Sempre que Tahreem Arshad ia com as irmãs às compras, o processo repetia-se: a mais velha escolhia as peças de roupa que gostava, Tahreem ia para os provadores experimentá-las e a mais nova ia para a fila guardar a vez do pagamento. Tudo porque a mais crescida das três irmãs não queria despir-se, vestir-se e voltar a despir para vestir. E Tahreem ajudava a irmã a perceber como é que a roupa assentava.

Aquilo que há uns anos poderia parecer um simples acordo entre irmãs, hoje tem nome, mais de 600 mil dólares angariados em investimento e uma proposta de futuro: na economia colaborativa em que vivemos todos podem ser uma jovem “Tahreem” e ajudar outras irmãs mais velhas a fugir ao stress dos provadores. Como? Através da Sozie, a app que a empreendedora de origem canadiana e paquistanesa levou à final da segunda edição do Dream Assembly, programa de aceleração de startups promovido pela Farfetch.

“Acho que é uma verdade para todos que ninguém gosta de experimentar roupas e, no espaço online, há uma grande discrepância [entre aquilo que se vê e a realidade] para algumas pessoas. A conveniência de fazer compras online é ótima, mas a inconveniência de não saber exatamente o que estás a comprar e como te vai assentar é muito frustrante. Por isso, achei que a ideia de a minha irmã me obrigar a experimentar as roupas por ela era algo muito real e que era um problema que podia ser resolvido hoje”, explica a CEO da Sozie em Londres, ao Observador.

Pegando no exemplo de outras startups que atuam na área da economia da partilha, como a Uber, Tahreem explica que o que propõe com a Sozie resolve três problemas de uma vez só: o desfasamento entre a produção fotográfica dos modelos e a realidade, dà às mulheres uma opção de ganharem algum dinheiro com a economia colaborativa e cria um espírito de camaradagem e de confiança entre compradores, “algo que falta à relação entre o retalhista e o comprador”. De que se trata afinal? De uma app na qual qualquer mulher se pode inscrever para servir de modelo para outras. Sempre que for experimentar uma peça de roupa, a pedido de um retalhista, e disponibilize as fotos que tira no provador à plataforma, recebe dinheiro.

Tahreem Arshad é CEO da Sozie, que, antes de participar no programa de aceleração de startups da Farfetch participou no da TechStars

“Colocamos anúncios de empregos em comunidades de universidades, classificados, retalhistas, etc. O emprego chama-se ‘sê paga para ir às compras'”, conta a empreendedora. Quando as pessoas se inscrevem na plataforma, esta faz um registo ao seu corpo e fica com todas as medidas das “sósias” que se inscrevem. Cruza estes dados com o inventário dos retalhistas que estão presentes na app e sempre que estes precisarem que alguém com determinadas medidas experimente uma peça de roupa, alertam o perfil da sósia em questão. “Os nossos algoritmos atribuem os pedidos das marcas às sósias certas, tendo em conta a proximidade física a que esta está da loja na qual está disponível aquele produto. É muito fácil depois para a sósia receber o pedido e ir a uma loja experimentar”, conta.

Quando a sósia recebe o pedido, vai à loja, experimenta a peça em questão, tira algumas fotografias e envia para a plataforma, respondendo também a algumas perguntas sobre como se sentiu com o produto que experimentou.

“Isto entra no nosso sistema, limpamos a fotografia, para que não se veja o background da loja, só se vê branco, e depois as fotos vão para o site do retalhista. Quando o comprador vai ao site, olha para o modelo e, por debaixo, pode ver muitas pessoas diferentes a usar o mesmo modelo e percebes como se parecem, as suas medidas, o tamanho e o que dizem dobre o produto”, explica. As sósias depois são pagas por PayPal. Ao retalhista, a Sozie cobra por cada unidade de conteúdo que vende.

Foi este o projeto que, em dois minutos, Tahreem Arshad apresentou a todos os investidores que estavam presentes no Demo Day do Dream Assembly, em Londres. Foram oito os projetos que tiveram direito a um pitch que convencesse quem ali estava de que valia a pena investir nos projetos de sustentabilidade que nas últimas 10 semanas participaram em workshops, sessões de mentoria e reuniões individuais com líderes da Farfetch e de empresas parceiras.

O programa começou em Lisboa, em abril, e terminou em Londres, no início de junho. A segunda edição da aceleradora da Farfetch foi desenvolvida em cooperação com as marcas de moda Stella McCartney e Burberry, que já tinha estado ligada à edição anterior.

