Os EUA impediram na quarta-feira a aprovação pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma condenação unânime de um ataque mortífero na terça-feira a um campo de detenção de migrantes.

A informação foi avançada por fontes diplomáticas e resultou de uma reunião que durou duas horas.

Não foi avançada qualquer explicação pela representação norte-americana sobre as razões do veto dos EUA deste projeto de texto apresentado pelo Reino Unido, que também defendia a um cessar-fogo e o regresso a um processo político.

Uma fonte diplomática europeia avançou que não tinha vindo qualquer orientação de Washington para a aprovação da declaração.

Pelo menos 44 migrantes foram mortos e uma centena feridos durante um bombardeamento aéreo conta o seu centro de detenção na Líbia, na terça-feira, o que suscitou na quarta-feira um coro de condenações internacional e apelos a um inquérito independente.

O ataque feito na tarde de terça-feira a Tajoura, no sul da capital, foi atribuído pelo governo baseado em Tripoli às forças rivais, chefiadas por Khalifa Haftar, que estão a fazer uma ofensiva sobre a capital de um país que mergulhou no caos a partir de 2011.

Mas o porta-voz das forças de Haftar, Ahmad al-Mesmari, desmentiu qualquer envolvimento no ataque, acusando, por sua vez, o governo de Tripoli de “fomentar um complot” para lhe atribuir a responsabilidade do ataque.

Durante a reunião do Conselho de Segurança, convocada pelo Peru, que assegura a Presidência rotativa em julho, todos os participantes condenaram oralmente o ataque, segundo um diplomata que se exprimiu sob anonimato. Todos sublinharam a necessidade de um cessar-fogo e de um regresso a um diálogo político, acrescentou.

Sem acusar qualquer parte, o projeto de texto britânico retomou o conjunto destes argumentos e sublinhou a profunda preocupação do Conselho perante a agravação da situação humanitária na Líbia, reclamando também aos Estados membros da ONU o respeito total pelo embargo de armas decretado em 2011.

Esta não foi a primeira vez que o Conselho de Segurança se revela incapaz de assumir uma posição comum depois da ofensiva em abril do marechal Khalifa Haftar para conquistar Tripoli, onde está baseado o governo de união nacional de Fayez al-Sarraj.

Desde meados de abril e de uma chamada telefónica entre Donald Trump e Khalifa Haftar, um projeto de resolução britânico reclamando um cessar-fogo tem ficado sem desenvolvimento na mesa do Conselho de Segurança.

Vários diplomatas acentuam que “os EUA não querem uma resolução” que critique a ofensiva de Haftar.

Em abril, o enviado da ONU para a Líbia, Ghassan Salamé, denunciou vivamente a incapacidade da comunidade internacional de adotar uma posição comum sobre a Líbia.

Haftar é apoiado pelo Egito e pelos Emirados Árabes Unidos e o governo de união nacional pela Turquia.

A ONU estima que os centros de detenção líbios contam cerca de 5.700 refugiados e migrantes, dos quais 3.800 estão em posição de vulnerabilidade face aos combates.

Em 2019, mais de três mil refugiados e migrantes intercetados no mar foram reconduzidos à Líbia, quando ninguém pode garantir que este é um “país seguro”, declarou um dirigente da ONU aos Estados membros do Conselho de Segurança, criticando implicitamente estas reconduções forçadas, segundo outro diplomata sob anonimato.