Entre as muitas antevisões feitas ao Mundial feminino que está a decorrer em França — que, logo à partida, confirmaram que esta é mesmo a competição internacional de futebol feminino mais antecipada de sempre –, existia uma linha de pensamento comum a todos os autores: este Campeonato do Mundo, remates, defesas e golos à parte, seria tremendamente politizado. Desde a ausência de Ada Hegerberg ao processo colocado pela seleção norte-americana à própria Federação, os episódios extra-relvado existiam ainda antes de a bola rolar nos estádios franceses. E continuaram depois da cerimónia de abertura.

Tudo começou com a brasileira Marta, que aproveitou um golo contra a seleção francesa para protestar contra a desigualdade entre homens e mulheres no futebol, e continuou com Megan Rapinoe, que além de estar a ser a grande figura dos Estados Unidos neste Mundial 2019 tem protagonizado uma luta de palavras com Donald Trump. A jogadora de 33 anos, campeã do mundo em 2015 e vice-campeã em 2011, não tem cantado o hino nacional antes dos jogos — numa tomada de ação contra a brutalidade policial e a discriminação nos Estados Unidos mas também diretamente contra a administração Trump — e garantiu que não irá à Casa Branca caso a seleção norte-americana acabe por conquistar o Mundial (ressalvando depois que acha que as jogadoras nem sequer serão convidadas pelo presidente).

A guerra aberta entre Rapinoe e Trump tem merecido muitas reações e esta terça-feira motivou uma das mais importantes. Sue Bird, considerada a melhor jogadora de basquetebol de sempre nos Estados Unidos e namorada de Megan Rapinoe, escreveu um longo texto para o The Players’ Tribune onde o título é bastante explicativo: “Então, o presidente odeia a minha namorada”. Como se tudo isto não fosse suficiente, os últimos dias do Mundial ficaram ainda marcados por um escândalo de aparente espionagem que fez lembrar autênticos filmes de Hollywood.

Na antecâmara da meia-final entre Inglaterra e Estados Unidos, os seguranças da seleção inglesa encontraram elementos da comitiva norte-americana, vestidos à civil, no hotel de Lyon onde a equipa de Inglaterra está hospedada. “Não é algo que eu gostaria de ver a minha estrutura a fazer. Espero que tenham gostado do nosso hotel. Não é algo que nós faríamos, enviar alguém para lá, mas isso é problema deles”, disse Phil Neville, o selecionador inglês. Em reação, a selecionadora dos Estados Unidos Jill Ellis garantiu que os dois membros da equipa estavam a sondar o hotel como hipótese para a seleção norte-americana ficar em caso de apuramento para a final.

Phil Neville, antigo jogador do Manchester United e atual selecionador inglês, criticou a presença de elementos norte-americanos no hotel de Inglaterra

Era dentro deste ambiente que Inglaterra e Estados Unidos se encontravam esta terça-feira na primeira meia-final do Mundial 2019. Uma hora antes do apito inicial, surgia mais um fator que tornava esta eliminatória (ainda mais) atípica: Megan Rapinoe, a mesma Megan Rapinoe que tem sido essencial para as vitórias da seleção norte-americana e a grande figura mediática deste Mundial, estava fora do onze inicial dos Estados Unidos. Encarada numa primeira fase como opção técnica e tática de Jill Ellis, a ausência da avançada deve estar relacionada com uma lesão, já que Rapinoe nem sequer realizou os habituais exercícios de aquecimento antes do jogo.

Com um arranque quase demolidor, a seleção norte-americana colocou-se em vantagem logo aos dez minutos, através de um cabeceamento de Christen Press, que ganhou a titularidade face à ausência de Rapinoe. Os Estados Unidos dominaram por completo o primeiro quarto de hora da partida, não permitindo que a seleção inglesa chegasse ao último terço do relvado, e controlaram o meio-campo e os eventuais espaços onde a equipa adversária se poderia lançar em jogadas rápidas de transição. Inglaterra, contudo, chegou ao empate no primeiro lance de perigo que conseguiu criar, graças a um grande cruzamento de Mead na esquerda que Ellen White aproveitou para bater Naeher de cabeça (19′).

A seleção norte-americana teve alguma dificuldade para voltar a tomar a dianteira da partida, face à confiança que Inglaterra ganhou com o golo do empate, mas conseguiu recuperar a vantagem no marcador ao passar da meia-hora: Press recebeu com o peito junto à linha, encontrou Lindsey Horan com espaço e a jogadora dos Portland Thorns cruzou para a área, onde Alex Morgan apareceu ao primeiro poste a desviar para o segundo dos Estados Unidos. Morgan, que era esta terça-feira capitã de equipa face às ausências de Rapinoe e Carli Lloyd, fazia o sexto golo no Mundial no dia em que celebra o 30.º aniversário.

Já na segunda parte, a seleção inglesa conseguiu chegar novamente ao empate e novamente por intermédio de Ellen White, que aproveitou uma enorme assistência de Jill Scott para bater Naeher pela segunda vez. A explosão de alegria de Inglaterra foi rapidamente substituída pela sensação de desilusão, já que o VAR anulou o golo por fora de jogo da avançada do Birmingham. O VAR voltou a entrar em ação mesmo em cima dos 80 minutos, ao chamar a árbitra da partida para analisar melhor um lance entre White e Sauerbrunn no interior da grande área norte-americana: grande penalidade, enorme ocasião para Inglaterra empatar o jogo, remate fraco da capitã Houghton e defesa de Naeher. O penálti acabou por tornar-se o canto do cisne da seleção inglesa, que não recuperou o discernimento até ao apito final e ainda viu Millie Bright ver o segundo cartão amarelo e ser expulsa depois de uma entrada muito perigosa sobre Alex Morgan.

Os Estados Unidos venceram Inglaterra por 2-1 numa final marcada por política, uma luta de palavras, um escândalo de espionagem e muito VAR. Tudo isto à parte, a seleção norte-americana garantiu o passaporte para a terceira final de um Mundial consecutiva (perdeu a de 2011, ganhou a de 2015) e vai à procura da revalidação do título já este domingo.