Festival Novos Realizadores Novo Cinema arranca na segunda-feira, em Espinho, e inclui 40 horas de formação do programa “Training Ground”, uma ‘masterclass’ pela equipa que ganhou o Oscar pela edição sonora do filme “Bohemian Rhapsody” (2018).

A 15.ª edição do certame, descrito pela organização como “o maior e mais completo festival de cinema em Portugal”, vai assim receber os britânicos John Warhurst e Nina Hartstone, que se propõem dissecar em Espinho as estratégias utilizadas para superar os desafios colocados à produção do filme sobre Freddie Mercury (1946-1991), para que a interpretação do ator Rami Malek parecesse reproduzir genuinamente a voz do vocalista dos Queen.

“O que esta equipa fez com o som do filme foi um trabalho absolutamente fantástico e prova disso é que quase ninguém repara que nos últimos minutos em que o Rami Malek está a cantar, quando se recria o concerto do Live Aid, o que nós estamos a ouvir é mesmo a voz original do Freddie Mercury”, afirma à Lusa o diretor do FEST, Filipe Pereira.

Noutras secções do “biopic” houve que gravar multidões em concertos, aplausos de plateias, teclas de piano a serem pressionadas e até “excertos com um duplo vocal do Freddie Mercury, para depois se ‘coser’ isso muito bem no filme, e tudo soar autêntico e natural nos cenários e no corpo do Rami Malek”.

Além de “Bohemian Rhapsody”, a carreira de John Warhust inclui filmes como “Sweeny Todd: The Demon Barber of Fleet Street” (“Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street”, 2007), “Les Misérables” (“Os Miseráveis”, 2012) e “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri” (“Três Cartazes à Beira da Estrada”, 2017). Já o currículo da supervisora de diálogo Nina Hartstone inclui obras como “Lara Croft Tomb Raider: The Cradle of Life” (“Lara Croft: Tomb Raider – O Berço da Vida”, 2003) e “Bridget Jone’s Baby” (“O Bebé de Bridget Jones”, 2016).

Esses dois profissionais vão ainda conduzir uma segunda ‘masterclass’ com Eddy Joseph, editor de som em títulos como “Cold Mountain” (2003), “Corpse Bride” (“A Noiva Cadáver”, 2005), “United 93” (“Voo 93”, 2006) e “007 – Quantum of Solace” (2008).

Já com mais de 800 participantes inscritos, o programa “Training Ground” do FEST 2019 contará com outras figuras de relevo do cinema internacional e, entre essas, Filipe Pereira destaca a iraniana Marjane Satrapi, “icónica artista gráfica, cartoonista, ilustradora, autora de livros infantis e realizadora nomeada para um Óscar pelo filme de animação ‘Persépolis’ [2007]”.

Em Espinho, Satrapi falará das diferenças entre cinema de animação e de imagem real, dando a conhecer “Radioactive”, filme biográfico sobre a física Marie Curie, protagonizado por Rosamund Pike, anunciado para 2020.

O indiano Ritesh Batra, por sua vez, partilhará os seus conhecimentos sobre direção de atores e reescrita de argumentos, abordando para isso a experiência em filmes como “Lunch Box” (2013), a longa-metragem de estreia com que foi premiado pela crítica no festival de cinema de Cannes, e “Photograph” (2019), que chegará aos cinemas portugueses em agosto, depois de boas críticas em Sundance.

Outros formadores a passar pelo FEST são o argumentista Tony Grisoni, que tem vindo a trabalhar com Terry Gilliam e assinou o enredo de “Fear and Loathing in Las Vegas” (“Delírio em Las Vegas”, 1998) e “The Man Who Killed Don Quixote” (“O Homem Que Matou Don Quixote”, 2018), e ainda o diretor de fotografia chileno-dinamarquês Manuel Alberto Claro, “um nome indiscutível da indústria”, “conhecido pela sua colaboração de longo prazo com o realizador Lars Von Trier”, desde “Melancholia” (2001) a “The house that Jack built” (“A Casa de Jack”, 2018).

Filipe Pereira realça ainda duas outras ‘masterclasses’: a do realizador e produtor islandês Baltasar Kormákur, que “se afirmou internacionalmente e trabalha para todo o mundo a partir de uma pequena aldeia num país com apenas 340.000 habitantes”, e a do diretor de fotografia neozelandês Stuart Dryburgh, que acumula mais de 50 créditos em filmes como “The piano” (“O Piano”, 1993), “The secret life of Walter Mitty” (“A Vida Secreta de Walter Mitty”, 2013) e “Ben is back” (“O Ben Está de Volta”, 2018).

O programa do FEST também inclui um fórum de ‘Pitching’, em que 28 candidatos previamente selecionados terão cinco minutos para apresentar as suas ideias a potenciais investidores, e a secção “Diretor’s Hub”, para análise e discussão da atualidade cinematográfica internacional.

Prevendo 60 horas de debates, oficinas e conferências com profissionais consagrados e valores emergentes, essa rubrica conta já com um painel sobre ” A nova vaga portuguesa”, que terá como oradores os realizadores Miguel Gonçalves Mendes, Pedro Cabeleira, Duarte Coimbra, Pedro Pinho e Bernardo Lopes.

Para o “Diretor’s Hub” também estão anunciados, entre várias outras sessões, dois estudos de caso na primeira pessoa sobre os filmes “A Árvore” (2018), do diretor português André Gil Mata, e “Scales”, da saudita Shahad Ameen, assim como um painel sobre as motivações de transformação social dos realizadores Anaïs Blondet (Peru), See Wee Aw (Malásia) e Mohamed Kordofani (Sudão).

A 15.ª edição do FEST tem início na próxima segunda-feira e decorre até 01 de julho em vários espaços da cidade, tendo 257 filmes em competição. O programa abarca ainda várias atividades paralelas, como sessões panorâmicas, filmes ao ar livre, concertos, uma feira do livro sobre cinema e outras atividades lúdicas disponíveis na “FESTival Village” instalada entre o Casino de Espinho e a Praia da Baía.