Em Itália, já se fala de um duelo entre a capitã Carole Rackete e o “capitão”, alcunha pela qual é conhecida o ministro do Interior de Itália e político de extrema-direita, Matteo Salvini.

Carole Rackete é a capitã do navio Sea-Watch 3 que, com 53 migrantes a bordo desde 12 de junho, esperou mais de duas semanas para poder atracar num porto italiano. Ao fim desse tempo, esta sexta-feira, o Sea-Watch foi autorizado a atracar. Porém, quando finalmente pisou solo italiano, em Lampedusa, Carole Rackete foi detida e posteriormente colocada em prisão domiciliária.

Cinco dos 53 migrantes do Sea-Watch 3 vêm para Portugal

A alemã está a ser acusada de ter tentado abalroar uma lancha com polícias a bordo, lançando o Sea-Watch 3 contra eles. De acordo com o Código da Navegação, citado pelo La Repubblica, o crime de “resistência ou violência contra um navio de guerra”, designação que contempla também a lancha onde estavam os polícias, é punível entre três a dez anos de prisão. Matteo Salvini disse que se tratou de “um ato de guerra”. No momento em que foi detida, conta o Corriere della Sera, Carole Rackete disse: “Peço desculpa”.

A sua detenção já causou incidentes diplomáticos com Itália. Além de França, que disse que “fechar portos viola as leis do mar”, a Alemanha também já se pronunciou sobre o caso. “Salvar vidas humanas é um dever humanitário. Socorrer vidas humanos no mar naõ pode ser criminalizado”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heijo Mass. Matteo Salvini respondeu dizendo que “a Itália não aceita lições de ninguém”.

Carole Rackete: “Sou branca, alemã, nascida num país rico e com um bom passaporte”

A definição da própria, em entrevista à Reuters, é esta: “Sou branca, alemã, nascida num país rico e com um bom passaporte”. Em entrevista ao La Repubblica, conta ainda que se apercebeu dos privilégios que a sua origem lhe confere na sua primeira viagem ao estrangeiro, na América do Sul. “Conheci culturas e povos diferentes do nosso e, quando se está lá, a não ser que se seja cego, é impossível não reparar nas injustiças e nas desigualdades que nos rodeiam”, conta. “Tive de fazer algo por aqueles que não têm voz nem força.”

Antes de se ter dedicado ao resgate de migrantes no Mar Mediterrâneo — os 53 que levava a bordo no Sea-Watch 3 foram apanhados junto à costa da Líbia, país que é um Estado falido e que é dominado por uma guerra civil desde 2011 —, Carole Rackette já tinha experiência náutica.

Apesar de ter trabalhado em cruzeiros, grande parte da carreira náutica de Carole Rackette foi dedicada à causa da conservação das espécies marítimas. Segundo o El País, trabalhou para o instituto oceanográfico alemão Alfre Wegener, enre 2011 e 2013.  Depois, foi segunda oficial de bordo do Arctic Sunrise, da Greenpeace, até 2016. Desde esse ano que trabalha com a ONG Sea-Watch.

Em entrevista ao La Repubblica, concedida a 24 de junho, Carole Rackette disse que estava disposta a assumir responsabilidades pelo resgate de migrantes “desde o início desta história”. Em Itália, foi aprovada uma lei que multa entre 10 a 50 mil dólares as ONG que levem até às águas territoriais daquele país migrantes. Além disso, os comandantes ou oficiais dos navios que o fizerem podem ser condenados até 15 anos de prisão.

Ao La Repubblica, quando lhe perguntaram o que diria a Matteo Salvini — que disse que Carole Rackette é uma “menina mimada” e que a mandou “ajudar as crianças na Alemanha!” —caso pudesse falar com ele, a alemã de 31 anos respondeu: “Diria que a importância da vida humana é uma valor que herdámos dos grandes pensadores gregos e romanos e não deve ser utilizada nos seus jogos políticos”.