Rádio Observador

Cinema

“Toy Story 4”: angústia, coração e comédia numa obra-prima animada

299

O quarto filme da série "Toy Story" vai mais longe em intensidade emocional, elaboração dramática e inventividade cómica do que qualquer dos anteriores. Eurico de Barros dá-lhe cinco estrelas.

Woody (Tom Hanks) apresenta o atarantado Garfy (Tony Hale) aos restantes brinquedos em "Toy Story 4"

Autor
  • Eurico de Barros

Se eu fosse argumentista e trabalhasse em Hollywood, tinha-me trancado em casa com vergonha, e nem tinha coragem para me ver ao espelho. É que, mais uma vez, um título da série animada “Toy Story” mete num chinelo 95% dos filmes americanos ditos “sérios” e dirigidos aos espectadores adultos. Corrijo: 95% da restante produção do cinema americano, ponto.

Toy Story 4”, realizado por Josh Cooley e escrito pelo grande Andrew Stanton  (“À Procura de Nemo”, “WALL-E”), apresenta uma tal excelência ao nível da narrativa, da intensidade emocional e da elaboração dramática, e maneja com tanto virtuosismo temas, sentimentos, medos e angústias universais e intemporais, que nos faz emocionar e empatizar com um punhado de brinquedos criados por computador, como se fossem atores de carne e osso interpretando personagens de um filme realista.

[Veja o “trailer” de “Toy Story 4”:]

Ainda mais do que nos três filmes anteriores, “Toy Story 4” trata com modelar delicadeza e enorme ressonância emocional, nas pessoas do “cowboy” Woody, do astronauta Buzz Lightyear, do restante grupo de brinquedos que os acompanha e de outros recém-chegados, como o garfo descartável e neurótico Garfy (que no original, em inglês, se chama Forky) ou a boneca defeituosa Gabby Gabby, realidades tão humanas como os prazeres da amizade, a alegria do quotidiano partilhado com a família, o medo da perda do afeto daqueles que mais estimamos, o terror de nos sentirmos dispensáveis e de sermos esquecidos. E ainda o altruísmo para com quem mais gostamos, independentemente de sermos ou não correspondidos, levado ao ponto de sacrificarmos algo que nos é essencial.

[Veja uma entrevista com Tom Hanks e Tim Allen:]

“Toy Story 4” é o filme mais angustiado, crispado e aflitivo de todos. Woody deixa de ser o brinquedo favorito da pequena Bonnie, perde a estrela de xerife para a vaqueira Jessie e vive agora com medo de ficar metido no armário, numa existência sem sentido; Garfy, que Bonnie fez na escola a partir de um garfo de plástico descartável, não se convence que é um brinquedo e já não um talher, não percebe que é agora o favorito da menina e passa o tempo a atirar-se para dentro do caixote do lixo. Para desespero de Woody, que tenta fazer Garfy perceber o quão ele é importante para Bonnie.

Há ainda Duke Caboom, o motociclista acrobático traumatizado por ter sido rejeitado pelo menino a quem foi oferecido no Natal; e a afavelmente sinistra boneca Gabby Gabby, frustrada por nunca ter tido o afeto de uma criança, e que lidera um arrepiante grupo de bonecos de ventríloquo. “Toy Story 4” é, por uma pena, Ingmar Bergman no mundo dos brinquedos.

[Veja uma entrevista com o realizador Josh Cooley:]

Mas no meio de tanta confusão existencial, de tanto temor e de tanta dor, sobressai a pastorinha de porcelana Bo Peep, que depois de ter estado ausente na parte 3 (Josh Cooley não se esquece de explicar porquê), está de regresso para encher “Toy Story 4” de desembaraço, iniciativa e sobretudo de vitamina de confiança. Fugida da loja onde foi posta a ganhar pó, Bo Peep levou consigo as suas três ovelhas geminadas, saídas de um filme de David Cronenberg, atirou-se à aventura, arranjou um novo grupo de amigos e, mais importante que tudo, declarou a independência afetiva e superou a sua condição de “brinquedo sem criança”. É ela que vai tentar mostrar a Woody que isso não é o fim do mundo, ou seja, da sua razão de ser como brinquedo. E levá-lo a tomar uma decisão que ficará como o momento maior e mais comovente de toda a saga “Toy Story”.

[Veja uma entrevista com Tony Hale:]

Não julguem, no entanto, que “Toy Story 4” é uma tristeza só, um exercício da Pixar em animação digital depressiva. Muito pelo contrário, o riso continua a ser tão bem cultivado e tão farto como nos três filmes anteriores. A história passa-se durante uma viagem de férias da família de Bonnie, e humor e drama estão perfeitamente entrelaçados num argumento tão atarefado como bem arrumado.

“Toy Story 4” tem comédia em jato contínuo, trocadilhos e “gags” de todo o tipo a estralejar pelo filme fora (há um genial, sobre a “voz interna” de Buzz), e muitas caras novas além das já referidas, caso dos dois peluches refilões cosidos um ao outro, ou da mini-boneca amiga de Bo Peep que teve um caso amoroso com o He-Man. E há ainda um vertiginoso clímax numa feira de diversões, com espaço para gargalhadas, “suspense” e lágrimas, e que se dá ao luxo de piscar o olho a “O Desconhecido do Norte-Expresso”, de Hitchcock.

[Veja uma entrevista com Annie Potts:]

A qualidade estratosférica da animação computacional de “Toy Story 4”, que enfatiza a reconhecida perfeição maníaca da Pixar (exemplo: só a poeira na loja de antiguidades e o reflexo da porcelana de que é feita Bo Peep mobilizaram quase dez animadores), encontra igual nas magníficas interpretações. Aqui, e ao Tom Hanks de Woody, ao Tim Allen de Buzz ou à Joan Cusack de Jesse, bem como à regressada Annie Potts como Bo Peep, juntam-se Tony Hale no atarantado Garfy, Keanu Reeves, impagável no instável Duke Caboom, ou ainda Christina Hendricks em Gabby Gabby, transmitindo o rancor venenoso mas também a amargura funda da boneca que nunca conheceu o amor de uma criança, ecoando no seu azedume magoado o urso Lotso de “Toy Story 3”.

[Veja uma entrevista com Keanu Reeves:]

A Pixar tem sempre “gags” de despedida no final de cada filme, e não foge à regra em “Toy Story 4”, com Duke Caboom e um brinquedo secundário em destaque num momento que deixaria o Sheldon Cooper de “A Teoria do Big Band” satisfeito. Há alturas em que não devemos medir os elogios: do princípio até ao finzinho da fecha técnica, “Toy Story 4” é um filme pura e simplesmente perfeito, uma obra-prima do cinema animado. 

[Veja imagens da gravação das vozes:]

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Cinema

Tu, a mim, não me tratas por tu! /premium

Laurinda Alves
286

“Campeões” é um filme imperdível pelo humor explosivo e pelo amor redentor. Não temos pena de ninguém, não achamos ninguém estranho, não temos rótulos para os personagens, rimos quando nos fazem rir.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)