Rui Rio sem maquilhagem ou em versão “Alta Definição”, como notou um dos jovens presentes na sala. Foi assim que o líder do PSD se apresentou esta terça-feira à noite num evento da JSD em Lisboa, respondendo a 45 perguntas sobre a sua vida pessoal e profissional — sem recusar nenhuma. Prato preferido? “Lampreia à bordalesa”. O maior sonho? “Ganhar o euromilhões”. Coca-cola ou Pesi? “Nenhuma, só água com PH acima de 7, depois vinho bom, e depois cerveja”. Plano de férias? “Que me deixem em paz”. Guilty pleasure? “Açúcar, e tudo o que for doce”. Arrependimentos? “Não me lembro de nenhum que seja importante”. Só faltou mesmo a pergunta “o que dizem os seus olhos?”.

Foi neste registo que o líder do PSD esteve cerca de duas horas ao lado da líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes, a matar a curiosidade dos jovens do seu partido no dia em que revelou a primeira ponta do véu daquilo que vai ser o programa eleitoral do partido para as legislativas de outubro. Curiosamente, uma das questões da audiência era sobre o facto de, em 1986, Rui Rio ter apoiado a candidatura de Mário Soares à Presidência da República em vez da candidatura de Freitas do Amaral: “Foi por gostar muito de Mário Soares ou por não gostar nada de Freitas do Amaral?”, questionou o interlocutor. “Apoiei o dr. Mário Soares nas duas voltas, sim. Mas aí, não era exatamente a favor de Mário Soares nem contra Freitas do Amaral. A sociedade portuguesa vivia uma clivagem muito grande entre esquerda e direita e eu, naquela altura, preferia francamente o lado da esquerda moderada do que da direita moderada”, disse em jeito de confirmação à pergunta.

Já sobre qual o líder do PSD que mais admirava, sem contar com Francisco Sá Carneiro, Rui Rio teve de escolher Cavaco Silva pelo “inegável trabalho desenvolvido na governação do país”, mas insistiu na “admiração imensa” e nas semelhanças em “termos pessoais” pelo fundador do PPD/PSD.

Poucas foram as perguntas sobre política económica, mas a dada altura Rui Rio levantaria uma ponta do véu sobre as medidas de redução da carga fiscal que vai propor no programa eleitoral (e que vai anunciar na próxima sexta-feira), defendendo uma redução do IRC para taxas que tornem o país competitivo em relação a países concorrentes, porque, disse, a fiscalidade das empresas “é vital para a captação de investimento”, mas recusou uma descida para níveis de 10% — “isso é incomportável”.

Questionado sobre o segredo para combater a abstenção, Rui Rio voltou a defender a ideia de contabilização dos votos em branco em cadeiras vazias, criticando os comentadores que o trataram como se fosse “tonto e não percebesse nada disto”. Sublinhando que há uma grande “descrença nos partidos e nas instituições porque funcionam da mesma maneira que funcionavam nos anos 60 ou 70”, Rio defendeu que, se os círculos eleitorais forem mais pequenos, as pessoas conhecem melhor os deputados que elegem, e se os votos brancos se traduzirem na eleição proporcional de menos deputados em cada círculo, então o voto de protesto traduz-se no voto branco e não na abstenção.

“Se um círculo tiver um máximo de 12 deputados, e se os votos brancos forem superiores a 5% então esse círculo só elege 11 deputados, e se os brancos forem mais de 10% só elege 9, e assim sucessivamente”, explicou. Ou seja, “dar importância aos votos brancos para que as pessoas não fiquem em casa é uma forma de contribuir para diminuir a abstenção”. Mais: não se mostrou simpatizante da ideia do voto obrigatório nem da abertura do partido a primárias de forma sistemática, mas sim de forma esporádica. “Podia haver primárias de x em x anos, para abrir o partido, fazer respirar, e com isso também tentar atrair mais militantes”, disse.

