Rádio Observador

Cinema

“High Life”: Robert Pattinson e Juliette Binoche completamente perdidos no espaço

137

A francesa Claire Denis mergulha num buraco negro com este letárgico, inverosímil e pretensioso "High Life, passado numa nave espacial tripulada por criminosos. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Juliette Binoche e Robert Pattinson em "High Life", de Claire Denis: ficção científica falhada

Autor
  • Eurico de Barros

Aqui há quase duas décadas, Claire Denis deu um valente safanão no filme de vampiros com o seu “Trouble Every Day” (2001), mostrando que, às vezes, um realizador de perfil mais “autorista” e habituado a enredos naturalistas, intimistas ou cerebrais, pode injetar seiva nova num género tradicional. Alguns anos mais tarde, Jim Jarmusch faria exatamente o mesmo, e também no ecossistema do filme de vampiros, com o seu poético e plúmbeo “Só os Amantes Sobrevivem” (2013), filme infelizmente incompreendido quer por muitos incondicionais do seu ADN “indie”, quer por muitos ferrenhos do cinema de terror. Há mais originalidade, atmosfera e boas ideias em “Trouble Every Day” e em “Só os Amantes Sobrevivem”, do que em 95% dos filmes de vampiros feitos neste século.

[Veja o “trailer” de “High Life”:]

Depois do terror, Claire Denis mete-se agora pelos territórios da ficção científica em “High Life”, escrito com o seu habitual colaborador Jean-Pol Fargeau e com o inglês Geoff Cox, acompanhada por dois actores que muitos cineastas dariam os dedos de uma mão para dirigir: Robert Pattinson e Juliette Binoche. É um filme que, pelo seu cenário estanque, pela austeridade geral e pelas características da história (uma nave espacial tripulada por um punhado de condenados à morte e por uma cientista, cujo número será drasticamente reduzido), é mais derivado dos “space movies” baratuchos das décadas de 50 e 60, quer os de Hollywood, quer os dos países de Leste (nem por acaso, “High Life” foi parcialmente rodado na Polónia, e os efeitos especiais feitos lá), do que de produções mais conhecidas e vistosas.

[Veja Claire Denis e Robert Pattinson falar sobre o filme:]

No entanto, a realizadora francesa não consegue repetir em “High Life” o que conseguiu fazer de bom, inédito e entusiasmante em “Trouble Every Day” em termos de revitalização de um género estacionado na rotina. O filme até começa muito bem, com Monte, a personagem de Robert Pattinson, a tentar resolver um problema no exterior da nave, sob fundo de espaço cósmico, enquanto tenta, ao mesmo tempo, via rádio, acalmar uma bebé que chora. A seguir, e através de uma série de “flashbacks”, é-nos contado como é que a tripulação da nave (que parece uma enorme caixa de sapatos com um motor) ficou reduzida a Monte e à criança, e esta apareceu, para depois sermos levados ao futuro, em que o cosmonauta sobrevivente e a filha, Willow, agora já adolescente aguardam a sua sorte.

[Veja uma entrevista com Juliette Binoche:]

A história de “High Life” é tão difusa como disparatada e inverosímil. Os criminosos da nave, que vai vagamente estudar um buraco negro, são submetidos a experiências de reprodução artificial em ambiente espacial, já que o argumento alude, também de forma vaga, ao tema, e a Dra. Dibs, a cientista personificada por Binoche, revela ser ela também uma assassina condenada à morte. O sexo é proibido a bordo, existindo, como alternativa, um sinistro cantinho para masturbação chamado “A Caixa”, onde a personagem de Binoche tem um dos momentos mais embaraçosamente ridículos de todo o filme. Quanto a uma tripulação convencional e a guardas para assegurar a segurança na nave, nem vê-los. Há mais preocupação com os fluidos íntimos do que com qualquer outra coisa.

[Ouça um excerto da banda sonora:]

Percebemos desde muito cedo que, apesar da tentativa de Claire Denis de fazer um filme de ficção científica a fugir ao convencional (o minimalismo da história, o desinteresse pela credibilidade científica, pelo exibicionismo tecnológico, pelos efeitos digitais e por tudo o que seja conflito origine acção e “suspense”, e o ênfase posto nas relações e tensões humanas, bem como no “inner space”, por oposição à vastidão do espaço sideral), tudo o que vai suceder ao longo de “High Life” é, salvo um pormenor ou outro, tão previsível como se estivéssemos na mais preguiçosa série B do género. Culminando no “cliché” do final aberto e ambíguo, do tipo “rumo ao infinito desconhecido”. A verdade é que a realizadora está interessada no género apenas pelo enquadramento inusitado que ele fornece para a interacção das suas personagens.

A presença de Juliette Binoche não faz qualquer tipo de diferença,o restante elenco é simplesmente indistinto e Robert Pattinson, a braços com uma personagem unidimensional. está quase sempre em ponto morto neste filme letárgico, presunçoso, absurdo e “artsy” (a banda sonora narcoléptica dos Tindersticks também não ajuda), que depressa mergulha no buraco negro do desinteresse, perdendo-se por lá sem deixar inquietações nem recordações.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Cinema

Tu, a mim, não me tratas por tu! /premium

Laurinda Alves

“Campeões” é um filme imperdível pelo humor explosivo e pelo amor redentor. Não temos pena de ninguém, não achamos ninguém estranho, não temos rótulos para os personagens, rimos quando nos fazem rir.

Música

A extraordinária dupla vida de Margarida Falcão

Mafalda G. Moutinho

Deveríamos investir mais na cultura e nos artistas portugueses que carregam na alma das suas vozes, o sangue das nossas tradições, as ânsias das nossas gentes e a identidade das distintas gerações.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)