Andou com David Cameron na escola, literalmente (foram colegas em Oxford), e foi em tempos considerado o “ministro preferido” de Theresa May. Foi empreendedor no início da carreira, fala japonês, tendo ensinado a língua inglesa naquele país, e foi o ministro da Saúde que mais tempo sobreviveu no cargo. O jornal The Guardian chegou a apelidá-lo de “o grande sobrevivente”, já que, com greves constantes de médicos e cortes no setor, gerir o Serviço Nacional de Saúde é considerado das pastas mais difíceis de manobrar no Reino Unido — e Hunt manteve-a durante seis anos. O Politico classificou-o em tempos como alguém que “faz os trabalhos politicamente perigosos”, não sendo por isso surpresa as suas ambições de ser primeiro-ministro.

Por estas e por outras chegou a ser considerado o “ministro preferido” de Theresa May e, por estas e por outras, é hoje em dia conhecido nos corredores do Partido Conservador como uma espécie de “Theresa May de calças”, ainda que, como lembra o Guardian, não seja uma alcunha muito fiel já que Theresa May usa habitualmente calças. Quem é, afinal, Jeremy Hunt, o conservador que esta quinta-feira conseguiu a nomeação entre os pares para concorrer contra Boris Johnson na corrida à liderança dos Tories e, consequentemente, na corrida a primeiro-ministro do Reino Unido?

Filho mais velho do almirante Nicholas Hunt, Jeremy foi criado na prestigiada escola privada de Charterhouse e formou-se em Oxford na mesma altura do ex-primeiro-ministro David Cameron. Foi aí que se tornou ativo na política, tendo presidido à Associação Conservadora. Considerado um tecnocrata liberal, daí passou a trabalhar como consultor de gestão e desenvolveu uma carreira de sucesso como empreendedor antes de entrar no Parlamento britânico em 2005. Criou uma agência de relações públicas e uma editora especializada em pôr estudantes em contacto com as universidades, tendo depois vendido as suas ações na empresa e tendo-se tornado assim milionário.

Antes, viveu no Japão onde ensinou a língua inglesa, sendo hoje em dia fluente em japonês. Ainda assim, ficou célebre uma gafe que cometeu enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, durante uma visita oficial à China, onde afirmou que a sua mulher era “japonesa” quando, na verdade, nasceu em Xian, na região central da China. Num dos debates para a corrida à liderança dos conservadores perguntaram-lhe inclusive qual era a sua maior falha, e Jeremy Hunt disse que, “como chefe da diplomacia, alguns dirão que é ter errado na nacionalidade da minha mulher”.

No capítulo das gafes não compete com Boris Johnson, mas tem algumas para a coleção: comparou a União Europeia à União Soviética numa conferência do partido no ano passado, e na semana passada foi alvo de críticas quando disse que apoiava a “150%” o presidente norte-americano, Donald Trump, na guerra de palavras com o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan.

Foi eleito pela primeira vez para o Parlamento britânico em 2005, durante os governos dos trabalhista Tony Blair e depois Gordon Brown, altura em que foi porta-voz dos conservadores para a a Cultura e para a pasta das Pessoas com Deficiência. Quando os conservadores chegaram ao governo, em 2010, David Cameron escolheu-o como ministro da Cultura, pasta que assumiu até 2012, passando depois para o Ministério da Saúde. Foi aí que se revelou um “sobrevivente”, ao ficar como ministro da Saúde durante seis anos (até 2018), batendo o recorde de titular da pasta.

Enquanto ministro da Cultura, Media e Desporto no governo Conservador e Liberal de David Cameron, Jeremy Hunt teve um papel central na organização dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, tendo nessa altura decidido duplicar o orçamento para as cerimónias, e tendo nessa altura trabalhado de perto com o então presidente da câmara de Londres, Boris Johnson. Foi também nessa altura, quando tinha a pasta dos Media e Cultura que viu a sua carreira em risco devido a uma investigação revelou ligações de Jeremy Hunt à família de Rupert Murdoch, e alegado favorecimento ao magnata da comunicação social.

Mas sobreviveu e em 2012 foi nomeado ministro da Saúde, acabando por vir a revelar-se o ministro mais duradouro (2012-2018) da história do Serviço Nacional de Saúde, superando o fundador do SNS britânico, o trabalhista Aneurin Bevan. E isto numa altura em que o Serviço Nacional de Saúde atravessou o período de menor investimento da história, com os hospitais a dispararem para o vermelho enquanto o governo britânico procurava reduzir o défice.

Em 2018, Jeremy Hunt chega aos Negócios Estrangeiros depois de Boris Johnson, defensor da saída do Reino Unido da UE, bater com a porta, em julho, devido à estratégia de Theresa May para o brexit. Quanto a Jeremy Hunt, foi um defensor do “remain” no referendo de 2016, isto é, defendeu, tal como Cameron, a manutenção do Reino Unido na UE. Mas com o tempo, e justificando a mudança de posição com a “postura arrogante que a Comissão Europeia adotou nas negociações”, Jeremy Hunt diz que já votaria pela saída se houvesse um segundo referendo.

Ao contrário de Boris Johnson, que põe a data de 31 de outubro como prazo-limite para o Brexit, Hunt não é tão rígido: defende uma negociação “credível” para a saída, assegurando sobretudo as questões mais controversas relacionadas com o mecanismo de salvaguarda que pretende evitar o regresso de uma fronteira física entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. Ainda assim, se não for possível um acordo, Jeremy Hunt não tem problemas em defender uma saída sem acordo se essa for a única via possível para cumprir o Brexit prometido.