Foi a apoteose possível — e só não foi maior porque o contexto era o que era: dia de semana, uma edição do NOS Alive que não esgotou ao contrário das anteriores e uma vaga de calor que só acalmou ao início da noite, quando os Ornatos Violeta já aqueciam o público em Algés com uma entrada em X. “Circo de Feras”, tema dos Xutos & Pontapés que os Ornatos Violeta gravaram e incluíram mais tarde no disco Inéditos/Raridades, abriu o concerto e terminou com o guitarrista e vocalista Manel Cruz de sorriso rasgado na cara e braços cruzados erguidos no ar. Uma entrada em X, lá está, a chutar para canto o cinismo instituído que sugere que estes regressos são só formalismo para cumprir calendário.

O começo tinha tudo para ser apoteótico, mas a zona de relvado instalada em frente ao palco NOS, o principal do festival de música do Passeio Marítimo de Algés — que começou mais uma edição (a 13ª) esta quina-feira —, estava demasiado desocupada de gente. Por causa disso, a receção aos Ornatos Violeta começou por ser morna demais para o empenho e alegria (notória nas caras de quem regressou aos palcos para tocar canções que ninguém esquece) dos elementos de uma das bandas portuguesas mais marcantes dos últimos 25 anos. Tudo melhoraria, era só uma questão de tempo.

A reanimação assistida não é novidade para os Ornatos Violeta — depois do fim da banda, já tinham regressado aos palcos em 2012, para concertos num outro festival (o de Paredes de Coura) e nos Coliseus de Lisboa, Porto e Ponta Delgada. Quando se soube a notícia de que voltariam este ano para comemorar a efeméride dos 20 anos de lançamento do álbum O Monstro Precisa de Amigos (o segundo e aquele que os elevou em definitivo ao estrelato nacional), alguns fãs torceram o nariz: queriam guardar a história da banda e os regressos-despedidas de 2012 para si. Aquelas canções, que comovem logo aos primeiros versos — uma boa lição a novas bandas, mais vale agarrar o ouvinte logo no início do que arriscar perdê-lo por arranque frouxo —, pertenciam-lhes.

É claro, as canções já não pertencem a ninguém, são património nacional imaterial. E o motivo para o regresso, cachês à parte, foi mais do que evidente durante o concerto de quinta-feira, o primeiro de três que os Ornatos Violeta irão dar em palcos nacionais (seguem-se atuações nos festivais MEO Marés Vivas e Festival F): estavam lá os fãs de sempre, que claro que não chegavam para lotar o festival, mas estavam também miúdos, uma geração que cresceu a ouvir “Chaga” e “Ouvi Dizer” só na internet e nos concurso de talento da televisão. Foi vê-los correr, assim que ouviram Manel Cruz cantar “Ouvi dizer que o nosso amor / acabou…”

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Foi desde início clara a diferença na reação dos diferentes públicos do NOS Alive às canções da banda portuense. Muitos fãs de sempre, mais antigos e que provavelmente também asseguraram bilhete para as filas de frente dos concertos dos The Cure e dos The Smashing Pumpkins no festival, conheciam até os temas além-singles, como “Tanque” — que a banda tocou logo a seguir à versão de “Circo de Feras”, com Manel Cruz a puxar pela guitarra (o anglicismo shredding é o termo cool) já de língua de fora. Outros dançaram e cantaram só os êxitos que ainda correm as rádios — muitos provavelmente não eram fãs incondicionais em 2012, quase garantidamente não compraram bilhetes para concertos anteriores. É um bom sinal de resistência ao tempo, que banda não quer tocar o coração de gerações que não a sua?

Se “Circo de Feras” e “Tanque” foram um início que entusiasmou os devotos, Manel Cruz continuou num tira-não tira t-shirt e a banda seguiu oleada, com mais anos em cima e menos fartura capilar, que isto dos anos não perdoa. “Para Nunca Mais Mentir”, logo a seguir, não seria também canção para deixar a plateia em ebulição, mas abriu caminho para o início do best-of: mal começou “Ouvi Dizer a chegar”, viu-se rapazes e raparigas com menos de 25 anos (descarados!) a cantar palavra a palavra, verso a verso, desgosto de amor a desgosto de amor, a correr para junto do palco. Já o baterista andava também ele sem t-shirt quando a banda se atirou a “O. M. E. M.”, já Manel Cruz andara e saltitara mais um pouco de um lado para o outro do palco a cantar quando trocou a água por um copo de cerveja, já voltara a deitar a língua de fora com olhos risonhos quando confessou em surdina, sem realmente confessar, que até tinha saudades disto.

O rocker-poeta do Porto que ainda este ano lançou o primeiro álbum a solo editado com o seu nome (Manel Cruz), sem se esconder atrás de nomes de projetos como Foge Foge Bandido, Pluto ou Supernada, ia oscilando entre uma pose mais imóvel, frontman de guitarra nos braços e microfone estável, e performer que saltava, agitava e levantava os braços, agachava-se a cantar, atirava-se para o chão e ali ficava deitado.

As palavras para o público foram curtas e simples, “obrigado pessoal”, “tá tudo?”. Só depois de um brinde “por um mundo melhor” e de mais algumas canções, da monumental “Chaga” — tocada já com o recinto quase à pinha, menos cerveja nos copos, corpos mais revoltos — ao desafio “Para-me Agora” (para quê a memória do fim, Manel?), dirigir-se-ia mais longamente ao público. Aí, traduziu para discurso o motivo do regresso, pós-dança e cantoria, dizendo: “Sei que estas coisas não acontecem muitas vezes, são poucas, mas esse é o encanto das coisas boas. Muito obrigado por isto, mesmo — a todos. A todos!”.

O concerto acabou com tudo abraçado, palmas do lado do público, novos coros de “Ornatos! Ornatos!” gritados com gosto, nova prova de que aquelas canções dos anos 1990 não se perderam na espuma do tempo. Se há 20 anos Manel Cruz cantava “Eu vou estar sempre aqui / nada vai mudar”, voltou a fazê-lo na noite desta quinta-feira. Seria ingenuidade não achar que tudo mudou, que os Ornatos Violeta são hoje outros, que quem os ouve também mudou, mas por uma hora e meia 1999 parecia estar aqui à esquina. Vemo-nos daqui por uns tempos?