Rádio Observador

Reino Unido

É “Theresa May de calças” e vai concorrer a primeiro-ministro. Quem é Jeremy Hunt?

É um tecnocrata liberal, fala japonês e é apelidado de "Theresa May de calças" pelos deputados. Vai defrontar Boris Johnson na corrida a líder dos conservadores e a primeiro-ministro do Reino Unido.

Jeremy Hunt sucedeu a Boris Johnson no Ministério dos Negócios Estrangeiros e agora vai defrontá-lo na corrida à liderança dos Tories

ANDY RAIN/EPA

Andou com David Cameron na escola, literalmente (foram colegas em Oxford), e foi em tempos considerado o “ministro preferido” de Theresa May. Foi empreendedor no início da carreira, fala japonês, tendo ensinado a língua inglesa naquele país, e foi o ministro da Saúde que mais tempo sobreviveu no cargo. O jornal The Guardian chegou a apelidá-lo de “o grande sobrevivente”, já que, com greves constantes de médicos e cortes no setor, gerir o Serviço Nacional de Saúde é considerado das pastas mais difíceis de manobrar no Reino Unido — e Hunt manteve-a durante seis anos. O Politico classificou-o em tempos como alguém que “faz os trabalhos politicamente perigosos”, não sendo por isso surpresa as suas ambições de ser primeiro-ministro.

Por estas e por outras chegou a ser considerado o “ministro preferido” de Theresa May e, por estas e por outras, é hoje em dia conhecido nos corredores do Partido Conservador como uma espécie de “Theresa May de calças”, ainda que, como lembra o Guardian, não seja uma alcunha muito fiel já que Theresa May usa habitualmente calças. Quem é, afinal, Jeremy Hunt, o conservador que esta quinta-feira conseguiu a nomeação entre os pares para concorrer contra Boris Johnson na corrida à liderança dos Tories e, consequentemente, na corrida a primeiro-ministro do Reino Unido?

Filho mais velho do almirante Nicholas Hunt, Jeremy foi criado na prestigiada escola privada de Charterhouse e formou-se em Oxford na mesma altura do ex-primeiro-ministro David Cameron. Foi aí que se tornou ativo na política, tendo presidido à Associação Conservadora. Considerado um tecnocrata liberal, daí passou a trabalhar como consultor de gestão e desenvolveu uma carreira de sucesso como empreendedor antes de entrar no Parlamento britânico em 2005. Criou uma agência de relações públicas e uma editora especializada em pôr estudantes em contacto com as universidades, tendo depois vendido as suas ações na empresa e tendo-se tornado assim milionário.

Antes, viveu no Japão onde ensinou a língua inglesa, sendo hoje em dia fluente em japonês. Ainda assim, ficou célebre uma gafe que cometeu enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, durante uma visita oficial à China, onde afirmou que a sua mulher era “japonesa” quando, na verdade, nasceu em Xian, na região central da China. Num dos debates para a corrida à liderança dos conservadores perguntaram-lhe inclusive qual era a sua maior falha, e Jeremy Hunt disse que, “como chefe da diplomacia, alguns dirão que é ter errado na nacionalidade da minha mulher”.

No capítulo das gafes não compete com Boris Johnson, mas tem algumas para a coleção: comparou a União Europeia à União Soviética numa conferência do partido no ano passado, e na semana passada foi alvo de críticas quando disse que apoiava a “150%” o presidente norte-americano, Donald Trump, na guerra de palavras com o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan.

Foi eleito pela primeira vez para o Parlamento britânico em 2005, durante os governos dos trabalhista Tony Blair e depois Gordon Brown, altura em que foi porta-voz dos conservadores para a a Cultura e para a pasta das Pessoas com Deficiência. Quando os conservadores chegaram ao governo, em 2010, David Cameron escolheu-o como ministro da Cultura, pasta que assumiu até 2012, passando depois para o Ministério da Saúde. Foi aí que se revelou um “sobrevivente”, ao ficar como ministro da Saúde durante seis anos (até 2018), batendo o recorde de titular da pasta.

Enquanto ministro da Cultura, Media e Desporto no governo Conservador e Liberal de David Cameron, Jeremy Hunt teve um papel central na organização dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, tendo nessa altura decidido duplicar o orçamento para as cerimónias, e tendo nessa altura trabalhado de perto com o então presidente da câmara de Londres, Boris Johnson. Foi também nessa altura, quando tinha a pasta dos Media e Cultura que viu a sua carreira em risco devido a uma investigação revelou ligações de Jeremy Hunt à família de Rupert Murdoch, e alegado favorecimento ao magnata da comunicação social.

Mas sobreviveu e em 2012 foi nomeado ministro da Saúde, acabando por vir a revelar-se o ministro mais duradouro (2012-2018) da história do Serviço Nacional de Saúde, superando o fundador do SNS britânico, o trabalhista Aneurin Bevan. E isto numa altura em que o Serviço Nacional de Saúde atravessou o período de menor investimento da história, com os hospitais a dispararem para o vermelho enquanto o governo britânico procurava reduzir o défice.

Em 2018, Jeremy Hunt chega aos Negócios Estrangeiros depois de Boris Johnson, defensor da saída do Reino Unido da UE, bater com a porta, em julho, devido à estratégia de Theresa May para o brexit. Quanto a Jeremy Hunt, foi um defensor do “remain” no referendo de 2016, isto é, defendeu, tal como Cameron, a manutenção do Reino Unido na UE. Mas com o tempo, e justificando a mudança de posição com a “postura arrogante que a Comissão Europeia adotou nas negociações”, Jeremy Hunt diz que já votaria pela saída se houvesse um segundo referendo.

Ao contrário de Boris Johnson, que põe a data de 31 de outubro como prazo-limite para o Brexit, Hunt não é tão rígido: defende uma negociação “credível” para a saída, assegurando sobretudo as questões mais controversas relacionadas com o mecanismo de salvaguarda que pretende evitar o regresso de uma fronteira física entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. Ainda assim, se não for possível um acordo, Jeremy Hunt não tem problemas em defender uma saída sem acordo se essa for a única via possível para cumprir o Brexit prometido.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: rdinis@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)