Rádio Observador

NOS Alive

No NOS Alive, o palco foi pequeno de mais para Jorja Smith

Não era cabeça de cartaz mas a britânica Jorja Smith fez o palco secundário rebentar pelas costuras. No mesmo espaço, Sharon Van Etten deu o melhor dos concertos discretos do primeiro dia do festival.

Jorja Smith tocou no palco secundário do NOS Alive

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Veio a hora de jantar no Passeio Marítimo de Algés e, com ela, a melosa Jorja Smith em tom de sobremesa. Pela primeira vez em Portugal, pouco mais de um ano após ter saltado fora do cartaz do Super Bock Super Rock, o soul da britânica arrastou toda uma legião de fãs até ao primeiro dia do festival NOS Alive. A questão — antes, durante e depois do concerto — foi apenas uma: porque é que Jorja atuou no Palco Sagres e não no palco principal? Sem respostas satisfatórias, resta-nos recordar o espetáculo dado pela cantora de 22 anos, que durou cerca de uma hora e meia.

Primeira impressão: uma tenda a abarrotar. A organização bem tentou remediar a situação, vedando uma das entradas do recinto com um ecrã gigante para que, do lado de fora, o resto do público pudesse assistir ao concerto. Assistir, como quem diz. O som que chegou ao exterior fez muito pouco jus à voz e aos acordos melodiosos de Smith e da sua banda composta por quatro elementos —  guitarra, baixo, teclas e bateria. Jorja arrancou com “Lost & Found”, tema que dá nome ao álbum de estreia da cantora e compositora, editado no ano passado. Fãs em êxtase. Pouco tempo depois, Smith começou a acusar o sobreaquecimento da sala. O calor era, de facto, muito. Jorja queixou-se, bebeu água e deixou que o belo vestido verde, de alças e costas a descoberto, resolvesse o resto.

Mesmo dentro da sala, o som nem sempre foi limpo. Melodias como as de “Blue Lights”, single com que iniciou a sua carreira em 2016 e que lhe valeu, no mesmo ano, uma nomeação para o prémios britânicos MOBO Awards, de “Teenage Fantasy” e de “On My Mind”, a última canção de um concerto que Jorja Smith terminou sem pestanejar, exigiam que, no mínimo, tudo estivesse a funcionar na perfeição. Pelo meio, a cantora, a quem muitos reconhecem influências de Amy Winehouse e Alicia Keys, ainda deitou mãos ao tema “One Dance”, de Drake. A qualidade do som oscilou sempre. Foi preciso esperar mais de uma hora, até ao concerto seguinte, para ouvir a voz da compositora com todas as suas qualidades. Loyle Carner perguntou: “Importam-se que chame uma amiga?”. Jorja subiu ao palco para o dueto “Loose Ends”.

Jorja Smith é considerada a sucessora de Lauryn Hill, mas talvez os fãs portugueses tenham de esperar por um regresso da cantora a Portugal para a sentirem na sua plenitude. Talvez o mais indicado seja ver, ouvir e sentir Jorja numa sala aconchegante. Talvez a acústica de uma tenda de um terraplano à beira-rio não seja o terreno apropriado para um dos grandes nomes emergentes da música. Este ano, acumulou uma nomeação para os Grammy e três para os Brit Awards, uma delas ganha. É quase certo que a cantora continuará a fazer um percurso brilhante, é só ter paciência e esperar por um próximo encontro.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Um arranque em português e a banda de covers que se seguiu

Os pontos altos do dia fizeram-se em inglês, mas foi em português, com os Linda Martini, que começou este primeiro dia do NOS Alive. Há seis anos que a banda de André Henriques, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Pedro Geraldes que não tocava no festival do Passeio Marítimo de Algés, mas a espera valeu a pena. O grupo, conhecido pelos concertos intensos e enérgicos, não desiludiu e mostrou o porquê de ser uma das melhores bandas de rock portuguesas.

