O Ministério Público (MP) acusou 89 motards do grupo Hells Angels de quatro crimes de homicídio qualificado na forma tentada e de dano qualificado com violência. Há ainda arguidos acusados de ofensas às integridade física e de roubo. Pelo menos dois arguidos agora acusados estão na Alemanha a aguardar extradição e um está em parte incerta. Durante a investigação as autoridades recolheram material que permite descrever como a organização funciona, através das atas das reuniões e de documentos que descrevem algumas das suas atividades e expulsões. Foi mesmo encontrado um relatório confidencial da Europol que relatava todas as atividades do grupo no país, na Europa e no Mundo.

São mais de 500 páginas de um despacho de acusação concluído exatamente um ano após as primeiras 50 detenções do grupo que foi investigado pela PJ e em que é descrita toda a organização da estrutura de motards, as suas regras e os crimes que cometeram nos últimos anos. A acusação vai ser traduzida em cinco línguas: inglês, alemão sueco, holandês e romeno, para que todos os arguidos compreendam os crimes de que são acusados. Logo no início do documento, o MP anuncia que ainda foram investigados os crimes de detenção de arma proibida, tráfico de armas, de droga e associação criminosa e branqueamento em relação a três arguidos que abandonaram o país pouco depois do início da investigação. Mas que nada se provou, por isso em relação a eles o processo acabou arquivado, lê-se no documento a que o Observador teve acesso.

Em comunicado, a Procuradoria-Geral da República anunciou que foram acusados 89 arguidos “dos crimes de associação criminosa, homicídio qualificado, na forma tentada, ofensa à integridade física qualificada, extorsão qualificada, dano qualificado com violência, roubo, tráfico de estupefacientes, detenção de armas e munições proibidas, bem como consumo de estupefacientes”.

Os arguidos pertencem aos Hells Angels Motorcycle Club e já estavam a ser investigados quando, a 24 de março de 2018, se dirigiram ao restaurante “Mesa do Prior”, em Loures, munidos de facas, machados, bastões e outros objetos perfurantes.

“No interior desse estabelecimento, os arguidos tentaram matar quatro ofendidos e feriram gravemente seis outros”, lê-se no comunicado.

O alvo dos agressores era um grupo motard rival, Los Bandidos, que acabara de nascer em Portugal pelas mãos do neonazi Mário Machado, que tinha saído da prisão há pouco tempo. No restaurante, diz o MP, arguidos provocaram estragos no valor de, pelo menos, 14.450 euros. Duas outras vítimas focaram sem mota. Três meses depois os arguidos atacaram outro elemento do grupo com um “‘boxer’ e pontapés na cara, na cabeça, no tronco, nos braços e nas pernas”. Depois roubaram-lhes os bens pessoais.

A PJ apreendeu-lhes armas, dinheiro e droga. O primeiro grupo de cerca de 60 arguidos foram detidos há um ano, os restantes foram sendo detidos nos últimos meses conforme foram avançando as investigações. Neste momento, em que foi proferida a acusação, o processo tem três outras investigações que lhe foram juntas, conta com 56 volumes, 11 apensos “principais”, 92 apensos relativos a buscas domiciliárias e não domiciliárias e 17 apensos com escutas telefónicas.

Dos 89 arguidos acusados, 37 encontram-se em prisão preventiva, cinco estão presos em casa com vigilância eletrónica e dois estão presos na Alemanha, a aguardar extradição para Portugal. Os restantes estão obrigados a apresentações periódicas e proibidos de certos comportamentos.