A Adidas tentou. A Nike tentou. A Puma também. Todas as grandes marcas desportivas tentaram. Mas ninguém conseguiu que a futebolista brasileira Marta Silva, eleita a melhor do mundo por seis vezes, aceitasse ser patrocinada por qualquer marca fornecedora de chuteiras. É que nenhuma pagava à atleta o mesmo que iriam pagar a um futebolista do sexo masculino de topo. Por isso, Marta decidiu jogar com uma chuteiras pretas na partida da seleção brasileira contra a Austrália na quinta-feira.

Quando a seleção do Brasil entrou em campo, os pés de Marta voltaram a fazer história. Primeiro porque, durante a partida, a futebolista brasileira tornou-se a primeira a marcar em cinco Mundiais, igualando um recorde que só mais uma pessoa no mundo havia conquistado: o alemão Klose. E depois porque, em vez de envergar o símbolo de uma famosa marca desportiva nas chuteiras, calçou antes umas chuteiras negras com um pequeno símbolo azul e rosa.

A mensagem nos pés de Marta Silva já tinha chegado às redes sociais ainda antes do confronto do Mundial de Futebol Feminino. A futebolista lançou uma campanha, a “Go Equal”, que pede igualdade de oportunidades para homens e para mulheres no mundo do desporto: “Brasil-Austrália não é a única rivalidade que as mulheres têm que enfrentar no desporto hoje.
Marta está a jogar com uma chuteira sem patrocínio e com um símbolo pela igualdade no desporto”.

Noutra publicação, a “Go Equal” de Marta Silva reforçou essa mensagem: “Bola igual. Campo igual. Regras iguais. Se as mulheres jogam futebol da mesma forma que os homens, por que elas não recebem o devido reconhecimento? O devido apoio? A devida remuneração? Igualdade é algo pelo qual devemos todas e todos lutar. Afinal, somos iguais”, pode ler-se nas publicações da campanha nas redes sociais.

Desde julho de 2018 que Marta não tem patrocinadores. Segundo o agente da futebolista, Fabiano Farah, é assim porque nenhuma marca aceita pagar a Marta o que paga a atletas homens com as mesmas conquistas e com a mesma representatividade que ela, elabora o Globo Esporte. Tanto que, mesmo depois de ter batido mais um recorde mundial, a atleta preferiu sublinhar ainda mais a sua mensagem pela igualdade de género no desporto: “Novo recorde? Isto é pela igualdade de todas mulheres. Não gosto de falar, gosto de mostrar”.

Esta é uma causa por que Marta já se tinha expressado no passado na qualidade de embaixadora global da Organização das Nações Unidas (ONU) para as Mulheres, um cargo que ocupa desde julho do ano passado. “Marta é um modelo excecional para mulheres e raparigas em todo o mundo. A sua experiência de vida conta uma história poderosa do que pode ser alcançado com determinação, talento e coragem”, disse à época a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, para explicar a escolha da futebolista para a organização.

A campanha “Go Equal” surge ao mesmo tempo que a revista “France Football” desvendou que Neymar, considerado um jogador de topo no futebol masculino, ganha 269 vezes mais do que Marta, a melhor futebolista feminina do mundo. Segundo a notícia da Veja São Paulo, o atacante do Paris Saint Germain aufere o equivalente a 90,4 milhões de euros anuais. Marta ficar-se-á pelos 34 mil euros por ano, contabiliza a revista. Ada Hejerberg, atual melhor jogadora do mundo eleita pela FIFA, ganha 40 mil euros.