A fotografia tirada na fronteira do México com os Estados Unidos mostra dois corpos: um adulto e uma criança — agarrados um ao outro. Mas só a jornalista Julia Le Duc sabe a história daquela tragédia — igual a tantas outras de imigrantes ilegais que tentam chegar a território norte-americano para começar uma nova vida. Foi ela que tirou a foto que está a correr o mundo e contou tudo ao The Guardian.

O adulto Óscar Alberto Martínez Ramírez e a criança era a sua filha Valeria. De acordo com Le Duc, que trabalha num jornal de uma pequena cidade mexicana chamado Matamoros — oposta a Brownsville, Texas — aqueles dois emigrantes ilegais eram naturais de El Salvador.

“No sábado passado houve uma chamada de emergência sobre uma mulher que desesperava à margem do rio”, começa por explicar a jornalista. Ao que parece, o motivo da aflição era a filha pequena da mesma que tinha sido levada pela corrente do rio. A pessoa em questão era Vanessa Ávalos, uma migrante que estava no México há dois meses, assim explicou às autoridades, e que pretendia “pedir asilo aos EUA”.

“Ela disse que eles tinham estado em Tapachula, no sul do México e pretendiam candidatar-se à obtenção de um visto humanitário (que os permitiriam ficar e trabalhar no México durante um ano). Mas eles queriam o sonho americano — e por causa disso apanharam um autocarro até à fronteira”, relatou.

Chegaram ao início da manhã e não perderam tempo em rumar “à ponte internacional” para “perguntar sobre os pedidos de asilo”. Acontece que, por ser fim-de-semana, o gabinete norte-americano responsável pela imigração estava fechado, realidade que se tornava ainda mais complicada pelo enorme fluxo de pedidos que o dito gabinete já estaria a gerir. “Há uns meses existiam cerca de 1800 pessoas à espera, em Matamoros, da entrevista que faz parte do processo de pedido de asilo. Apesar de já terem conseguido atender umas 300 pessoas, só existem três espaços de entrevista por semana, daí a longa espera”, afirma a jornalista.

Perante esta realidade a família começou a voltar para trás até que, a dada altura, Martínez “parou, olho para o rio e disse: ‘É aqui que vamos atravessar'”. Ele foi o primeiro a lançar-se à água e levava com ele a filha pequena, Valeria. Conseguiu à primeira chegar a solo norte-americano e deixou-a lá para voltar para trás e apanhar a mulher.

Foi aqui que tudo correu mal: “Quando ele se voltou para ir buscar a mulher a rapariga foi atrás dele, para dentro de água. Quando ele foi ter com ela para a salvar, a corrente levou-os aos dois.”

De imediato foram chamados os serviços de emergência, que procuraram por pai e filha ate depois das 11 da noite. “Mesmo com luzes e barcos não conseguiram encontrar nada.” Foi na manhã seguinte que continuaram a as buscas até que às 10h15 da manhã os bombeiros encontraram os dois corpos. “Foi nesse momento que tirei as fotografias, antes do local ser vedado pelas autoridades.”

Julia Le Duc é jornalista de crime “há muitos anos”, diz já ter visto “muitos corpos” e vários deles vítimas de afogamentos. “O Río Bravo [também conhecido como Rio Grande] é muito forte, podemos achar que é raso mas tem imensas correntes e remoinhos”. Esta familiarização com a morte, afirma, pode “tornar-nos dormentes”, mas estes exemplos devolvem sensibilidade ao drama vivido por estas pessoas. “Podemos ver que o pai enfiou-a dentro da sua t-shirt para a corrente não a levar. Ele morreu a tentar salvar a filha”, contou.

E será que tudo isto mudará alguma coisa? “Devia”, responde Le Duc.

A jornalista afirma que estas famílias não têm nada e “estão a arriscar tudo” para terem uma vida melhor. Se exemplos dramáticos como este não “não nos fazem repensar”, ou “não motivam os nossos governantes”, a sociedade num todo está em maus lençóis, diz.

O sul do México está a passar por uma grave crise humanitária que o presidente Lopez Obrador está a tentar controlar com a ajuda dos 6000 militares que estão a tentar fechar a fronteira com a Guatemala. O problema é que o norte do México também não está a passar por melhores dias. “Estas famílias estão desesperadas e pessoas desesperadas fazem ações desesperadas”, conclui Le Duc.