Depois de os Estados Unidos vencerem Inglaterra na primeira meia-final do Mundial de futebol feminino, num jogo inequivocamente marcado pela intervenção do VAR, era tempo de Holanda e Suécia discutirem e disputarem a segunda e última vaga na final do próximo domingo. De um lado, estava a atual campeã da Europa; do outro, estava uma seleção sueca que surpreendeu ao eliminar a Alemanha de forma clara nos quartos de final.

A segunda meia-final do Mundial que está a decorrer em França foi durante toda a semana empurrada para uma segunda linha de importância — não só face aos acontecimentos com Megan Rapinoe e ao escândalo de espionagem que colocou a seleção dos Estados Unidos sob fogo mas principalmente devido ao facto de a primeira meia-final, entre norte-americanas e inglesas, ser uma autêntica final antecipada. A seleção vencedora desse primeiro encontro, que acabou por ser a dos Estados Unidos, foi nos últimos dias encarada desde já como vencedora do Campeonato do Mundo. Algo que, de forma injusta e pouco refletida, não faz jus à qualidade e ao potencial das seleções da Holanda e da Suécia.

A Holanda, por um lado, não é somente a atual campeã da Europa como também tem diversas jogadoras normalmente titulares a atuar nas principais ligas europeias: à cabeça, van Veenendaal, Bloodworth, van de Donk e Miedema, todas do Arsenal, van de Sanden, do tetracampeão europeu Lyon, e ainda Mertens e van der Gragt, ambas do vice-campeão europeu Barcelona. Do outro lado, a Suécia, que tem perdido espaço e relevância nos últimos anos mas que tem no palmarés um Campeonato da Europa (1984), três presenças em meias-finais de Europeus (1989, 1997, 2013) e ainda uma presença na final de um Mundial (2003, perdida para a Alemanha) — e é comandada dentro de campo pela enorme experiência e qualidade de Caroline Seger, Magdalena Eriksson e Sofia Jakobsson.

Ainda assim, e ao contrário do que aconteceu na meia-final entre Estados Unidos e Inglaterra, o jogo entre a Holanda e a Suécia começou a meio gás, numa luta entre o superior esclarecimento tático e técnico das holandesas e a inequívoca força e vontade das suecas. A primeira parte terminou algo amarrada, com as duas equipas a demonstrarem algum receio em arriscar e procurar terrenos mais avançados — contudo, acabou por ser a Suécia a mostrar sempre mais ímpeto e rebeldia, a construir a partir de trás e a ficar perto de inaugurar o marcador. A única ocasião de perigo apareceu já aos 37 minutos, no seguimento de um canto, quando a guarda-redes van Veenendaal defendeu com o pé um remate rasteiro de Hurtig. De forma algo surpreendente, a seleção sueca ia conseguindo anular as individualidades de Mertens e Miedema e eram Jakobsson e Asllani, com exibições acima da média, que se iam tornando figuras de proa.

Asllani, jogadora do PSG, foi a melhor em campo do lado da Suécia

No início da segunda parte, quando se adivinhava a entrada da veloz van de Sanden — que, de forma surpreendente, ficou fora do onze inicial da Holanda –, a selecionadora Sarina Wiegman optou por lançar Roord para o lugar de Mertens, que completou um primeiro tempo muito apagado. O intervalo trouxe um jogo algo mais aberto, com mais espaço para a criatividade das jogadoras mais empreendedoras e construtivas: o desfazer do nó que ia atou o meio-campo durante a primeira parte abriu caminho para uma oportunidade para cada lado, com Fischer a acertar no poste da baliza da Holanda e Miedema a cabecear à trave da baliza da Suécia.

A entrada de van de Sanden, tida como a solução óbvia para o défice ofensivo holandês, só apareceu aos 71 minutos — mas foi muito a tempo de fazer estragos. A avançada do Lyon entrou numa altura em que a Holanda ganhava metros e ascendente na partida e esteve muito perto de inaugurar o marcador, já durante o tempo extra, mas viu Lindahl fazer mais uma grande defesa e manter o nulo na partida. No fim de 90 minutos mais cinco, mantinha-se o 0-0 e ia tudo para prolongamento.

A Holanda levou para o prolongamento a superioridade que tinha trazido da segunda parte e acabou por conseguir chegar à vantagem com um grande remate rasteiro de Groenen, jogadora do Manchester United, que atirou de fora de área e muito puxado ao poste, tornando impossível para Lindahl chegar à bola (99′). A seleção holandesa soube gerir a vantagem durante a segunda parte do prolongamento e acabou por garantir a presença na final do próximo domingo (16h), frente aos Estados Unidos, onde vai tentar juntar o título mundial ao europeu. Para isso, terá de jogar, construir e criar muito mais: e ser muito melhor do que a equipa que esta quarta-feira foi inferior à Suécia (que regressa a casa com a sensação de que poderia ter conseguido mais) na primeira parte e esteve muito perto de ficar pelo caminho.