No sector do vinho todos conhecem o nome Robert Parker, famoso crítico de vinhos que fundou a publicação The Wine Advocate (a primeira edição remonta ao final da década de 1970) que impactou fortemente a indústria, tanto que a expressão “parkerização dos vinhos” se popularizou — diz respeito à ideia de que produtores terão “desenhado” vinhos a pensar nos gostos de Robert Parker para, dessa forma, serem bem pontuados.

O norte-americano — o mesmo que a Decanter assegura ser “indiscutivelmente o crítico de vinhos mais influente da história” — anunciou a reforma há cerca de dois meses. À frente dos destinos da publicação que criou está, desde 2013, Lisa Perrotti-Brown, com quem o Observador falou à margem da wine summit Must – Fermenting Ideas, que aconteceu entre 26 e 28 de junho no Centro de Congressos do Estoril.

Em entrevista ao Observador, Lisa Perrotti-Brown, editora-excutiva da Robert Parker Wine Advocate e do site RobertParker.com, comenta gostos pessoais, explica como as pontuações atribuídas aos vinhos não são tudo, fala de Robert Parker — do homem e do crítico de vinhos –, e de como ao início custou ser mulher num “clube só para rapazes”.

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Durante a sua intervenção na Must — Fermenting Ideas falou de como, um dia, teve uma epifania e apercebeu-se que gostava de vinho. É verdade que descobriu o vinho quando, ainda estudante, trabalhava num wine bar na zona de Pimlico, em Londres?
A descoberta do vinho aconteceu definitivamente no wine bar. [risos] Acho que durante algum tempo limitamo-nos a apreciar o vinho num determinado nível: é delicioso, tem álcool, é refrescante, tudo isso… Mas, de repente, há um vinho que realmente nos mostra uma imagem de quando foi feito, de quem o fez, a vinha de onde veio… De repente, a luz acende-se e percebemos qual é o verdadeiro propósito do vinho. Não consigo dizer que tenha sido um vinho em particular, mas diria que, talvez, fui primeiramente atraída para os vinhos de Bordéus. Lembro-me de ter uma experiência incrível com uma garrafa de 1989 de Château Palmer, o vinho tinha envelhecido, era tão rico e sedutor… pareceu-me inigualável. Foi essa individualidade que me fez pensar “uau”.

Que idade tinha quando experimentou esse vinho?
Devia ter 22 anos. Talvez 23.

Provou o vinho no wine bar onde trabalhava?
Sim, foi nesse wine bar. Não fui eu quem comprou a garrafa. Naturalmente não conseguiria pagá-la, mas um dos nossos clientes comprou-a e ofereceu-me um copo.

Depois de Londres, vai de armas e bagagens para Tóquio em 2002. Quão importante é esta mudança?
Em primeiro lugar, tenho de explicar que mudei-me para Tóquio por causa do trabalho do meu marido, ele é banqueiro. Na altura eu tinha um trabalho maravilhoso em Londres, em vendas e em marketing. Tive de deixar esse trabalho, o que foi horrível porque o adorava. Lembro-me de pensar “O que é que vou fazer em Tóquio? Nem falo japonês”. Nunca tinha ido ao Japão, não tinha qualquer ideia do que esperar. Fui e — boom! –… tudo acabou por fazer sentido. Rapidamente conheci pessoas, comecei a dar aulas de vinho, conheci um importador de vinho e comecei a trabalhar para ele. E, de todos os lugares no mundo em que poderia ter conhecido [o crítico] Robert Parker, conheci-o em Tóquio, quando estava lá a trabalhar. Foi uma oportunidade incrível. Foi como se tudo de bom tivesse acontecido na minha vida por acidente. [risos]

Na altura já sabia quem era Robert Parker? Lembra-se do momento específico em que o conheceu?
Lembro-me.

Estava nervosa?
Claro que estava. Conheci muitos dos grandes jornalistas britânicos, como Jancis Robinson e Hugh Johnson, e sabia como é que eles eram. Eles conseguiam ser um pouco… snobes. [risos] Por isso mesmo imaginei que o Robert Parker, sendo norte-americano, seria como os grandes jornalistas britânicos em esteróides, que seria ainda pior. Depois conheci-o e ele foi tão simpático, tão humilde, tão gracioso e muito terra a terra. Demo-nos logo bem. Ambos somos pessoas muito descontraídas.

Depois de Tóquio segue-se Singapura…
Quando me mudei para Singapura tinha acabado de obter o meu Master of Wine [em 2008] e Robert Parker tinha acabado de me contratar para trabalhar com ele a tempo inteiro.

Enquanto crítica de vinhos para Robert Parker, que primeiros países lhe calharam na rifa?
Austrália e Nova Zelândia, o que fazia bastante sentido porque estão muito próximos de Singapura — muito mais perto do que os Estados Unidos [atualmente está responsável pelos vinhos de Bordéus, Napa Valley e Sonoma County].

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Foi uma grande transição, de crítica de vinhos desses países para, desde finais de 2012, editora-executiva da publicação The Wine Advocate…
Foi sim.

Há muito que se fala sobre o impacto que Robert Parker deixou na indústria do vinho, ele que muito recentemente anunciou que se ia retirar. A Lisa chamou-lhe, na nota de despedida, “o pai da crítica de vinhos moderna”…
Quando estava a fazer o retrato histórico do que veio antes de Robert Parker [durante a intervenção na wine summit] pudemos ver como eram as notas de prova. Antes de Robert Parker as notas de prova e as pontuações eram muito básicas ou inexistentes. Quando digo que ele é o pai da crítica de vinhos moderna — considerando o quanto estas notas de provas evoluíram — é porque na altura ninguém lia aquelas notas. [Quando Parker surgiu] toda a gente o estava a ler. De repente, os críticos de vinho estavam a ser levados a sério.

