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Cinema

“Na Sombra da Lei”: Mel Gibson e Vince Vaughn num policial à moda antiga

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O novo filme de S. Craig Zahler, "Na Sombra da Lei", é um policial de acção realista e másculo, fatalista e eficacíssimo, como julgávamos que já não se faziam. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Vince Vaughn e Mel Gibson em "Na Sombra da Lei": dois polícias que não mudam num mundo em rápida mudança, e que muda contra eles

Autor
  • Eurico de Barros

O veterano detetive Brett Ridgeman (Mel Gibson) e o seu mais jovem parceiro Anthony Lurasetti (Vince Vaughn) são dois homens que não mudam num mundo em rápida mudança, e que muda contra eles. Ridgeman e Lurasetti, polícias na cidade fictícia de Bulwark (Vancouver, na realidade), foram filmados por um vizinho do traficante de droga que foram prender a casa, a usar “excesso de força” (o pé de um dos detetives foi posto no pescoço do criminoso quando este estava estendido no chão a ser algemado). O vídeo foi parar a uma televisão e o traficante era latino. E por isso, Ridgeman e Lurasetti são chamados ao seu comandante, notificados que vai haver uma investigação interna e suspensos sem vencimento.

[Veja o “trailer” de “Na Sombra da Lei”:]

Pouco importa que não tenha havido recurso à força bruta ou abuso de autoridade durante a prisão, que levou à apreensão de várias embalagens de droga. E que o traficante fosse, como recordou Ridgeman ao comandante, “espalhá-la pelas escolas da cidade”. Os melindres da imagem, as exigências das agendas político-sociais na moda e a prioridade dos interesses dos delinquentes sobre os dos cidadãos, das vítimas e dos polícias é que valem nos tempos que correm, e Ridgeman e Lurasetti, dois dos principais protagonistas de “Na Sombra da Lei”, de S. Craig Zahler (“Rixa no Bloco 99”, “Bone Tomahawk”), são castigados por não perceberem isso. Sobretudo o batido Ridgeman, a quem falta, segundo o seu comandante, “compaixão”. E esse castigo não podia vir em pior altura.

[Veja uma entrevista com o realizador S. Craig Zahler e Vince Vaughn:]

Passa-se que Ridgeman está a poupar para mudar de casa e tirar, o mais depressa possível, a família do bairro pouco seguro onde moram. E que Lurasetti vai casar-se e comprometeu-se numa joalharia com um anel que custa os olhos da cara. Desesperado, Ridgeman decide então, usando o seu conhecimento do submundo, assaltar um traficante de droga da praça para conseguir o contado de que tão urgentemente necessita, convencendo Lurasetti a ir com ele. O plano é, em teoria, simples. Vigiar o traficante até o apanharem na situação ideal para lhe tirarem o dinheiro que tem guardado. Mas nenhum dos dois sabe que o traficante está a preparar um grande assalto a um banco, para o qual reuniu um bando.

[Veja imagens da rodagem em Vancouver:]

É nesta altura que entra em cena o terceiro vértice do triângulo de “Na Sombra da Lei”, na pessoa de Henry Johns (Tory Kittles), um jovem negro com cadastro por delitos menores, e recém-saído da cadeia. Johns também precisa de dinheiro rápido para evitar que a mãe se continue a prostituir e dar uma vida melhor ao irmão mais novo, que está numa cadeira de rodas. E aceita o convite de um capanga do bairro para ser vigilante numa grande “golpada”. Precisamente o assalto ao banco liderado pelo traficante de droga que Ridgeman e Lurasetti têm na mira. E os caminhos dos três homens, dois polícias transviados e um delinquente menor, vão convergir de maneira irónica e muito violenta.

[Veja uma cena do filme:]

No fundo e na forma, no realismo politicamente incorreto e no estilo narrativo másculo, seco e eficacíssimo, assim como no fatalismo soturno que paira sobre a intriga e as personagens, “Na Sombra da Lei” parece saído dos anos 70 ou 80, sem tempo nem paciência para palha de bons sentimentos, impulsos idealistas ou piedades redentoras. É um filme bruto, cruel e ríspido, em que as personagens são movidas pelos seus interesses mais imediatos e prementes, com criminosos absolutamente desapiedados e polícias friamente prevaricadores, na linha direta de um certo tipo de policial de ação que julgávamos desaparecido em parte incerta no cinema americano. Andam por aqui as sombras de Sam Peckinpah, Don Siegel ou Robert Aldrich.

[Ouça um excerto da banda sonora:]

O filme prolonga-se por mais de duas horas e meia, mas S. Craig Zahler justifica cada um dos minutos da história, tensa como a corda do arco de um archeiro de alta competição, meticulosamente construída, de um rigor de geómetra na composição visual e uma precisão de relojoeiro na organização narrativa, quer nas cenas de intimidade e de diálogo como nas de vigilância, perseguição e ação, até um final que deixa muitos cadáveres pelo caminho. E a parcimónia dramática, o laconismo pragmático e a severidade plúmbea que presidem à fita, encontram correspondência nas interpretações dos excelentes Gibson, Vaughn e Kittles (e reparem nas breves mas marcadas participações de Don Johnson ou Udo Kier).

Nesta era de um cinema cheio de super-heróis desumanizados, de mundos virtuais e de “overdoses” de efeitos digitais, “Na Sombra da Lei” é um soberbo anacronismo cinematográfico à escala humana, e sobre a natureza humana.

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