Depois de uma primeira edição, em junho de 2017, o projeto Showcase Moda Portugal voltou a Paris, em pleno calendário dedicado à moda masculina. Com o trabalho de cerca de 30 designers nacionais representado em pleno Marais, o evento que decorreu ao final da tarde da última terça-feira, pretende ser uma plataforma de divulgação do design de moda português. “Independentemente das novas formas de promover marcas, há roteiros que temos de seguir. Uma semana da moda é incontornável. Paris é incontornável. As feiras internacionais são incontornáveis. Gostaríamos de estar presentes em Paris duas vezes por ano”, explica Marlene Oliveira, responsável pela estratégia de internacionalização levada a cabo pelo CENIT (Centro de Inteligência Têxtil), ao Observador.

A ação, organizada em conjunto pelo CENIT e pela ANIVEC (Associação Nacional das Indústrias de Vestuário), representa um investimento de 100.000 euros. Delineada pelas duas organizações, contou com as parcerias da ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários), da ModaLisboa, da AORP (Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal) e da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos), sendo apenas um esforço primário de uma estratégia mais complexa, articulada entre todos os parceiros. “Temos um programa de internacionalização através da promoção da imagem — onde se insere este Showcase Moda Portugal –, mas temos um outro projeto que apoia mais na vertente de negócio, com presenças em feiras internacionais”, completa Marlene Oliveira.

A instalação onde foram expostas as peças das marcas e designers portugueses © Divulgação

Dentro do espaço, aberto até dia 20 de junho, a curadoria é assinada por Eduarda Abbondanza, presidente da Associação ModaLisboa. A seleção reúne designers da semana da moda lisboeta, bem como marcas do norte acompanhadas pelo Portugal Fashion. Depois da assinatura do protocolo entre os dois organismos, esta é a primeira iniciativa internacional em que combinam esforços. “Portugal é um país pequeno e não tem verbas milionárias”, começa por referir Abbondanza, ao salientar a importância da concertação de estratégias. “Portugal ainda tem uma política de capelinhas e, em 20 anos, não ganhámos nada com isso. Sobrevivemos. Se queremos, não subir degraus, mas galgar patamares, tem de ser assim. E há muitos setores que já estão a fazer isso e estão a ter resultados muito bons. Tem muito a ver com a forma como os mercados internacionais nos leem. Estão a ler-nos mal”, conclui Eduarda Abbondanza, em declarações ao Observador.

Kolovrat, Hugo Costa, Constança Entrudo, David Catalán, Inês Torcato e Luís Carvalho foram os criadores presentes nesta espécie de showroom no centro de Paris. Entre as marcas, contaram-se a Baccus, a Frenken, a Maria by Fifty e até nomes mais ligados à indústria da confeção como a Crialme e a Unilopes. Dos acessórios à joalharia, do calçado ao design de produto, outras etiquetas foram convocadas para completar a montra portuguesa. Mais do que moda, o país quer apresentar-se como um paraíso de lifestyle. “Acima de tudo, o casamento entre indústria e criadores ainda tem de ser mais trabalhado. E podemos falar disto de forma mais transversal. Há mais setores que têm tradição e notoriedade lá fora e que podem entrar neste comboio de promoção internacional. Estamos a falar das indústrias criativas de forma geral, do design de interiores, até das artes plásticas. Se queremos vender a ideia de um país moderno, temos de levar este pacote completo e dizer que é um país de lifestyle, de criação, de design, de criatividade”, refere Mónica Neto, gestora de projeto do Portugal Fashion.

“Exportamos o segundo par de sapatos mais caro do mundo”

Num final de tarde em que muitas foram as vozes em torno da moda portuguesa (e até a música, já que o evento teve a participação de Fred, dos Orelha Negra), houve uma que se destacou. “Muita gente não sabe, mas exportamos o segundo par de sapatos mais caro do mundo. Só os italianos vendem sapatos mais caros do que os portugueses. Vendemos o quilo de têxtil lar mais caro do mundo. E isso significa que exportamos produtos de elevado valor acrescentado”, afirma Eurico Brilhante Dias, secretário de Estado da Internacionalização. Brilhantes Dias falou ainda na importância de catapultar a moda portuguesa, promovendo-a internacionalmente: “Um país que tem uma moda pujante é um país moderno e um país que exporta valor e não apenas produto. Se olharmos para os nossos concorrentes na moda, só vemos economias de PIB per capita muito elevado — França, Itália, Reino Unido, Estados Unidos da América”, assinala.

À esquerda, o secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, ao lado do embaixador português em Paris, Jorge Torres Pereira © Divulgação

“O design português é reconhecido. A construção de marcas nacionais é um trabalho que implica um fortíssimo investimento. As marcas precisam de notoriedade, e a construção dessa notoriedade é esforço de capital muito intenso. Estamos a subir na cadeia de valor. Estamos no caminho certo”, conclui ainda o secretário de Estado, presente no evento da última terça-feira, em Paris, ao mesmo tempo que deu garantias de que continuará a haver verbas para apoiar o setor, após o fim do Portugal 2020. Outra questão levantada foi a da cooperação entre ModaLisboa e Portugal Fashion. Brilhante Dias acabou por clarificar a intervenção do Governo nesse processo. “Foram muitos anos de costas voltadas em que, essencialmente, não serviam os criadores. Não me importo nada que haja duas associações, o que tem de haver é um trabalho conjunto no exterior, promovendo a moda portuguesa”, refere.

Sobre a possibilidade de, enquanto eventos em solo nacional, se fundirem, Eduarda Abbondanza foi outra das vozes a esclarecer dúvidas. “Não há uma única semana da moda porque temos de observar as geografias. O Porto tem indústria, tem marcas e vai ter de responder a isso. Lisboa tem um lado mais cosmopolita, mas não tem indústria, daí que tenha menos verbas. Tem é de haver linguagens e objetivos diferenciados e uma concordância de datas, de maneira que comece em Lisboa e siga para o Porto”, remata a presidente da Associação ModaLisboa.

Os reforços para a promoção da moda portuguesa além fronteiras não ficam pelo Showcase Moda Portugal. Na próxima sexta-feira, 21 de junho, o CENIT leva seis marcas portuguesas de moda infantil à Pitti Bimbo, em Florença.

O Observador viajou até Paris a convite do CENIT.