Todos os cálculos por detrás do Valkyrie, hiperdesportivo que vai começar a ser entregue aos seus clientes ainda em 2019, parecem estar correctos. Todos, menos um – e esse vai impedir a entrada de vários milhões na conta da Aston Martin. Elegante e agressivo, como é de esperar num veículo com estas características, o mais possante dos modelos da marca acertou na mouche no capítulo da aerodinâmica, ou não fosse ele obra de Adrian Newey, o mago que já provou a sua mestria ao desenhar os McLaren e Red Bull de F1 que dominaram a modalidade durante anos.

A prova está no facto de o Valkyrie praticamente não necessitar de asas proeminentes para estar colado ao solo, tudo porque toda a zona inferior do chassi está desenhada como se tratasse de um perfil de asa invertido, o que lhe vai permitir atingir velocidades mais elevadas.

Outro aspecto em que a estratégia parece ter sido perfeita foi na opção mecânica, com a Aston Martin a recorrer à Cosworth para a concepção daquilo que parece um motor de competição, capaz de ser instalado num carro homologado para circular em estrada. Com 6,5 litros de capacidade e 12 cilindros em V, o motor tem tudo para deliciar mesmo os mais exigentes, para depois o facto de conseguir girar até às 11.000 rpm lhe assegurar a desejada potência, apesar de se tratar de uma unidade atmosférica.

E porque, nos dias que correm, nem mesmo um hiperdesportivo se pode dar ao luxo de virar as costas às novas tecnologias, a Aston Martin e a Red Bull voltaram a acertar quando apostaram numa solução híbrida para reforçar os argumentos do Valkyrie. A opção foi encomendar à Rimac a concepção de um sistema tipo Kers, similar ao utilizado pelos F1, que ajudasse a elevar a potência do motor de combustão, colocando-o na fasquia do milhar de cavalos.

Onde a Aston Martin errou foi na avaliação do potencial do mercado para este tipo de modelos. Numa entrevista aos australianos da Carsales, o CEO do construtor, Andy Palmer, admitiu que andaram um pouco perdidos a tentar imaginar quantos Valkyrie poderiam vender, tendo hesitado entre 24 e 59 unidades. Num gesto arrojado, o fabricante decidiu elevar o limite de produção para 150 veículos, não sem alguma polémica interna, face à discrepância em relação às estimativas iniciais.

Depois de tanta análise e ponderação, qual não foi a surpresa da Aston Martin quando as encomendas começaram a chegar, num número esmagadoramente superior aos 150 Valkyrie que vão ser fabricados. Segundo Palmer revelou na entrevista, o fabricante recebeu cerca de 900 encomendas, que obviamente não pode satisfazer, uma vez que já se tinha comprometido com um valor muito inferior.  Isto significa que a Aston Martin, que terá comercializado o hiperdesportivo por cerca de 2,85 milhões de euros, vai encaixar 427,5 milhões de euros com a venda do Valkyrie, quando poderia facturar 2.565 milhões. Definitivamente, um erro de julgamento caro de aceitar.