O ministro da Justiça brasileiro, Sergio Moro, nega qualquer conluio com o procurador responsável pela acusação no caso Lava Jato e diz estar à vontade com a publicação das mensagens que trocou com o procurador Deltan Dallagnol sobre o processo.

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, Moro respondeu às críticas que tem sido alvo na sequência da divulgação, pelo The Intercept Brasil, de uma série de conversas entre o ministro — à época juiz — e o procurador Deltan Dallagnol sobre o desenrolar do processo. De acordo com a lei, juiz e procurador devem trabalhar de forma independente.

Entre as mensagens divulgadas incluem-se transcrições de algumas comunicações que mostram como Sergio Moro e Deltan Dallagnol terão delineado em conjunto estratégias para a condução da investigação — algo que a lei proíbe.

Apesar de ter sido alvo de críticas por desvios às suas obrigações éticas — e até de pedidos de demissão —, Moro assegurou que vai continuar em funções. Questionado sobre se reconhece as mensagens enquanto suas, Moro disse ter “dificuldades” em perceber as “invasões criminosas dos dispositivos dos procuradores e a tentativa de invasão do meu”.

Até onde sei, não conseguiram pegar o conteúdo do meu Telegram. Poderiam ter pego, não tem problema nenhum quanto a isso. Mas não conseguiram, porque não estou no Telegram. Não tenho essas mensagens”, disse Sergio Moro.

“Veja, são fatos que aconteceram dois três anos atrás. Não tenho memória de tudo. Vejo algumas coisas que podem ter sido coisas que eu tenha dito. Agora podem ter inserções maliciosas. Então fica muito complicado. Até porque, como eu disse, se os fatos são tão graves como eles dizem que são, até agora não vislumbrei essa gravidade”, acrescentou o ministro brasileiro.

Sergio Moro desafiou, depois, os hackers que acederam as mensagens a levarem o material original a “uma autoridade independente”. “Se não querem apresentar à Polícia Federal, apresenta no Supremo Tribunal Federal. Aí vai se poder verificar a integridade daquele material, exatamente o que eles têm, para que se possa debater esse conteúdo”, afirmou.

“Alguns diálogos, algumas mensagens lá me causam bastante estranheza. Não sei, por exemplo, como é que atribuíram aquelas mensagens a Moro, de onde que veio isso, esse Moro, da onde que veio o Deltan. Eu vejo nas mensagens lá que às vezes está Deltan e às vezes está Dallagnol. Então, como é que foi isso? Aquele material não é o material original? Será que não teve outra coisa que foi editada ali dentro?”, perguntou Moro.

O ministro da Justiça brasileiro disse também que acha que foi um “grupo criminoso organizado” que acedeu às comunicações telefónicas.

Acho que o alvo são as instituições. Se vamos tolerar esse tipo de comportamento, hackers criminosos que conseguem abrigo em veículos não sei se da imprensa, se a gente pode falar dessa forma, para divulgar isso. Então quer dizer se amanhã invadirem os telefones de jornais, de empresas, dos ministros do Supremo, de presidente do Senado, de presidente da Câmara, vão aceitar que isso seja divulgado por esse mesmo veículo? Me parece, veja bem, essa Operação Lava Jato foi muito difícil, hercúleo, pode ter nisso as críticas pontuais, mas houve uma mudança de padrão do tratamento do Brasil da impunidade da grande corrupção”, disse

Questionado sobre se, na sequência do caso, pensou em afastar-se do cargo, Moro disse que não. “Eu me afastaria se houvesse uma situação que levasse à conclusão de que tenha havido um comportamento impróprio da minha parte. Acho que é o contrário. Agora estou em uma outra situação, estou como ministro da Justiça, não mais como juiz, mas tudo o que eu fiz naquele período foi resultado de um trabalho difícil. E nós sempre agimos ali estritamente conforme a lei. Qualquer situação, despido o sensacionalismo, está dentro da legalidade. Conversar com procuradores, conversar com advogados, isso é absolutamente normal”, assegurou.

Sobre o conteúdo das mensagens, Sergio Moro diz-se “absolutamente tranquilo”. “Nunca houve esse tipo de conluio. Tanto assim, que muitas diligências requeridas pelo Ministério Público foram indeferidas, várias prisões preventivas”, defendeu.