No lançamento do encontro com o Qatar, e abordando também a lesão de Muriel no joelho que afastará o avançado até ao final da competição, Carlos Queiroz foi buscar um provérbio bem português para adaptar e explicar o impacto que teve entre os jogadores e na caminhada da equipa na Copa América. “Como se costuma dizer, o que não mata, engorda. Aqui o caso é o que não mata, faz-nos mais fortes. É triste sempre que se perde um jogador, é mau para o futebol e para nós, mas estou confiante que essa perda do Muriel vai fazer-nos estar mais fortes”, destacou. E a vitória que valeu os quartos da prova também passou por aí.

No final dos 90 minutos, a Colômbia terminou o encontro com 68% de posse, 18 remates, mais de 550 passes entre si. Golos, esses, só um e de Duván Zapata, uma das grandes revelações da temporada na Serie A que não deverá ficar muito mais tempo na Atalanta, onde chegou por empréstimo com opção de compra da Sampdória. Logo ele que, tal como Roger Martínez, começou no banco (e marcou) perante a dupla titular formada por Falcao e Muriel que iniciou a partida com a Argentina. Esse é um dos pontos fortes desta formação colombiana: a qualidade de opções ofensivas, sempre secundadas de perto pelo criativo James Rodríguez, com mais uma assistência para o único golo da partida e muito futebol a passar pelos seus pés.

No entanto, e apesar de nem tudo serem elogios exatamente por essa ideia de jogo, o segredo da Colômbia voltou a passar pela estabilidade defensiva da equipa e o Qatar teve apenas um remate perigoso e na segunda parte, quando os sul-americanos já estavam balanceados de vez na frente para desfazerem o nulo. Com Ospina na baliza, Mina e Davidson Sánchez como centrais e Wilmar Barrios (mais uma exibição monstruosa) como médio mais posicional, Queiroz manteve o registo sem sofrer golos desde que assumiu o comando da Colômbia: em seis jogos, só sofreu com a Coreia do Sul (1-2).

Os minutos iniciais do encontro, ou os cinco minutos iniciais, deram uma imagem distorcida daquilo que se passaria na primeira parte. Aliás, e até ao intervalo, essa foi a única fase em que o Qatar conseguiu fazer alguma circulação de bola mais à vontade pelo setor defensivo com as linhas da Colômbia a não pressionarem tão alto como aconteceria mais tarde. Ponto de viragem? Um canto apontado por James Rodríguez na esquerda, com desvio de cabeça de Yerry Mina e toque final ao segundo poste de Roger Martínez, avançado que rendeu o lesionado Muriel nas opções iniciais. Com confirmação do VAR, o golo foi anulado.

A partir daí, o conjunto que foi uma das surpresas da primeira jornada da Copa América chegando ao empate frente ao Paraguai depois de estar a perder por 2-0 no segundo tempo (confirmando as boas indicações deixadas na Taça da Ásia, onde ganhou na final ao Japão) pouco ou nada fez nas saídas ofensivas, nada podendo fazer perante o domínio de uma equipa colombiana mais subida, mais atacante e a quem só falou maior velocidade nas ações no último terço entre boas chances de James Rodríguez (a desviar de cabeça ao lado o cruzamento de Martínez, 13′), Cuadrado (para defesa do guarda-redes, 16′) e Medina (remate às malhas laterais, 40′). No entanto, o intervalo chegaria sem golos e com Arias, antigo lateral do Sporting que passou pelo PSV antes de chegar ao Atl. Madrid, a entrar para o lugar de Medina na lateral direita.

Um momento mais tenso entre James Rodríguez e Pedro Correia, o português na equipa do Qatar (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

No segundo tempo, com o árbitro a assinalar uma grande penalidade a favor dos sul-americanos que depois o VAR transformou em canto, o guarda-redes Saad Al Sheeb acabou por ser a principal figura do Qatar, aguentando o nulo perante as tentativas de Zapata (53′), Yerry Mina (56′) ou Roger Martínez, em duas ocasiões, com James Rodríguez a servir (62′ e 64′). Falcao e Luís Diáz foram também lançados em campo e a resistência defensiva dos asiáticos acabou mesmo por ceder a quatro minutos do final, quando James, jogador que esteve no Bayern por empréstimo do Real Madrid e que pode agora reforçar a título definitivo o Nápoles, assistiu Zapata para o cabeceamento que quebrou a muralha de um conjunto mais uma vez complicado de bater e que ainda foi em busca do empate antes de Zapata falhar o 2-0 isolado na área do Qatar.

“Foram 90 minutos de muita concentração e o Qatar teve muito mérito em não nos deixar jogar. Não recebemos nenhuma oferta. Os jogadores colombianos tiveram de trabalhar muito e, por isso, tiveram todo o mérito. Agora temos de fazer contas ao cansaço dos jogadores. Tivemos dois jogos muito difíceis, há alguns jogadores fatigados e com pequenos problemas físicos. A falta de um golo cedo também teve a ver com essa fadiga. Com o Paraguai, tenho a intenção de rodar jogadores até porque todos os que estão aqui devem receber todo o mérito por isso mesmo”, comentou Carlos Queiroz no final de um encontro que, face ao empate entre Argentina e Paraguai, confirmou a Colômbia não só nos quartos mas também como primeiro classificado.