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Timor-Leste

Timor-Leste foi “traído” por “um país amigo” por interesses económicos, segundo Xanana Gusmão

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Em causa está um esquema de escutas montado em 2004 pelos serviços secretos australianos em escritórios do governo timorense durante as negociações para um novo tratado para o Mar de Timor.

Quando tomou conhecimento da existência das escutas, Díli contestou o tratado e apresentou uma queixa contra a espionagem

GREGÓRIO CUNHA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

O antigo Presidente da República de Timor-Leste, Xanana Gusmão, afirmou esta quarta-feira que o país se sentiu traído por “um país amigo”, a Austrália, aquando do uso dos serviços secretos do combate ao terrorismo em função de grandes interesses económicos.

“Sentimo-nos traídos por um país, supostamente amigo, e com o qual contávamos reconstruir [Timor-Leste]”, afirmou Xanana Gusmão, em Lisboa, na apresentação do livro “Passar dos Limites – A História Secreta da Austrália no Mar de Timor”, da escritora australiana Kim McGrath e que aborda a ação daquele país insular em território timorense nos últimos 50 anos.

A existência de um esquema de escutas montado em 2004 pelos serviços secretos australianos em escritórios do governo timorense, em Díli, durante as negociações para um novo tratado para o Mar de Timor, foi denunciada por um ex-agente dos serviços secretos australianos, conhecido como “Testemunha K” (a sua identidade nunca foi revelada publicamente).

A “Testemunha K” e o seu advogado, Bernard Collaery, são acusados de conspiração pelas autoridades em Camberra, crime que tem uma pena máxima de dois anos de prisão e estão a ser julgados num tribunal australiano.

Nesse sentido, Xanana Gusmão, o primeiro Presidente de Timor-Leste desde a independência da Indonésia, lançou um apelo ao Governo australiano.

“É nesta revolta íntima, que arde cá dentro, que, humildemente, faço aqui um apelo público à razão para que o Governo da Austrália reconsidere e pare com a injustiça que está a ser praticada contra Bernard Colleary e contra a testemunha K”, afirmou, na cerimónia que decorreu durante o quinto encontro ministerial do g7+, em Lisboa.

“Não era a segurança do Estado que estava em causa, mas o facto de se ter utilizado a inteligência militar para espiar assuntos de negócio entre a riquíssima Austrália e o paupérrimo Timor-Leste”, afirmou o antigo chefe de Estado, acrescentando: “Não era uma questão de segurança. Nós tínhamos acabado a guerra. Se tínhamos algumas armas, que já não funcionavam, não tínhamos armas. Aquilo não era uma questão de segurança da Austrália, nós não íamos invadir a Austrália”.

De acordo com os relatos, através das escutas, o governo australiano obteve informações que permitiriam favorecer as intenções australianas nas negociações com Timor-Leste da fronteira marítima e pelo controlo da zona Greater Sunrise, uma rica reserva de petróleo e gás.

O tratado, que acabou por ser assinado, apontava que cada país teria 50% da área a explorar, embora a maior parte das reservas se encontrasse dentro de território timorense.

Quando tomou conhecimento da existência das escutas, Díli contestou o tratado e apresentou uma queixa contra a espionagem de Camberra junto do Tribunal Arbitral de Haia, argumentando que, devido às ações do Governo australiano, o acordo era ilegal.

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