“Fiz outro acelerador antes deste, o da Techstars, e por isso, antes de mais, acreditava bastante no valor que estes aceleradores nos trazem. Quando és uma empresa que está muito no início precisas de investimento, mas também precisas de pessoas que são especialistas para te darem acesso…. E quando surgiu a Farfetch, eles são sem dúvida a empresa tecnológica líder na moda. Ter acesso aos mentores e às pessoas com quem nos proporcionaram muito tempo durante o programa, isso foi muito valioso para a minha empresa“, conta a empreendedora que cresceu em mais de 10 países, mas que escolheu o Reino Unido como sede da sua empresa.

José Neves: “A inovação não pode ser só interna, tem de ser externa também”

Antes de as empreendedoras pegarem no microfone foi José Neves — o português líder da plataforma de moda de luxo que em setembro passou a ser uma empresa cotada em Wall Street — quem falou sobre o Dream Assembly. “É o segundo e estamos muito contentes com o resultado. A razão pela qual lançámos isto é porque a inovação faz parte do núcleo central da Farfetch. Faz parte dos nossos seus valores principais, desde o dia um”, afirma, acrescentando logo de seguida: “A inovação não pode ser só interna, tem de ser externa também.”

Com o pressuposto de que, assim, conseguia “devolver algo à comunidade” de empreendedores e “beneficiar o ecossistema”, José Neves lançou o Dream Assembly em 2018. Nesta segunda edição, o programa recebeu cerca de 140 candidaturas oriundas de mais de 10 países diferentes e o feedback que o português (que é um dos homens mais ricos de Portugal, segundo a Forbes) teve da equipa que trabalhou com as oito startups finalistas foi “unânime”.

“Tiveram reuniões com cerca de 70 pessoas da Farfetch e saíram das reuniões incrivelmente entusiasmados. Isto inspira-nos e voltamos ao nosso trabalho com um nível completamente diferente de energia. Já temos um número de startups com as quais estamos a trabalhar”, acrescentou.

Ao Observador, David Grunwald, vice presidente do departamento de Inovação da Farfetch, explica que, para esta segunda edição, a equipa estava à procura de “empresas que sentíamos que podíamos ajudar, das quais podíamos ser parceiros e fazê-las crescer”. “Estávamos à procura de empresas que tivessem já um produto minimamente viável, pelo menos um indicativo da tração, alguma validação dos mercados e investidores. E de uma diversidade de empresas à volta do tema da sustentabilidade, como economia circular, empresas de revenda e, fundamentalmente, empresas com as quais sentíamos que podíamos trabalhar de forma produtiva.”

Sobre as finalistas da segunda edição do programa, David Grunwald diz que a empresa está “de mente muito aberta para explorar parcerias e potenciais investimento”. Isto significa que a Farfetch pode vir a adquirir alguma delas? “Quem sabe?”, responde, entre sorrisos. Se na segunda edição a empresa de moda de luxo estava focada em encontrar startups que quisessem tornar o comércio mais sustentável, para a próxima edição ainda não há tema definido, mas há uma certeza.

“Ainda não sabemos como vai ser o próximo programa, mas vamos sem dúvida fazê-lo. Isto é um grande compromisso para a Farfetch. Uma das principais razões pelas quais fazemos isto é porque a Farfetch adora fazê-lo. É uma situação na qual todos retiram alguma coisa. As nossas equipas e colaboradores gostam mesmo de fazer mentoria às startups e esperamos estar a ajudar toda a indústria também. É uma plataforma muito aberta”, explicou o responsável.

E quão difícil é inovar na Farfetch? É um desafio? Para David Grunwald, não. “Como o próprio José Neves disse, a Farfetch é uma empresa que até há bem pouco tempo era uma startup também e há uma grande vontade em ajudar a indústria a evoluir. Mas, sim, temos alguns desafios e a sustentabilidade é um dos principais. Acho que as pessoas se juntam à Farfetch porque veem uma oportunidade de promover mudanças positivas e por isso não há nenhuma resistência à inovação. O desafio, se quiseres, é encontrar o sítio certo para fazermos as nossas apostas em termos de oportunidades.”

À Sozie, juntaram-se mais sete startups no Demo Day: a Thrift+ (que promete simplificar a doação de roupa à caridade), a Good on You (que tem Emma Watson como embaixadora de uma indústria da moda mais confiável e ética), a Eon (que quer que todas as roupas tenham uma identidade digital), a Panoply (um serviço de subscrição mensal de compras de moda de luxo), a Material World (serviço personalizado que oferece peças de designer usadas com um desconto de 90%), a To the Market (cuja missão é resolver os problemas de sustentabilidade e ética do processo de fabrico e embalagem das peças) e a Save your Wardrobe (plataforma digital que liga utilizadores a recomendações personalizadas).

*O Observador assistiu à final do Dream Assembly a convite da Farfetch.