O concerto deste sábado dos Smashing Pumpkins, banda lendária do rock alternativo dos anos 90, não tinha apenas a recordação de tempos idos como ponto de partida. Pela primeira vez em 18 anos, James Iha, Jimmy Chamberlin e Bill Corgan, membros fundadores da banda nascida em 1989, juntaram-se para lançar um novo álbum. Shiny and Oh So Bright, Vol. 1/ LP: No Past. No Future saiu em 2018 e reuniu boas críticas. A NME descreveu-o como “uma montra de composição musical que permite respirar e revelar-se a si própria” e, pedindo “o segundo volume”, declarou que “o sonho mantém-se”. A Rolling Stone não foi tão longe, considerando que Shiny and Oh So Bright é “Smashing Pumpkins apenas no nome”. “Essa carrinha de gelados há muito que passou pela bomba de gasolina”, escreveu o jornalista Christopher R. Weingarten.

Quer se goste ou não do novo álbum, a verdade é que quem se deslocou esta sexta-feira ao Passeio Marítimo de Algés não o fez pelos temas recentes; fê-lo pelos temas antigos, como “Today” ou “Bullet with Butterfly Wings”. A verdade é que é muito difícil para um grupo com tantos anos de carreira e álbuns tão aclamados como Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995) ter vida para além do que construiu com tanto solidez há duas décadas. Sobretudo depois dos vários fins abruptos, mudanças de formação e todos os altos e baixos que marcaram os anos 2000. A carreira dos Smashing Pumpkins foi construída nos anos 90 e por lá ficou, congelada, e não há como fugir a isso.

Nesse campo, a banda liderada por Bill Corgan não parece ter ilusões. O espetáculo deste último dia do NOS Alive podia, e com todo o direito, ter sido baseado nas canções de Shiny and Oh So Bright, mas não foi. O alinhamento escolhido — precisamente igual ao do concerto dado no Mad Cool Festival, em Madrid, há dois dias — foi acima de tudo saudosista. Durante hora e meia, os Smashing Pumpkins percorreram a assim não tão longa discografia e brincaram os fãs com todos aqueles grandes temas que marcaram gerações e gerações de adolescentes desde os anos 90. Essa intenção ficou desde logo clara com o tema escolhido para a abertura do concerto, que arrancou depois da introdução barroca de Handel, “Sarabande”. “Siva”, a segunda música do primeiro álbum da banda, Gish (1991), e o seu primeiro grande sucesso, deixou no ar a promessa de grandes coisas por vir.

Mas ainda foi preciso esperar um bocadinho. “Solara” e “Knights”, do novo Shiny and Oh So Bright, aqueceram para a onda de hits que se seguiu até ao último minuto do concerto, durante o qual os Smashing Pumpkins mostraram estar em grande forma e longe de sentirem o peso da idade. “Eye”, da banda sonora do filme “Lost Highway” (1997) de David Lynch, veio a seguir para obrigar Bill Corgan a largar por momentos a guitarra e a passear-se pelo Palco NOS, sozinho e apenas de microfone na mão. “Bullet With Butterfly Wings” lançou uma onda de energia pela multidão — uma das maiores do festival –, que se juntou em frente à banda norte-americana; e “Disarm” fez surgir mil luzes na escuridão. Antes de a banda jogar as últimas grandes cartadas da noite, Corgan voltou a encostar a guitarra para “The Everlasting Glaze” e, surpresa das surpresas, até deu um passinho de dança.

“1979”, “Tonight, Tonight”, “Cherub Rock” e “The Aeroplane Flies High” surgiram na reta final de um concerto também visualmente impressionante, com grande recurso a efeitos de luz e com a presença em palco de três bonecos gigantes, quase demasiado coloridos para pertenceram à banda norte-americana. Nas despedidas, Corgan elogiou os fãs portugueses, “dos melhores que existem”, e prometeu voltar em breve. “Alguns dos melhores concertos que demos foi em Portugal”, declarou o vocalista, admitindo que o espetáculo deste sábado o fez lembrar-se de um outro, há mais de 20 anos. “Fazem-me lembrar 1996, do concerto à chuva na praça de touros [de Cascais]. Lembras-te do concerto na praça de touros?”, perguntou a James Iha antes de começar a tocar os primeiros acordes de “Today”. O tema do Siamese Dream (1993) foi o primeiro a ser tocado na estreia da banda no Passeio Marítimo de Algés, em 2007. Nessa noite, não caiu uma trovada mas, quando os Smashing Pumpkins subiram ao palco, a chuva também caía, mas miudinha.

Artigo alterado às 15h, de 14/07, com a correção da origem do tema “Eye”