O alinhamento foi focado no último álbum de originais, o homónimo Linda Martini lançado no ano passado, mas houve tempo para temas antigos e clássicos como “Amor Combate, do já velhinho, mas tão bem envelhecido, Olhos de Mongol (2006). “100 Metros Sereia” (do Casa Ocupada, de 2010) também pôs o Alive a cantar, antes de os Linda Martini fazerem as despedidas com “Quase Se Faz Uma Casa”. Esperemos que não sejam precisos outros seis anos para voltarem.

De Portugal viajou-se para os Estados Unidos da América ao som dos Weezer, já Sharon Van Etten tocava no palco secundário (o Sagres). Com uma longa carreira, os Weezer contam com mais de uma dezena de álbuns na sua discografia, incluindo um disco de covers, Weezer (Teal Album), lançado este ano. Não foi por isso de estranhar, pelo menos para quem acompanha o trabalho da banda norte-americana, que uma parte do alinhamento incluísse temas de outras bandas, como os A-ha ou os Toto. Contudo, não deixou de ser um pouco estranho ver, no palco principal do Alive, um grupo a tocar músicas que não foram compostas por si. Mas o pior de tudo terá sido os vários problemas técnicos que os Weezer sentiram ao longo da atuação e que fizeram com que a banda de Rivers Cuomo, Patrick Wilson, Brian Bell e Scott Shriner ficasse sem som por duas vezes.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Um furacão chamado Van Etten (que não foi nada aborrecido)

Para quem nunca a tinha visto ao vivo, foi seguramente uma grande surpresa. Nascida em Belleville, Nova Jérsia, a instrumentista (toca pelo menos guitarra e teclas) e cantora Sharon Van Etten não é propriamente uma artista emergente: já lança álbuns desde 2005, embora o seu reconhecimento tenha chegado sobretudo na última década.

Autora de uma mistura híbrida de folk com indie-rock, costuma dividir opiniões, havendo quem considere a sua música algo indistinta, da família de uma certa folk elétrica dorida levemente aborrecida. Mas também tem os seus defensores, que lhe gabam a composição de canções e a voz poderosa.

Esta quinta-feira, no festival NOS Alive, foi responsável pela primeira enchente do palco Sagres (o secundário) e ao vivo foi mais do que é em estúdio: a sua música soou mais desinibida, mais poderosa e menos certinha. Acompanhada por uma banda que acrescentou textura e intensidade às canções, agradecendo ao público “estar aqui [ali], com este calor, a celebrar” consigo, revisitou os temas do álbum mais recente, Remind Me Tomorrow, misturando-os com “uns quantos temas antigos para os grandes fãs”.

Os últimos dois álbuns exclusivamente de originais — Are We There, de 2014, e Remind Me Tomorrow, de 2019 — são muito diferentes mas elevaram a fasquia da sua carreira. O primeiro apurava a receita indie-rock/folk-rock em que se notabilizara, com canções que não quebravam apenas corações, também ficavam no ouvido (o que é importante). O segundo baralhava tudo e trazia canções mais estranhas, com mais instrumentações, um conjunto de sons meio disruptivos a trocar as voltas às fórmulas mais simples, às harmonias mais óbvias, às melodias mais lineares.

Se o bom do concerto foi que conseguiu unir todas as pontas de uma carreira já longa, o bom da carreira já ter uns anos é que permite que nas digressões só entre o que de melhor fez nos últimos anos — e isso dá matéria-prima de sobra para não falhar.

No palco Sagres, Sharon Van Etten foi-se dividindo entre a dedicação exclusiva ao canto, a guitarra elétrica tocada enquanto cantava e a opção por cantar enquanto tocava teclas. “Tarifa”, do álbum Are We There, é uma grande canção e soou ótima. Mais tarde a cantora ainda entrou em modo desvairado, cabelo já desgrenhado a cair na boca e a tapar os olhos, garganta bem aberta a cantar pelas entranhas.