Pouco houve de críticas ao Governo, mas Rio enumerou as duas áreas onde acha que o governo mais está a falhar. “A área em que o Governo mais tem falhado são os serviços públicos”, disse, com a ressalva de que esta é a resposta que escolhe por ser a resposta mais facilmente entendida pelos portugueses. Mas se não fosse por isso, escolhia outra: a “ausência de uma estratégia de crescimento económico sustentado”, porque é isso que vai determinar “o nosso futuro coletivo”.

Entre um total de 45 perguntas, contudo, foram mais as perguntas direcionadas à vida pessoal do líder do partido que agora se candidata a primeiro-ministro do que as perguntas relacionadas com opções políticas. Eis um apanhado das principais:

Que livros um jovens político deve ler?
Resposta: os três livros escritos por Rui Rio ou sobre Rui Rio (incluindo Raízes de Aço, e Rui Rio – De Corpo Inteiro, de Mário Jorge Carvalho)

Em que altura do dia é mais produtivo?
Entre as 19h e as 21h. “Sou menos produtivo de manhã, acelero pelas 16h e atinjo pico pelas 21h, depois desacelero”.

Maior qualidade e maior defeito?
A qualidade pode ser um defeito: “a excessiva inclinação para o rigor é uma virtude, mas sendo em demasia pode ser um defeito porque acaba por me prender, e posso perder alguma criatividade em algumas coisas”.

Prato preferido?
Lampreia à bordalesa.

Qual o dia mais feliz da sua vida?
Não foi o dia em que a filha nasceu, que seria a resposta óbvia, porque o dia do nascimento de um filho é um misto de emoções: muita felicidade e muitas dúvidas. “Será que ela vai conseguir ser feliz?” Por isso Rio elege outro momento: “O dia em que acabei o curso e vi a última nota, foi um alívio muito grande”.

Hobbies: bateria ou carros clássicos?
Escolha vai para os carros clássicos porque não toca bateria “tantas vezes quanto isso” e tocar bateria durante muito tempo “faz doer as costas”.

Qual foi a última foto que tirou com o telemóvel?
Foto da filha a apagar as velas no último dia 22 de junho, dia em que fez 18 anos.

Qual o presente que recebeu que teve mais significado?
Uns binóculos oferecidos pela mãe quando acabou o curso — “porque seu que a minha mãe fez um grande esforço para mos oferecer”.

Qual o seu guilty pleasure?
Tudo o que tenha açúcar.

O que o motiva para acordar todas as manhãs?
“O procurar ser útil à sociedade do ponto de vista do serviço público”. Rui Rio diz que tem uma vida dividida entre o serviço público, na política, e a sua profissão no privado, mas não tem dúvidas de que sente maior motivação para servir o público do que os interesses privados. “Troco um salário mais alto privado por um salário mais baixo no público porque me sinto mais motivado”, disse.

Plano para as férias?
“Que me deixem em paz”. Rui Rio contou como decidiu ir ao Brasil no 10 de junho e aproveitar o feriado lisboeta do Santo António, dia 12, para prolongar a estadia, mas isso foi visto como um “desaparecimento” do líder do PSD, ainda que só tenha estado fora “três dias úteis”. “Três dias aparentemente são uma eternidade, por isso conto estar de férias só duas ou três eternidades”, brincou. De resto, conta estar na sua casa de férias em Ponte de Lima, a andar de bicicleta ou a correr. No fundo, “a ver se não me aborrecem muito”.

Algo que nunca contou publicamente?
“Pode ser quantas namoradas tive?” Pode. “Nunca as contei, mas umas três ou quatro”, disse entre risos. Mas Maló Abreu e Pedro Pinto, na sala, não esconderam os risos, o que fez Rui Rio acrescentar: “a sério, a sério, foram três ou quatro”.

Quando for primeiro-ministro qual vai ser a primeira decisão a tomar?
Nomear os secretários de Estado. Fácil.