Rádio Observador

Transportes

CEO das trotinetes Hive: “Vamos chegar a um ponto em que vamos ser forçados a ter uma regulação”

167

Tristan Torres defende que as taxas na circulação de trotinetes são necessárias para combater o excesso destes aparelhos. Daqui a alguns meses, acrescenta, o negócio poderá estar diferente.

Tristan Torres é presidente executivo da hive desde fevereiro, altura em que a empresa se tornou independente sob alçada da Daimler e da BMW

“Segurança e ordem pública.” São estas duas áreas que Tristan Torres, presidente executivo da Hive, diz serem uma prioridade desde que está ao leme da empresa de trotinetes elétricas. É advogado, mas foi na micromobilidade que encontrou uma forma de resolver um problema de congestionamento que ele próprio sentia em Barcelona, a sua cidade natal. E garante: a implementação de taxas para as trotinetes nas cidades é um caminho que, mais dia menos dia, tem de ser seguido.

“Há cidades à volta do mundo cheias de bicicletas e trotinetes, sem controlo nenhum e por isso é que para mim a segurança é importante. Temos de garantir que as pessoas sabem conduzir uma trotinete porque estes veículos podem ser vistos como um brinquedo ou algo simpático para conduzir, mas também podem ser perigosos”, explicou ao Observador no dia em que a Hive e a OTLIS – Operadores de Transportes da Região de Lisboa anunciaram uma parceria que permite viagens de trotinetes grátis aos utilizadores do cartão Lisboa VIVA. Para Tristan Torres, o importante é mostrar que os transportes públicos são “uma forma perfeita de ir para o trabalho ou para casa”, aliando a função de “complemento” das trotinetes elétricas. “Onde o transporte público não chega, nós chegamos”, acrescentou.

O responsável pela Hive, que em fevereiro deste ano deixou de ser um projeto piloto da Mytaxi e tornou-se numa entidade independente — sob alçada de uma fusão entre a Daimler e a BMW– referiu ainda que o facto de a empresa ser “dona de todo o processo” é uma vantagem, uma vez que a logística, os mecânicos e o próprio processo de recolha das trotinetes elétricas está dentro da Hive e é controlado diretamente por ela. Sobre o debate que a entrada das trotinetes em Lisboa tem gerado, sobretudo no que diz respeito à segurança e à regulação, Tristan Torres assegura que “como em qualquer outra atividade”, são necessárias duas vertentes: “a regulação e o compromisso e empenho das empresas”. Mas “algumas coisas estão em falta”.

“Sou provavelmente o único player que é a favor do pagamento de taxas por utilizar o espaço público. Estamos a utilizar o espaço da cidade. Todas as pessoas, por exemplo, pagam os impostos das casas. Isto é uma área tão nova que precisamos de construir uma base para a regulação”, sublinhou ao Observador, acrescentando: “Vamos chegar a um ponto em que vamos ser forçados a ter uma regulação”. Tristan Torres considera que se não existirem taxas para estes veículos na cidade, vai surgir um novo problema. “Se não fizerem isso acabam numa situação que é a sobrepopulação de trotinetes”, explicou, dando como exemplo as regras que Paris está a elaborar neste sentido.

Se sou um operador e coloco, por exemplo, 10 mil trotinetes em Lisboa e não quero saber de mais nada, vou ter ainda mais problemas. No momento em que começarem a dizer ‘Vamos estabelecer o quadro legal, esta é a regulação, estas são as taxas que qualquer negócio regulado precisa de pagar’, vão ver que a sobrepopulação e o mau comportamento de alguns players vão desaparecer completamente, porque toda a gente vai começar a pensar ‘Se preciso de pagar por X trotinetes, preciso de ter um retorno no investimento, talvez coloque 500 ou 600”, acrescentou o líder da Hive.