Em “Seventeen”, mais uma grande canção, parecia querer descarregar as fúrias de uma vida na guitarra, riffs tocados como se fossem os últimos, notas vocais cantadas com a urgência de quem vai resolver o que tem para resolver ali mesmo em cima do palco. Haveria ainda de entoar a “canção que a minha mãe menos gosta”, mais calminha mas igualmente sem gorduras, “Every Time the Sun Comes Up”, onde conta que cada vez que o sol se levanta vê-se metida em problemas. Apesar de discreto, dificilmente este não estará entre os melhores concertos desta edição quando o festival terminar.

Quem também pode ter surpreendido quem não o conhecia foi Ricardo Toscano, embora o palco Coreto By Arruada, durante a sua atuação, parecesse uma meca nacional do indie, com tipos com t-shirts do Jimi Hendrix e talentos afins — a surpresa terá recaído mais nos estrangeiros que ali passavam. Saxofonista, considerado um novo prodígio do jazz nacional, apresentou-se não com o seu quarteto habitual mas em trio, com o baterista João Pereira e o contrabaixista Romeu Tristão. Por entre revisitações do repertório de velhos gigantes como John Coltrane e Dizzy Gillespie, foi brilhando com o saxofone em frente a algumas dezenas de ouvintes, uns sentados no chão, aproveitando o sol que ainda se sentia, outros de pé mas tão ou mais atentos. No final, agradeceu: “Obrigado por convidarem o jazz para vir ao NOS Alive”.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Do post-rock dos Mogwai à pop dançante de Robyn

Estava Jonas preso na ponte 25 de Abril, depois de a circulação ter sido cortada devido a um carro que se incendiou, quando os escoceses Mogwai subiram ao palco. A banda de Glasgow, uma das mais aguardadas no primeiro dia do festival, teve a tarefa ingrata de abrir para The Cure, os grandes cabeças de cartaz, mas mostrou estar à altura. O concerto, eletrificante, percorreu a discografia do grupo, fundado em 1995, e incluiu temas como “Rano Pano”, do álbum Hardcore Will Never Die, but You Will, de 2011.

Do palco principal, passou-se para o secundário. Ainda os cabeças de cartaz The Cure iam a meio, já Robyn reacendia os ânimos no Palco Sagres. O que dizer da estrela sueca que, há um mês, completou 40 anos de idade e que, no próximo ano, vai assinalar 25 anos de carreira? Chegou ao NOS Alive enérgica (postura rara neste primeiro dia de concertos), de timbre infantil e com as suas melodias líquidas, traduzidas numa pop eletrónica dançante. E, apesar de meio vazia ao início, a tenda dançou, ao som dos novos e dos velhos êxitos, quase indiscriminadamente.

“Honey”, canção que dá nome ao último álbum da cantora, abriu o espetáculo. “Missing U”, “Between the Lines” e “Ever Again” sacudiram a pista improvisada, juntamente com os hinos mais indispensáveis, como é o caso de “Indestrubtible”, “Love is Free”, “Call Your Girlfriend”, “With Every Heartbeat” e “Dancing On My Own”, que ainda hoje arranca de um ou outro ouvinte uma reação de surpresa — sim, a canção é um original de Robyn e não do sortudo Calum Scott. Essa foi cantada pelo público à capela e a plenos pulmões.

Robyn foi o que este primeiro dia de NOS Alive teve de mais próximo de uma pop star. O espetáculo arrancou com o palco semi-velado, mas ao terceiro tema a cantora puxou o pano transparente que tinha suspenso sobre a própria cabeça. Houve dois outifits e rosas vermelhas atiradas ao público. Um bailarino em palco conseguiu arrancar dela todo o tipo de movimentos — sensuais, sincronizados, frenéticos, latinos. Não é todos os dias que vemos uma sueca rebolar e na noite desta quinta-feira vimos. Performance é, além da música, a linguagem de Robyn. Pena que, entre o público do NOS Alive, não estivessem assim tantos simpatizantes.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Texto de Gonçalo Correia, Mauro Gonçalves e Rita Cipriano, fotografia de André Dias Nobre e Francisco Romão Pereira.
Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: gcorreia@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)