O espetáculo faz parte da programação da Malvada Associação Artística, fundada em 2018 por Ana Luena e José Miguel Soares, ambos diretores artísticos da peça. “Temos feito laboratórios de criação cénica com a comunidade de Évora, cidade onde estamos sediados, o primeiro foi sobre os textos de Afonso Cruz e um outro sobre o universo de Paula Rego. Esses laboratórios acabaram por ser um trabalho de pesquisa, de experimentação e de investigação”, começa por explicar a encenadora aos jornalistas.

Foi neste contexto que o escritor Afonso Cruz partilhou um texto inédito, que irá incluir no seu próximo romance, onde conta a história de uma rapariga deixada pelo pai num lazareto antes do 25 abril, nos anos 1960, uma instituição que formava raparigas para serem criadas em casas de famílias abastadas, desempenhando várias funções domésticas. Foi a partir deste conto e do universo artístico de Paula Rego — cujo trabalho é também teatral, parte muitas vezes de livros e se debruça em questões femininas — que Ana Luena escreveu uma peça que abraça estas referências num sentido mais universal e com uma clara ligação ao momento presente.

“Neste tipo de instituição existem dinâmicas que se criam entre as próprias mulheres. Não são irmãs de sangue, mas acabam por ter relações de poder, submissão e até de violência entre elas”, refere a encenadora, sublinhando que na peça “há muita coisa que se toca, não é forçado”.

Ana Luena e José Miguel Soares desenvolveram também em Évora um trabalho de investigação criativa com um grupo de raparigas menores num centro de acolhimento temporário, através de retratos encenados, e com um grupo de mulheres vítimas de violência doméstica presentes numa casa abrigo, numa componente mais performativa. Nas duas moradas perceberam as tensões existentes, um material que usam em cima do palco, onde a questão de identidade também é protagonista. “Apesar de serem vítimas de violência, não podem mostrar a sua identidade e essa foi outra questão muito pertinente no projeto”, afirmou Ana Luena. Já José Miguel Soares fez um paralelismo entre um orfanato e uma casa de acolhimento para vítimas de violência doméstica. “No centro de acolhimento temporário fomos encontrar a resposta social equivalente ao que acontecia nos anos 60 num orfanato para problemáticas diferentes, mas semelhantes.”

Foto: José Miguel Soares

Bonecas começou a ser pensado em 2018, foi objeto de duas residências artísticas e nasceu da vontade de “mostrar a violência a que podemos ser submetidos e aquele que podemos exercer”. Totalmente focada no universo feminino, desde os anos 60 até à atualidade, a peça conduz o público a uma viagem livre pelos territórios da mulher convidando a uma reflexão sobre a sua força e vulnerabilidade. Em palco, a violação, a morte, o poder e a submissão “da boca fechada” recheiam os diálogos das quatro personagens. “É possível assistir a uma inversão de papéis, em que as vítimas são prisioneiras na sua própria condição de vítima e onde as intérpretes de Bonecas representam relações dicotómicas em que se confunde submisso e dominador”, pode ler-se na sinopse.

Quatro mulheres, um livro e uma cortina em palco

Mariana Magalhães, Matilde Magalhães, Nádia Yracema e Susana Sá são as atrizes que dão corpo e voz ao texto num espetáculo aberto, sem princípio nem fim, onde a ficção se mistura muitas vezes com a realidade. Como é já habitual no percurso de Ana Luena, a encenadora trabalhou a componente física a partir de improvisações livres e sem texto em que o ator explora a relação do corpo com o espaço, que neste caso tem uma cortina. Em palco está ainda como adereço um livro onde as personagens vão lendo alguns excertos do texto de Afonso Cruz. Nele podem conhecer-se um conjunto de regras que dizem respeito à arte de bem servir. “Como se passa a ferro?”, “Como se bebe chá?”, “Como se limpam os arraiolos?” são algumas questões dirigidas a estas raparigas, que se vestem de igual e também são irmãs, aqui educadas para servir e satisfazer os outros ao serem “apenas um pedaço de carne”.

“Essa ideia do livro como acesso ao conhecimento e ao outro mostra que não sou o único, que há alguém que teve uma história parecida com a minha porque a li”, salienta a encenadora.

O espetáculo tenta mostrar algo que já aconteceu, que acontece e que continua a acontecer, aqui ou no outro lado do mundo. “Hoje em dia há muito esta questão de querer arranjar um alvo, um culpado, e nós tentamos dar aqui uma visão mais multifacetada deste tema tão forte e que continuamos constantemente a ver. Há essa possibilidade de sermos a voz dos outros.”

Foto: José Miguel Soares

Conceitos como escravidão ou sofrimento também vivem no espetáculo. “Fala-se de escravos no passado, mas a verdade é que continua a haver escravos. Estão no meio de nós e alguns até podemos ser nós”, diz Ana Luena, acrescentando que o sofrimento “tem camadas muito distintas”, uma vez que alguém pode sofrer por razões que se compararmos com situações extremas são menores, mas não quer dizer que essa pessoa não sofra também”.

“Tentamos fugir a maniqueísmos, a interpretações fáceis ou lineares e, ao mesmo tempo, tentamos olhar para o monstro que há no outro e para o monstro que há em nós mesmos”, sublinha José Miguel Soares.

Bonecas está em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, de 11 a 21 de julho, quartas e sábados às 19h, quintas e sextas às 21h e domingos às 16h. O preço dos bilhetes é de 10€.