Aveiro tem os ovos moles, o Algarve tem o Dom Rodrigo e Lisboa tem o pastel de nata, mas o Porto não tinha um doce que o identificasse e homenageasse. O convite era simples: eleger a especialidade de doçaria que representasse o distrito. “Não há nenhum doce que se possa considerar como sendo característico do Porto. Temos muita doçaria, mas é doçaria Portuguesa e nenhuma se pode apresentar como o doce tradicional do Porto”, afirma Olga Domingues, responsável pela organização do concurso “Delícia do Porto”.

Não utilizar aditivos e ingredientes como óleos alimentares, margarinas ou xaropes de glucose, ter até três dias de durabilidade, ser original, criativo, fácil de transportar e apresentado em doses individuais que não ultrapassem a 100 gramas foram alguns dos requisitos que constavam no regulamento do concurso. Das vinte candidaturas recebidas, apenas seis passaram a uma fase posterior onde o público foi chamado a pronunciar-se através de provas em locais públicos da cidade e na aplicação móvel do evento, representando 30% no apuramento do vencedor.

Com um painel de jurados formado por várias confrarias da cidade e nomes como os chefs de cozinha Ljubomir Stanisic e Hélio Loureiro, o concurso teve a final marcada no passado dia 20 de junho, na Alfândega do Porto, onde a doceira Gabriela Ribeiro se sagrou vencedora. A criação é inspirada na sua paixão pela doçaria conventual, sendo uma homenagem ao que se fazia no extinto Convento de S. Bento de Avé Maria do Porto, que se situava no que é hoje a Estação de S. Bento.

 

“Nesse convento usava-se o milho, pão, trouxas de ovos, eu acrescentei o feijão para a criação desta peça”, conta a pasteleira. A iguaria colorida, fofa e composta por camadas tem a forma de um coração, evocando “o momento em que D. Pedro IV doou o seu coração à cidade do Porto como forma de agradecimento pela lealdade do povo da cidade à causa liberal”.

Gabriela Ribeiro terá um prémio de dez mil euros e vai poder participar no eventos e feiras onde a especialidade criada venha a ser promovida. Além de ter de prescindir dos direitos de autor da receita, a vencedora tem o dever de dar formação às equipas de pasteleiros que pretendam fabricar a “Delícia do Porto”, estando depois disponível, segundo a organização, no comércio tradicional, na hotelaria, nas caves de vinho do Porto e nos cruzeiros do Douro.

Além de Gabriela Ribeiro, como finalistas ficaram as propostas de Rui Pereira, do restaurante “Forninho da Granja”, Joana Sousa, mentora do projeto “The Pastry Lab”, e Sandro Silva, da pasteleria “Natas D’Ouro”. O concurso foi organizado pela empresa alimentar Lezíria das Delícias, e contou com o apoio da Escola de Hotelaria e Turismo, da Associação dos Industriais de Panificação, Santa Casa da Misericórdia do Porto, entre outras entidades.