A última sondagem SIC/Expresso, divulgada na passada sexta-feira, coloca o CDS atrás de Bloco de Esquerda e PCP e apenas com apenas mais 1% das intenções de voto do que o PAN, mas Assunção Cristas desvaloriza-a. Em entrevista à TVI, a líder centrista afirmou que o partido está habituado a lidar com sondagens que não lhes são favoráveis e isso não “os impede de trabalhar”. Admitiu “preocupação” mas com o sentido de que está tudo à sua frente. É preciso é que o CDS não esteja sozinho na oposição, como esteve “muitas vezes”, mas que tenha também o apoio dos empresários, que “ainda têm medo” do PS, como dissera horas antes da entrevista num encontro com a Câmara do Comércio e Indústria Portuguesa: “Quem se mete com o Partido Socialista leva”.

No almoço com empresários, em Lisboa, durante uma conversa conduzida pelo presidente Bruno Bobone — registada, por exemplo, pela SIC e pelo Expresso —, a líder centrista justificou a dificuldade de afirmação de CDS-PP perante o PS, durante o mandato do atual Governo, com o “medo” que há do Partido Socialista, que fez com que o CDS falasse “muitas vezes sozinho na oposição”.

A oposição não se faz sozinhos, é preciso despertar toda uma sociedade, todo um setor privado, todo um tecido empresarial, que não está insatisfeito porque as coisas melhoraram um bocadinho — mas o que gostava era que estivesse desassossegado e insatisfeito porque as coisas podem melhorar muito mais para todos”, referiu Cristas.

Para o centro-direita e a direita se superiorizarem à esquerda, é preciso um “trabalho em conjunto” de várias entidades, não apenas no parlamento, defendeu Cristas, instando ainda à colaboração dos empresários (citada pelo Expresso): “Aquilo que senti muitas vezes é que o CDS falava sozinho na oposição, no parlamento e fora do parlamento, aliás já o disse muitas vezes. Porquê? Porque o setor privado tem receio, tem medo, porque quem se mete com o Partido Socialista leva. É mesmo assim, sabemos como o Partido Socialista funciona”.

Connosco [os patrões e empresários] falavam, mas em público tinham medo. Toda a gente ainda tem medo do PREC. Mas a oposição e o combate à esquerda não se pode fazer apenas com um partido no Parlamento, ou dois, mas com uma sociedade civil que acredita na iniciativa privada”, apontou Cristas. Lançou ainda farpas à restante oposição: “Não nos confundimos com uma outra direita que podia estar mais à esquerda ou até ser confundida com o PS.”

Concorrência privada à Transtejo/Soflusa seria “benéfica”

Horas depois do encontro com empresários, em entrevista à TVI, Assunção Cristas afirmou que “é difícil ser oposição, desgasta” e que o CDS-PP prefere “estar a construir”. Depois de uma campanha nas eleições europeias agressiva nas críticas ao Governo e ao socialismo, a líder centrista defende agora que “é melhor” e prefere “estar junto com as pessoas — que é aquilo que farei agora — a apresentar propostas construtivas do que estar no Parlamento com encargo de fazer oposição intensa ao Governo”.

Entre essas “propostas construtivas” está uma ideia lançada por Assunção Cristas durante a entrevista: a abertura à possibilidade de empresas privadas fazerem transporte fluvial de passageiros na travessia do Tejo. Ou seja, defendeu que a empresa pública de transportes Transtejo/Soflusa possa vir a enfrentar concorrência do setor privado.

Abrir à concorrência à Travessia do Tejo, para nós faz sentido. Como temos no transporte aéreo: temos uma TAP e depois temos várias companhias a operar. Se os privados entenderem que interessa virem trabalhar e fazer essa travessia, pois todos os que o entenderem devem poder fazê-lo”, afirmou, defendendo ainda os benefícios da concorrência para o utilizador.

Assunção Cristas criticou ainda o Governo pela forma como tem sido incapaz de chegar a acordo com os sindicatos que representam os motoristas de matérias perigosas. Se o CDS-PP fosse Governo, apontou Cristas, “já teria longo tempo de negociação com este setor”.

Propostas em vez de críticas, questões práticas em vez de abstrações ideológicas

A discussão sobre a abertura da travessia fluvial do Tejo à concorrência insere-se no regresso do partido à “política positiva”, como afirmou recentemente por Assunção Cristas. Desde a derrota nas eleições europeias — em que o partido conseguiu eleger apenas um eurodeputado, Nuno Melo, quando o objetivo era eleger também pelo menos o segundo elemento da lista, o antigo ministro Pedro Mota Soares —, os centristas têm insistindo na divulgação semanal de uma medida do seu programa eleitoral.

Após as europeias, a líder do partido que já assumiu querer disputar com o PSD a liderança do centro-direita tinha garantido: “Compreendemos bem o sinal que os eleitores nos quiseram dar” e “lemos bem os resultados”. A ideia era uma: voltar a colocar no centro da discussão as pessoas e voltar a focar o partido em propostas que melhorem a vida às pessoas. Tirar, em suma, o debate do plano teórico e ideológico para o colocar no plano prático.

Curiosamente, a posição é um retorno àquilo que o CDS já tinha defendido durante uma fase anterior do mandato de Cristas como líder, através do seu então dirigente Adolfo Mesquita Nunes: “Enquanto uns se entretêm na retórica, o CDS pode destacar-se nas propostas”, chegou a dizer o então dirigente numa entrevista onde defendeu que o partido se assuma como “o partido do quotidiano, que centra o seu discurso nas preocupações diárias das pessoas e não em abstrações ideológicas”.

Entre as propostas recentemente apresentadas pelo CDS estão a extensão da ADSE também para trabalhadores do setor privado, redução de impostos (de 21% para 12,5% para as empresas em seis anos, em cerca de 15% para as famílias e territorialmente discriminando positivamente o interior), consultas no setor privado para reduzir o tempo de espera no Serviço Nacional de Saúde, proibição de penhoras do fisco enquanto decorrem prazos para reclamação, abatimento de dívidas que o Estado tenha a contribuintes nos impostos que estes pagam e ajustamento da formação profissional às necessidades das empresas e à economia digital.