Vila do Conde volta a ser a capital da curta metragem em julho, entre os dias 6 e 14, acolhendo o festival internacional de cinema que junta atores, realizadores, músicos, produtores, estudantes e crianças numa programação onde se destaca o que de mais criativo e inovador se faz em território nacional e além-fronteiras. Aqui cabe cinema novo, independente e experimental, mas também competições, retrospetivas, exposições e concertos. O Curtas Vila do Conde surgiu em 1993, numa altura em que a “noção de curta-metragem era praticamente desconhecida”, diz Miguel Dias, o diretor, em entrevista ao Observador.

O evento conta hoje com várias competições de curtas-metragens, cujos prémios podem ser monetários, equipamento ou serviços de produção, e o concurso permite acompanhar o que se fez no último ano, tanto a nível nacional como internacional. Através da competição experimental é possível testemunhar uma vertente mais irreverente e arrojada, enquanto na competição de vídeos musicais as propostas são heterogéneas e conseguem fugir a todos os rótulos. Take One! é o nome da competição de filmes produzidos em contexto de formação dedicada a curtas realizadas por estudantes portugueses, talentos emergentes que devemos ter em conta quando falamos do futuro do cinema. Já o Curtinhas continua a ser o espaço de eleição pensado para crianças dos 8 aos 12 anos, que integrarão um painel de jurados para avaliar filmes, aprendendo sobre eles.

Thurston Moore no Stereo

Stereo é a secção que mistura música e realização, desde o formato mais tradicional de filmes de concertos a experiências mais colaborativas que juntam o som à imagem. Nesta edição, o festival leva a Vila do Conde Thurston Morre, guitarrista e um dos fundadores da mítica banda Sonic Youth, que no dia 10 de julho irá musicar ao vivo clássicos do cinema experimental americano com assinatura de Maya Deren.

A abrir o evento, no dia 6, a violoncelista Marta Navarro e o compositor e artista sonoro Tiago Cutileiro vão propor uma nova banda sonora ao filme “Cabinett Des Dr. Caligari”, de Robert Wiene, uma das referências maiores do movimento expressionista alemão no cinema. Este filme conta a história muda de um hipnotista que comete homicídios durante crises de sonambulismo foi rodado há quase 100 anos e dá o mote à exposição O Caso Caligari, na Solar – Galeria de Arte Cinemática.

Montanhas Azuis é outro dos destaques do programa Stereo

Outros dos destaques deste programa é o coletivo Montanhas Azuis, formado por Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas, três dos mais importantes nomes da música portuguesa contemporânea. Cada um com um universo sonoro diferente e imprevisível, os três usam uma linguagem em constante evolução. No Curtas Vila do Conde apresentam-se ao vivo acompanhados de instrumentos analógicos e guiados pelas imagens manipuladas no momento pelo artista visual Pedro Maia, numa experiência única entre a música e a imagem.

My Generation e Cinema Revisitado, as novas secções

“O festival sempre deu uma grande importância à historia do cinema, mas aqui propomos uma história alternativa, reescrita, sem hierarquias entre a longa e a curta ou cânones estéticos a considerar”, explica o diretor Miguel Dias ao Observador.

Uma seleção de filmes raros, esquecidos ou de autores menos conhecidos, em cópias digitais restauradas, é isto que o novo segmento Cinema Revisitado propõe. No programa onde constam clássicos do Walt Disney, como “Os Três Porquinhos” ou a “Lebre e a Tartaruga”, em Technicolor, o início da saga de John Rambo ou obras de António Reis ou Manuel de Oliveira que celebram os 50 anos da morte do escritor José Régio ou do centenário do nascimento da poetisa Sophia de Mello Breyner.

Um documentário de João César Monteiro sobre o centenário de Sophia de Mello Breyner integra uma das novas secções do festival

My Generation é uma nova secção dedicada aos mais jovens, dos 14 aos 18 anos, que promove o contacto de alunos do ensino secundário com as mais aliciantes propostas de cinema internacional, envolvendo quatro escolas de Vila do Conde e da Póvoa do Varzim. Os filmes que fazem parte desta competição foram escolhidos pelos alunos dessas escolas e serão exibidos nos próprios estabelecimentos de ensino durante o festival, contando com a presença dos realizadores. O programa, cujo vencedor será apurado contabilizando as votações do público jovem nas escolas e no festival, apresenta uma seleção de curtas-metragens, como ficção, animação e documentário, oriundas de vários países.

Carlos Conceição estreia a sua primeira longa metragem em Portugal

“In Focus” é o nome do segmento onde o festival homenageia um realizador e a sua obra. “A nossa intenção passa por nos próximos anos destacar sempre um jovem cineasta português”, revela o diretor Miguel Dias aos Observador.  Este ano, Carlos Conceição foi o escolhido para apresentar a sua primeira longa metragem, “Sepentário”, estreada, este ano, em Berlim. “O filme acompanha a viagem de um cineasta na busca pela alma da mãe numa África pós-apocalíptica. Uma reflexão emocional sobre a memória, que joga com a biografia do realizador – nasceu e viveu em África até aos 21 anos, e a história da própria terra. Um filme-catástrofe, onde se exploram sentimentos de pertença e se olha uma Angola saída da guerra, à descoberta de si mesma e das referências apagadas pela história recente”, pode ler-se no programa que inclui a exibição de alguns dos seus filmes como “Coelho Mau”, “O Inferno” ou “Versailles”. Considerado um dos mais interessantes jovens realizadores europeus, Carlos Conceição terá direito a uma carta branca onde escolherá filmes que dialogam com o seu percurso e a sua obra, e ainda uma conversa com o público mais curioso.

O luso-angolano Carlos Conceição é um dos realizados em foco desta edição

No mesmo segmento será exaltado o trabalho do realizador norte-americano Todd Solondz, uma das maiores referências do cinema independente. O cineasta estará presente no festival para apresentar uma retrospetiva da sua obra, desde os filmes que o deram a conhecer ao mundo e à crítica anos 1990, como “Welcome To the Dollhouse” (1995) e “Happiness” (1998), passando pelas suas obras mais recentes, como “Dark Horse” (2011) ou “Wiener Dog” (2016). Conhecido pela sua ironia, Solondz desafia o espetador a superar preconceitos e barreiras através do seu olhar, retratando o lado mais negro do ser humano com uma dose generosa de humor.

A Agência da Curta Metragem celebra 20 anos

Seis anos depois da criação do Curtas Vila do Conde, a Agência da Curta Metragem surgiu em 1999 pela Curtas Metragens CRL, entidade que realiza o Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema, a Solar – Galeria de Artes Cinemática, o ANIMAR e organizada d’O Dia Mais Curto em Portugal.

“A agência veio colmatar uma lacuna no mercado, tendo como objetivo divulgar e promover o cinema não tão enraizado ou estabelecido, levando a curta metragem portuguesa ao mundo”, esclarece o diretor Miguel Dias, em entrevista ao Observador. Seja em festivais, mostras, edições DVD ou exibições na televisão, o intuito é difundir o cinema português de curta-metragem no país e no estrangeiro, formar novos públicos e descentralizar a distribuição e exibição cinematográfica. “Temos um catálogo comemorativo com mais de mil projetos e todos os dias há uma curta metragem portuguesa a passar em qualquer parte do mundo”, garante Miguel Dias, um dos responsáveis.

O festival acontece em três espaços da cidade, entre o Auditório Municipal, o Teatro Municipal de Vila do Conde e a Solar – Galeria de Arte Cinemática, e os preços dos bilhetes começam nos 4 euros.