A colheita de 1982 dos vinhos de Bordéus catapultou Robert Parker para a fama. Se para muitos este era um ano mau, o crítico de vinhos norte-americano fez rasgados elogios aos respetivos vinhos através do sistema de pontuação que ele próprio criou (o qual permite conferir até 100 pontos aos vinhos). O tempo veio a dar-lhe razão. A sua reputação cresceu de vento em popa e, segundo a Decanter, os subscritores da publicação The Wine Advocate cresceram tanto que Parker deixou a prática legal para se concentrar exclusivamente no universo do vinho. Atualmente, o título tem subscritores em mais de 40 países em todo o mundo. 

Isso mudou por causa da histórica colheita de 82?
Sim, isso foi um momento de viragem para Robert Parker.

Como reage quando lhe falam na “Parkerização dos vinhos”?
Escrevi todo um artigo sobre isso chamado “The big parkerization lie”. Talvez muitas pessoas acreditem [nisso] porque o termo foi dado a um movimento que se refletiu em [determinados] estilos de vinho. As pessoas começaram a acreditar que esse era o efeito de Robert Parker. Acho que isso teve muito que ver com as preferências dos consumidores que mudaram, sendo que Parker validou o gosto das pessoas, disse-lhes “isto é um grande exemplo dos estilos que vocês gostam de beber”. Podemos culpar Parker por isso, por as pessoas quererem pontos altos, mas a verdade é que os consumidores estavam a beber aqueles vinhos e a adorá-los. Eles não continuariam a seguir Robert Parker se não gostassem dos vinhos.

Mas isso reflete a importância de um crítico de vinho…
Sim, definitivamente.

Acha que a crítica de vinho tem de sofrer alterações de maneira a cativar futuras gerações de consumidores
Depende do nível [de apreciação dos consumidores] de que estamos a falar. Quando se fala dos vinhos de topo das melhores vinhas no mundo, que representam verdadeiras expressões de terroir, e que são considerados “arte engarrafada”… não, não podemos mudar o que é o coração e a alma que faz do vinho algo grandioso. Acho que é algo que os consumidores vão perceber. Outra questão tem que ver com o facto dos gostos e das preferências mudarem. Se olharmos para a viragem do século… No início dos anos 1900 toda a gente estava a beber riesling doce e isso era o vinho preferido das pessoas. Agora, tudo mudou, é difícil vender vinho do Porto, é difícil vender vários vinhos fortificados. Os vinhos não deixam de ser maravilhosos…. mas é o que os consumidores querem. Agora, os consumidores querem vinhos secos com algum corpo. Haverá sempre essa perceção do que é que as pessoas querem beber em termos de estilos.

Sobre o sistema de pontuação… quão importante é isto? Qual é o seu futuro?
Penso que temos de convencer os consumidores que por detrás de todas aquelas pontuações há muito mais informação de que não estão a par, que talvez o vendedor não esteja a partilhar com o consumidor. Tem de haver formas mais fáceis de os consumidores acederem a essa informação, mas em primeiro lugar eles têm de querê-la, têm de a pedir. Eles têm de querer perceber que há muito mais informação que os vai servir se procurarem por ela.

O vosso trabalho também é educar o público? Recentemente Eric Asimov, crítico de vinhos do The New York Times, escreveu que é preciso dar mais informação aos consumidores para que estes tenham uma maior perspetiva do vinho e não resumir a crítica à pontuação de vinhos e às notas de prova. Concorda com isso?
Sim e não. Acho que, até certo nível, os nossos consumidores já estão muito educados; quem não está tão educado talvez não corresponda ao tipo de pessoa que subscreve a The Wine Advocate. Por norma, as pessoas que leem as nossas críticas já sabem muito sobre vinho, estão a gastar 100 dólares numa subscrição. Dito isto, acho que alguma informação técnica nas notas de prova é muito importante, ajuda a sustentar um argumento, mas também diz algo aos consumidores — exemplo disso é a referência à percentagem de álcool nos vinhos. Agora os consumidores estão mais conscientes do que nunca do grau alcoólico dos vinhos. Num nível básico, quem comunica vinhos ou escreve sobre vinhos pode educar um pouco as pessoas. Mas neste nosso universo as pessoas já estão muito educadas e o que querem é que provemos milhares de garrafas de vinho e que digamos quais é que devem comprar.

Na sua intervenção, ainda na wine summit, deu exemplos de alguns críticos que associam personalidades ao vinho de maneira a descrevê-los de forma distinta. Gosta dessa ideia?
Um pouco.

Então, qual seria o seu tipo de personalidade preferido?
Tenho gostos muito variados no que diz respeito ao vinho. Há dias em que me apetece vinhos muito bonitos, frescos, perfumados, elegantes, outras vezes quero algo em grande, ousado, muito estruturado. Vario. De momento estou mais virada para o estilo mais leve e perfumado.

É difícil ser-se mulher neste sector?
Talvez no início, quando comecei no sector do vinho no arranque dos anos 1990. Agora nem por isso. Agora há muito mais mulheres. Quando comecei no sector britânico de vinhos na década de 90 era muito um clube só para rapazes (“all boys club”, em inglês).

Foi difícil entrar nesse clube?
Foi. Foi difícil encontrar alguém que olhasse para ti como tendo potencial para ser algo mais do que uma assistente ou uma secretária. Agora é completamente diferente, existem muitas oportunidades para as mulheres.

Considerando que a publicação The Wine Advocate tem tanta influência no sector internacional dos vinhos, é difícil provar que mantêm a vossa integridade profissional?
Acho que não. Continuamos sem aceitar publicidade de qualquer tipo. Mantemo-nos fiéis àquilo que Robert Parker começou. Essa é uma área na qual não mexemos.