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“Os Mortos Não Morrem”: Jim Jarmusch dá uma no cravo e outra na sepultura

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A comédia de zombies "Os Mortos Não Morrem", realizada por Jim Jarmusch, mistura o bom e o displicente, o original e o desleixado. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas, mas mesmo à justa.

Bill Murray, Chloe Sevigny e Adam Driver à espera dos zombies em "Os Mortos Não Morrem"

Autor
  • Eurico de Barros

Entre as carradas de filmes de zombies que se fazem por aí, há também comédias (negras, claro). Entre as melhores estão “Shaun of the Dead” (2004), de Edgar Wright (um grupo de londrinos nada heróicos tem que lidar com um apocalipse zombie); “Juan de Los Muertos” (2011), de Alejandro Brugués (Cuba é vítima de uma praga de mortos-vivos e o governo comunista diz tratar-se de uma revolta de dissidentes); ou “One Cut of the Dead” (2017), do japonês Shin’ichirô Ueda (uma equipa que está a fazer um filme de zombies de baixo orçamento é atacada por mortos-vivos, e o realizador aproveita e prossegue a rodagem). Agora, é Jim Jarmusch a experimentar a comédia de zombies em “Os Mortos Não Morrem”, com um elenco que inclui desde Bill Murray e Tilda Swinton a Tom Waits e Iggy Pop (que podia mesmo ser confundido com um deles.)

[Veja o “trailer” de “Os Mortos Não Morrem”:]

Jarmusch aproveita a presente onda de catastrofismo ecológico para explicar porque é que na pacatíssima vila de Centerville, onde se passa a ação do filme, os mortos começam a sair das suas sepulturas no cemitério local e a atacar os vivos. As perfurações para pesquisa de gás natural nos pólos afetaram o eixo da terra, e por isso o dia e a noite perderam o tino, as comunicações foram afetadas, os animais entraram em histeria coletiva, a lua ficou psicadélica e os defuntos voltaram à vida. Perante isto, o xerife local (Bill Murray) e os seus dois ajudantes (Adam Driver e Chloe Sevigny) têm que fazer o que podem para protegerem os habitantes de Centerville, e não serem também apanhados pelos zombies.

[Veja uma entrevista com Bill Murray:]

Num toque de sátira às nossas sociedades hiperconsumistas, o realizador faz os zombies de “Os Mortos Não Morrem” serem atraídos pelos interesses e gostos que tinham quando eram vivos. Assim, eles percorrem as ruas a repetir em voz arrastada: “Café”, “Chardonnay”, “Wi Fi” ou “Xanax”. A ideia é boa, só que George A. Romero já a teve muitas décadas antes, quando situou “Zombie: A Maldição dos Mortos Vivos” (1978), num enorme centro comercial de Filadélfia. E quanto ao inevitável – e pueril — ataque a Donald Trump, o filme fica-se pela personagem de Steve Buscemi, um fazendeiro azedo que usa um boné onde se lê “Make America White Again” e se chama Frank Miller (uma bicada no célebre autor de “comics” e realizador de direita).

[Veja uma entrevista com Adam Driver e Chloe Sevigny:]

Em “Só os Amantes Sobrevivem” (2013), Jim Jarmusch conseguiu, com originalidade, melancolia e poesia lúgubre, dar uma sacudidela no filme de vampiros, transformando o casal de sugadores de sangue formado por Tilda Swinton e Tom Hiddleston em “hipsters” relutantes em andar atrás de presas humanas. Mas já não consegue fazer o mesmo ao filme de zombies em “Os Mortos Não Morrem”. A fita é demasiado arrastada mesmo para os padrões do descontraído Jarmusch, que se mostra desleixado e displicente com o enredo e as personagens (a de Tilda Swinton, que faz uma agente funerária samurai, é metida a martelo e sai de cena de forma tão aleatória e desconcertante como entrou), e os “gags” e tiradas de comédia seca nem sempre conseguem o efeito pretendido.

[Veja uma entrevista com Tilda Swinton:]

Tal como acontecia com as personagens da série “Gritos”, de Wes Craven, as de “Os Mortos Não Morrem” vêem filmes de terror e lêem livros e “comics” deste género. Por isso reconhecem o fenómeno sobrenatural com que se confrontam, reagem de forma plausível ao mesmo e sabem como lidar com ele, o que leva a que “Matem a cabeça!” seja a frase mais repetida na fita (no que toca a sangueira e decapitações, “Os Mortos Não Morrem” é muito compostinho). Noutro bom pormenor, Jarmusch quebra o tabu dos filmes e séries de televisão do género, de não mostrar crianças zombie, pondo-as, e de acordo com a lógica de comportamento dos mortos-vivos da sua fita, a assaltar a bomba de gasolina de Centerville onde também se vendem doces e gelados, banda desenhada e brinquedos.

[Veja uma cena de “Os Mortos Não Morrem”:]

Bill Murray leva praticamente o filme a reboque com o seu imperturbável xerife Cliff Robertson, Danny Glover, Selena Gomez, Larry Fessenden e Carol Kane também aparecem em papéis secundários (este é o filme de zombies com o elenco simultaneamente mais vistoso e mais desvairado de todos em termos de elenco) e há umas quantas piadas e cotoveladas cinéfilas semeadas ao longo da fita, que acaba dando-nos a forte sensação de que o realizador pura e simplesmente se desinteressou dela, das personagens e do que possamos pensar disso. Em “Os Mortos Não Morrem”, Jim Jarmusch tanto acerta uma no cravo como outra na sepultura.

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