É impossível que o ministro nunca tenha falado com o primeiro-ministro e que o primeiro-ministro também não tenha perguntado nada sobre Tancos, que não tenham falado sobre uma matéria com essa sensibilidade”, considera Berta Cabral, deputada do PSD, em declarações à Rádio Observador.

Temos de confirmar, mas não podemos deixar de achar estranho que o primeiro-ministro não tenha conhecimento disso ao longo de um ano — não foi um dia nem dois”, sublinha a deputada, referindo-se ao período entre o aparecimento das armas e a demissão do então ministro da Defesa, em outubro do ano passado.

A constituição de Azeredo Lopes como arguido no caso de Tancos fez o PSD recuperar o argumento que Rui Rio já tinha usado. Na altura, o líder do partido referiu que “não é muito normal” que Azeredo Lopes não tivesse informado António Costa.

Berta Cabral entende que constituição de Azeredo Lopes como arguido dá razão ao PSD

O Ministério Público constituiu o ex-Ministro da Defesa como alegado co-autor dos crimes de denegação de justiça e de prevaricação. Azeredo Lopes torna-se no vigésimo terceiro arguido no caso do chamado ’achamento’ do material militar. O ex-ministro reagiu a notícia, dizendo ser “absolutamente inexplicável”. “Nada fiz de ilegal ou incorreto”, garante o antigo ministro, que se demitiu depois de o diretor da Polícia Judiciária Militar ter garantido que Azeredo Lopes teve mesmo conhecimento da encenação feita para que as armas roubadas em Tancos aparecessem na Chamusca.

Berta Cabral, que fez parte da comissão parlamentar de inquérito a Tancos, diz ao Observador que a notícia só confirma as dúvidas manifestadas pelo PSD: “É óbvio que há consequências políticas, e tanto há que essas consequências foram tiradas com a demissão do ministro e, de alguma forma, também com a demissão do ex-chefe do Estado Maior do Exército”, Rovisco Duarte.

O antigo responsável do Exército demitiu-se dois dias depois da tomada de posse do novo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, alegando “circunstâncias políticas”.

Berta Cabral, deputada do PSD, acha estranho que António Costa não saiba

Já o deputado Telmo Correia, do CDS, ouvido pelos jornalistas no Parlamento, considera que os partidos que sustentam o governo fizeram uma “operação de branqueamento” na comissão de inquérito a Tancos. “Não deixa de ser estranho que podendo haver responsabilidades criminais, a maioria tenha, depois de ter visto, revisto e censurado aquilo que aconteceu na comissão de inquérito, a maioria tenha concluído que não há sequer responsabilidades políticas”, diz o deputado do CDS.

No PS, o presidente da comissão parlamentar de inquérito ao caso de Tancos, Filipe Neto Brandão garantiu à Agência Lusa que a notícia não põe em causa os trabalhos da comissão e recorda que o relatório final concluiu que não houve responsabilidades políticas da parte do antigo ministro da Defesa.

Azeredo Lopes proibido de contactar Rovisto Duarte e ex-chefe de gabinete

O ex-ministro da Defesa está proibido pelo juiz de contactar com os outros arguidos do caso do furto em Tancos, mas também com o seu ex-chefe de gabinete (general Martins Pereira), com o antigo chefe de Estado Maior do Exército (CEME) (general Rovisco Duarte) e ainda com o ex-chefe de gabinete do CEME, segundo a agência Lusa, que cita fonte ligada ao processo.

O furto de material de guerra foi divulgado pelo Exército em 29 de junho de 2017 e a 18 de outubro do mesmo ano a Polícia Judiciária Militar (PJM) revelou o aparecimento do material furtado, na região da Chamusca, a 20 quilómetros de Tancos, em colaboração com elementos do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé. Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.

O processo de recuperação do material militar levou a uma investigação judicial em que foram detidos o agora ex-diretor da PJM Luís Vieira e o ex-porta-voz da PJM Vasco Brazão.

O processo-crime sobre Tancos tem na base suspeitas de associação criminosa, tráfico de armas e terrorismo no furto do armamento, tendo a PJ detido, a 25 de setembro de 2018, nove pessoas, das quais oito militares do exército e da GNR.