Se eu fosse argumentista e trabalhasse em Hollywood, tinha-me trancado em casa com vergonha, e nem tinha coragem para me ver ao espelho. É que, mais uma vez, um título da série animada “Toy Story” mete num chinelo 95% dos filmes americanos ditos “sérios” e dirigidos aos espectadores adultos. Corrijo: 95% da restante produção do cinema americano, ponto.

Toy Story 4”, realizado por Josh Cooley e escrito pelo grande Andrew Stanton  (“À Procura de Nemo”, “WALL-E”), apresenta uma tal excelência ao nível da narrativa, da intensidade emocional e da elaboração dramática, e maneja com tanto virtuosismo temas, sentimentos, medos e angústias universais e intemporais, que nos faz emocionar e empatizar com um punhado de brinquedos criados por computador, como se fossem atores de carne e osso interpretando personagens de um filme realista.

[Veja o “trailer” de “Toy Story 4”:]

Ainda mais do que nos três filmes anteriores, “Toy Story 4” trata com modelar delicadeza e enorme ressonância emocional, nas pessoas do “cowboy” Woody, do astronauta Buzz Lightyear, do restante grupo de brinquedos que os acompanha e de outros recém-chegados, como o garfo descartável e neurótico Garfy (que no original, em inglês, se chama Forky) ou a boneca defeituosa Gabby Gabby, realidades tão humanas como os prazeres da amizade, a alegria do quotidiano partilhado com a família, o medo da perda do afeto daqueles que mais estimamos, o terror de nos sentirmos dispensáveis e de sermos esquecidos. E ainda o altruísmo para com quem mais gostamos, independentemente de sermos ou não correspondidos, levado ao ponto de sacrificarmos algo que nos é essencial.

[Veja uma entrevista com Tom Hanks e Tim Allen:]

“Toy Story 4” é o filme mais angustiado, crispado e aflitivo de todos. Woody deixa de ser o brinquedo favorito da pequena Bonnie, perde a estrela de xerife para a vaqueira Jessie e vive agora com medo de ficar metido no armário, numa existência sem sentido; Garfy, que Bonnie fez na escola a partir de um garfo de plástico descartável, não se convence que é um brinquedo e já não um talher, não percebe que é agora o favorito da menina e passa o tempo a atirar-se para dentro do caixote do lixo. Para desespero de Woody, que tenta fazer Garfy perceber o quão ele é importante para Bonnie.

Há ainda Duke Caboom, o motociclista acrobático traumatizado por ter sido rejeitado pelo menino a quem foi oferecido no Natal; e a afavelmente sinistra boneca Gabby Gabby, frustrada por nunca ter tido o afeto de uma criança, e que lidera um arrepiante grupo de bonecos de ventríloquo. “Toy Story 4” é, por uma pena, Ingmar Bergman no mundo dos brinquedos.

[Veja uma entrevista com o realizador Josh Cooley:]

Mas no meio de tanta confusão existencial, de tanto temor e de tanta dor, sobressai a pastorinha de porcelana Bo Peep, que depois de ter estado ausente na parte 3 (Josh Cooley não se esquece de explicar porquê), está de regresso para encher “Toy Story 4” de desembaraço, iniciativa e sobretudo de vitamina de confiança. Fugida da loja onde foi posta a ganhar pó, Bo Peep levou consigo as suas três ovelhas geminadas, saídas de um filme de David Cronenberg, atirou-se à aventura, arranjou um novo grupo de amigos e, mais importante que tudo, declarou a independência afetiva e superou a sua condição de “brinquedo sem criança”. É ela que vai tentar mostrar a Woody que isso não é o fim do mundo, ou seja, da sua razão de ser como brinquedo. E levá-lo a tomar uma decisão que ficará como o momento maior e mais comovente de toda a saga “Toy Story”.

[Veja uma entrevista com Tony Hale:]

Não julguem, no entanto, que “Toy Story 4” é uma tristeza só, um exercício da Pixar em animação digital depressiva. Muito pelo contrário, o riso continua a ser tão bem cultivado e tão farto como nos três filmes anteriores. A história passa-se durante uma viagem de férias da família de Bonnie, e humor e drama estão perfeitamente entrelaçados num argumento tão atarefado como bem arrumado.

“Toy Story 4” tem comédia em jato contínuo, trocadilhos e “gags” de todo o tipo a estralejar pelo filme fora (há um genial, sobre a “voz interna” de Buzz), e muitas caras novas além das já referidas, caso dos dois peluches refilões cosidos um ao outro, ou da mini-boneca amiga de Bo Peep que teve um caso amoroso com o He-Man. E há ainda um vertiginoso clímax numa feira de diversões, com espaço para gargalhadas, “suspense” e lágrimas, e que se dá ao luxo de piscar o olho a “O Desconhecido do Norte-Expresso”, de Hitchcock.

[Veja uma entrevista com Annie Potts:]

A qualidade estratosférica da animação computacional de “Toy Story 4”, que enfatiza a reconhecida perfeição maníaca da Pixar (exemplo: só a poeira na loja de antiguidades e o reflexo da porcelana de que é feita Bo Peep mobilizaram quase dez animadores), encontra igual nas magníficas interpretações. Aqui, e ao Tom Hanks de Woody, ao Tim Allen de Buzz ou à Joan Cusack de Jesse, bem como à regressada Annie Potts como Bo Peep, juntam-se Tony Hale no atarantado Garfy, Keanu Reeves, impagável no instável Duke Caboom, ou ainda Christina Hendricks em Gabby Gabby, transmitindo o rancor venenoso mas também a amargura funda da boneca que nunca conheceu o amor de uma criança, ecoando no seu azedume magoado o urso Lotso de “Toy Story 3”.

[Veja uma entrevista com Keanu Reeves:]

A Pixar tem sempre “gags” de despedida no final de cada filme, e não foge à regra em “Toy Story 4”, com Duke Caboom e um brinquedo secundário em destaque num momento que deixaria o Sheldon Cooper de “A Teoria do Big Band” satisfeito. Há alturas em que não devemos medir os elogios: do princípio até ao finzinho da fecha técnica, “Toy Story 4” é um filme pura e simplesmente perfeito, uma obra-prima do cinema animado. 

[Veja imagens da gravação das vozes:]