No final de março, na segunda corrida do Mundial 2019 de Fórmula 1, Charles Leclerc garantiu a primeira pole position da carreira da prova rainha do automobilismo, tornando-se o segundo mais novo de sempre a fazê-lo, e ficou a dez voltas de agarrar a primeira vitória. Depois de dominar por completo o Grande Prémio do Bahrain, o piloto monegasco foi traído por um problema mecânico no Ferrari já na fase final da corrida e deixou fugir o primeiro lugar para Lewis Hamilton e o segundo para Valtteri Bottas, contentando-se com um pódio.

A mecânica roubou o sonho a Leclerc (e a Mercedes garantiu outra dobradinha)

Passaram três meses e a Ferrari ainda não conseguiu ganhar. A atual temporada tem estado perto de ser um pesadelo para a scuderia italiana, que não só viu Hamilton vencer seis das oito corridas já realizadas como assistiu a Valtteri Bottas garantir a dobradinha da Mercedes na grande maioria dessas etapas. Este fim de semana, na Áustria, Charles Leclerc voltou a ser o mais rápido, como foi no Bahrain há três meses, e recuperou a esperança da Ferrari de ser a primeira equipa a bater a Mercedes na presente temporada. A boa notícia veio acompanhada de outra menos agradável, já que Vettel teve de abandonar a qualificação na terceira ronda devido a um problema no Ferrari e não conseguiu mais do que um 9.º lugar na grelha de partida.

Ora, o fim de semana da Ferrari tornou-se ainda mais promissor quando Hamilton, que fez o segundo tempo mais rápido atrás de Leclerc, foi penalizado depois de um incidente com Kimi Raikkonen e caiu para o quarto lugar da grelha (em teoria, foi castigado em três posições e cairia para quinto, mas beneficiou de uma outra penalização a Kevin Magnussen). Verstappen aproveitava e era segundo, Bottas terceiro e a surpresa era Lando Norris, que ficava logo depois dos dois Mercedes e saía de quinto. A quase 24 horas do arranque, Charles Leclerc era a personificação da confiança e dizia no Instagram que este domingo era tempo de “acabar o trabalho”.

No arranque, o monegasco da Ferrari conseguiu segurar a liderança e viu Verstappen começar muito mal, caindo de segundo para sexto logo na primeira volta. Valtteri Bottas assentou arraiais no segundo lugar, Hamilton procurou começar desde logo a lutar para entrar no pódio e Vettel começou aquela que teria de ser obrigatoriamente uma corrida de recuperação ao longo das dez primeiras posições. O alemão da Ferrari atrasou-se pouco depois das 20 voltas, com a equipa da scuderia italiana a demorar muito a trocar o conjunto de pneus, mas beneficiou de um problema da asa dianteira do Mercedes de Hamilton, que teve de ser trocada e obrigou a uma paragem de mais de 10 segundos nas boxes.

Max Verstappen aproveitou o atraso de Lewis Hamilton — que estava com o ritmo mais baixo dos cinco primeiros, a perder tempo a cada volta — para se colar a Vettel na luta pelo terceiro lugar. A enorme corrida que Charles Leclerc estava a realizar, na liderança do pelotão, e o mais distante segundo lugar de Bottas, permitiam que a luta pela última posição do pódio se tornasse a mais interessante do Grande Prémio da Áustria: Vettel estava muito rápido e Verstappen tinha total autorização por parte da Red Bull para utilizar o DRS e arriscar tudo para ultrapassar o Ferrari. Depois de várias investidas ao longo de três voltas, o jovem holandês acabou por conseguir superar Vettel e entrar no pódio, ouvindo a ovação da tarde por parte da enorme mancha laranja que este domingo coloria as bancadas do circuito austríaco para apoiar o piloto da Red Bull.

A luta entre Verstappen e Vettel permitiu ao holandês ganhar muitos segundos a Bottas e aproximar-se do finlandês da Mercedes, acabando por subir ao segundo lugar — a cinco segundos de Leclerc — com uma manobra surpreendente e enquanto até se queixava de falta de potência no motor. A menos de 15 voltas da meta, Verstappen ouvia “game on” da equipa e ia atrás de Charles Leclerc: o holandês e o monegasco lutaram quase roda a roda nas últimas cinco voltas, numa ponta final de corrida emocionante e onde os adeptos se fizeram ouvir nas bancadas como raramente é possível na Fórmula 1. Verstappen, que saiu mal, coroou uma corrida extraordinária com a ultrapassagem a Charles Leclerc e venceu pela segunda vez consecutiva na Áustria; a Ferrari voltou a desiludir e não conseguiu mais do que o segundo lugar numa prova onde liderou até ao fim; e Valtteri Bottas assegurou o pódio e o menor dos males para a Mercedes.

A Red Bull conseguiu a primeira vitória da temporada, tornou-se a primeira equipa a bater a Mercedes e Lewis Hamilton ficou fora do pódio pela primeira vez em 2019 (terminou em quarto, à frente de Vettel). Numa altura em que a Fórmula 1 é constantemente acusada de monotonia, de aborrecimento e de falta de competitividade, a modalidade rainha do automobilismo responde com o melhor Grande Prémio da temporada, com uma luta pela liderança até à meta e dezenas de trocas de posições entre os cinco primeiros ao longo das 71 voltas.