Título: O Livro Branco
Autor: Han Kang
Editora: Dom Quixote
Páginas: 149
Preço: 13,90€

O último livro da sul-coreana Han Kang foi editado em junho. A tradução foi feita do inglês por Maria do Carmo Figueira

Quando o segundo livro de Han Kang foi publicado em inglês pela Portobello Books, a escritora sul-coreana era uma perfeita desconhecida deste lado do mundo. Tudo mudou quando, em 2016, quase dez anos depois de ter saído na Coreia do Sul, o romance A Vegetariana venceu o Man Booker International Prize, o importante prémio de tradução para a língua inglesa. Aclamado pela crítica, o livro sobre uma mulher que decide deixar de comer carne tornou-se num bestseller internacional. Em junho de 2016, um mês depois do anúncio do Booker, a revista Time colocou-o entre os títulos mais vendidos desse ano.

O sucesso de A Vegetariana contagiou o romance seguinte de Kang, Atos Humanos, sobre a revolta de estudantes de 1980 na Coreia do Sul. O livro foi considerado um dos melhores de 2017 por várias publicações e nomeado para alguns prémios literários, incluindo o International Dublin Literary Award, mas não para o Booker. Isso só voltou a acontecer no ano seguinte, quando a sul-coreana lançou O Livro Branco, um estranho volume, de registo confessional, que se aproxima mais do ensaio do que da ficção, uma novidade na bibliografia de Kang. Recentemente publicado em Portugal pela Dom Quixote, foi, tal como os seus predecessores, fortemente (e neste caso exageradamente) elogiado pela crítica internacional. A norte-americana New York Times Book Review considerou-o “formalmente ousado” e “emocionalmente devastador”, enquanto o britânico The Guardian lhe chamou “uma psicogeografia brilhante do luto” e um “texto misterioso”.

Misterioso é capaz de ser pouco. Independentemente da opinião dos críticos em relação a O Livro Branco, há uma coisa em que todos parecem estar de acordo — é praticamente impossível encontrar uma definição que se ajuste à obra mais recente de Han Kang. Não é bem uma autobiografia (apesar de uma parte do texto ter sido escrito na primeira pessoa), mas também não é uma dissertação, apesar de o luto e a morte serem temas transversais a toda a (pequena) obra. É uma espécie de não-ficção ficcionada — se é que tal pode existir —, escrita à maneira de um livro de orações ou de pensamentos que foi todo pintado de branco. E o branco, que dá cor ao título e à capa, não é apenas conceptual — desempenha um papel central no livro, onde se fala de tudo o que é branco, sobretudo de arroz. O arroz que alimenta, que é cor de pele e símbolo do sofrimento da narradora, capaz de descobrir toda a tristeza, sua e do mundo, encolhida dentro de um pequeno bago de arroz, num movimento exagerado que se parece repetir eternamente ao longo das 149 páginas da edição portuguesa.

Mas vamos à história. Ou melhor, à sequência de ideias apresentada pela escritora ao longo de pouco mais de 100 páginas onde parece faltar um fio condutor. Tudo começa com uma lista de coisas brancas e a viagem de Han Kang para uma cidade estrangeira. O seu nome nunca é referido, mas sabe-se que fica num país da Europa que conheceu a destruição durante a Segunda Guerra Mundial. Instalada num apartamento, com uma porta pintada de branco por ela própria, Kang começa a contar a história da sua irmã mais velha, que morreu nos braços da mãe apenas duas horas depois de ter nascido. É esta irmã que toma depois conta do livro, transformando-se na personagem principal que existiria se não tivesse morrido e se Kang nunca tivesse nascido. Isto ocorre a partir da segunda parte — “Ela” —, quando a narração muda inesperadamente da primeira pessoa para a terceira do singular.

Deambulando pela cidade, esta irmã-personagem vai refletindo sobre a vida e sobre a morte. Num dos vários curtos capítulos (que fazem sempre menção a um objeto de cor branca talvez para testar a tolerância do leitor), anda à procura de arroz glutinoso para cozer para o jantar, uma tarefa difícil no sítio onde se encontra. Sem encontrar o que pretende, acaba por levar para casa um pacote de arroz espanhol, que coze e que deita para uma taça cuja cor não é referida mas que seria, muito certamente, branco. “Passado algum tempo, o vapor branco ergue-se da taça de arroz acabado de cozer, e ela senta-se à sua frente como se estivesse a rezar”, descreve a narradora. “Não pode negar que, nesse momento, sente alguma coisa dentro de si. É impossível negá-lo.” Fica ao critério do leitor decidir o quê — nesta e noutras passagens quase crípticas, que soam bem mas que não dizem grande coisa.

Nos últimos capítulos, e depois da narradora quase chorar a olhar para o arroz, a história regressa ao início — a morte prematura da irmã mais velha da autora. Repetindo as palavras ditas pela mãe enquanto segurava a recém-nascida nos braços — “Não morras” —, a narradora, num capítulo em que resume toda a brancura, parece finalmente reunir as forças necessárias para seguir em frente e deixar para trás a dor que a atormenta, talvez motivada pela morte da mãe, a que se refere no livro. “Dentro desse branco, de todas essas coisas brancas, sorverei o último sopro de ar que exalaste”, declara, depois de enumerar mais um punhado de objetos brancos, em que se contam as couves e as bétulas, não vá o leitor ter-se esquecido que O Livro Branco fala sobre muitas coisas brancas e que o branco é um símbolo do luto, uma ideia repetida em praticamente todos os parágrafos.

É difícil dizer a onde é que Han Kang quis chegar com este O Livro Branco. Uma autobiografia, uma biografia inventada, um livro de pensamentos e uma dissertação sobre o branco, a morte, o luto e o arroz — a obra é tudo isto, sem ser nada em concreto. A tristeza parece por vezes demasiado forçada, os pormenores exagerados e as profundas e introspetivas passagens nulas de qualquer significado, como se tivessem sido tiradas de um livro de auto-ajuda de quinta categoria. O formato, reduzido e com capítulos curtos, não chega para haver história e, apesar de poder fazer lembrar um livro de orações em certas passagens, não é espiritual o suficiente para ser inspirador. Isso não quer dizer, contudo, que não é possível encontrar um sentido nas palavras de Kang. Os livros são, em grande medida, aquilo que os leitores fazem deles, e isso é uma das coisas maravilhosas da literatura.