Tristan Torres acrescenta ainda que “parte destas taxas poderiam ser reinvestidas em tornar a cidade mais amigável para as trotinetes, com melhores infraestruturas”. Mas, o que significa isto? “Em vez de termos fundos do bolso do Governo ou da autarquia, podemos sustentar estas iniciativas com os próprios operadores, algo em que acredito totalmente e sei que é importante”, explicou, sublinhando ainda o constante diálogo que é feito com as autarquias em cada cidade que a empresa entra.

“O meu pressentimento diz-me que este negócio vai mudar nos próximos meses”

Há menos de um ano, nenhuma empresa de trotinetes operava ainda em Portugal. Hoje, são cerca de seis mil veículos e nove empresas que circulam em Lisboa, mas não há números concretos, uma vez que parte destas empresas não revela números sobre as trotinetes que têm em circulação. No caso da Hive, o CEO diz que tem “milhares” de trotinetes nas ruas e que o crescimento desta área em menos de um ano era algo que estava à espera.

“O meu pressentimento diz-me que este negócio vai mudar nos próximos cinco, seis meses”, avançou o responsável. Tudo porque vai haver “uma consolidação do negócio no verão”, uma vez que se trata de uma área que “exige muito dinheiro”. E é por isso que Tristan diz também que alguns concorrentes podem, com o tempo, ir desaparecendo. “Posso dizer que, de forma natural, alguns players não vão estar cá dentro de seis meses”, sugeriu.

As duas maiores operadoras de trotinetes têm conseguido rondas de investimento e avaliações de milhões de dólares e estão a tentar angariar mais dinheiro e não tem sido assim tão fácil. Porque este negócio não é sobre atirar milhares de trotinetes para uma cidade, é mais do que isso. As cidades estão a mexer-se em direção aos hotspots e é necessário ter uma estrutura, uma cadeia de produção e a capacidade de reposição”, referiu ainda Tristan Torres em entrevista ao Observador.

Atualmente, segundo o código da estrada, o estacionamento das trotinetes em Portugal é autorizado junto às zonas das bicicletas, em hotspots identificados com um autocolante e onde há pilares de metal, sendo apenas o centro histórico (a chamada zona vermelha) o único local onde o log out das trotinetes é proibido. O importante com as decisões que se fazem relativas ao estacionamento, diz Tristan Torres, é que “o cliente não seja afetado”. Sobre a possibilidade de estes veículos serem apenas estacionados em hotspots, o responsável tem uma certeza: “Se querem trabalhar num modelo misto entre hotspots para começar a viagem e estacionamento mais livre para terminar, estou de acordo. Se for para forçar o cliente a ir de um hotspot e terminar noutro hotspot obrigatoriamente, então estamos a matar o negócio”.

Para o CEO da Hive, obrigar os utilizadores a estacionarem apenas em hotspots fixos faz com que este serviço “se torne como qualquer outro que já existe”, dando mesmo o exemplo dos Estados Unidos, onde algumas cidades estão a tentar seguir este modelo de iniciar e terminar a viagem num hotspot “e não está a resultar”. “O que acontece se quiser ir para casa e o local de estacionamento estiver cheio? Tenho de andar mais 200 metros para o próximo local”, explicou.

É por isso que o responsável valoriza o diálogo com as autarquias e garante que insiste para que em cada cidade haja encontros semanais com as Câmaras Municipais. “Isto é tudo novo. Nós também estamos a aprender, a cidade está a aprender. A própria autarquia tem um trabalho complicado porque tem de lidar com os cidadãos, com as operadoras, com os governantes. E estou muito aberto a esse diálogo. Ainda não estamos a operar de forma perfeita, mas estamos a tentar”, afirmou.

Sobre o futuro, o empresário diz pensar sempre num negócio a longo prazo e quer garantir que este ecossistema “vai mudar a forma como as pessoas se movem e deslocam na cidade, sempre de forma segura e ordenada”. Além de estar a trabalhar em novos modelos de trotinetes, a Hive está também em negociações para a entrada destes aparelhos noutras cidades portuguesas, mas destaca Lisboa como um dos locais mais especiais, por ser “o local de nascimento da Hive”, a primeira cidade onde a marca de trotinetes entrou.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: cpeixoto@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)