audiências televisivas e conquistaram uma nova geração de fãs para a liga de basquetebol: de acordo com Larry Schwartz, histórico jornalista da ESPN, os dois jogadores “salvaram a NBA da falência”.

As duas franquias voltaram a encontrar-se nas finals do basquetebol norte-americano logo no ano seguinte, em 1985, desta vez com vitória dos Lakers, e novamente em 1987 e outra vez com a equipa da Califórnia a sair vencedora. Só 20 anos depois voltaram a cruzar-se, em 2008, quando os Celtics eram liderados pelos Big Three – Paul Pierce, Kevin Garnett e Ray Allen – e os Lakers tinham em Kobe Bryant e Pau Gasol as maiores estrelas. A equipa de Boston conquistou aí o primeiro título da NBA desde 1986 mas voltou a perder para LA logo dois anos depois, em 2010.

60 anos depois de os Lakers ainda serem de Minneapolis, 50 anos depois de Russell e Chamberlain, 35 anos depois de Bird e Magic e 10 anos depois dos Big Three e de Kobe Bryant, Celtics e Lakers continuam a ser os donos da maior rivalidade da NBA. Andam ambos arredados das grandes decisões há algumas temporadas: mas aqueles dois jogos, tal como dizia Magic Johnson, compensam tudo o que possa acontecer nos outros 80.

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