Homicídio seguido de suicídio. De acordo com a polícia chinesa, que na última semana destacou mais de 500 elementos para as buscas por Zhang Zixin, terá sido o que aconteceu no caso da menina de 9 anos raptada no dia 4 de julho de casa dos avós, nos arredores de Hangzhou, por um casal que lhes arrendava um apartamento.

O corpo foi recuperado do Mar da China Oriental no passado domingo e, de acordo com a Polícia da Província de Zhejiang, não apresentava quaisquer sinais de violência. Ainda assim, num comunicado enviado aos meios de comunicação, as autoridades afastaram a hipótese de acidente. Os corpos de Liang, 43 anos, e de Xie, de 45, o homem e a mulher que levaram Zhang de casa dos avós, identificados apenas pelos apelidos, já tinham sido recuperados do lago Dongqian, em Ningbo, a cerca de 25 quilómetros de distância. Estavam presos um ao outro pelas roupas. Antes de cometer suicídio, o casal terá sido visto a consumir bebidas alcoólicas junto à água.

Foi a 20 de junho, no dia em que alugaram um apartamento aos avós de Zhang Zixin, nos arredores de Hangzhou, capital da província chinesa de Zhejiang, que Liang e Xie conheceram a menina de 9 anos. Desde então, o casal ter-se-á afeiçoado de tal forma à criança que até partilhou fotografias dela nas redes sociais — “Temos uma filha adotiva!”.

De acordo com o pai da criança, Zhang Jun, em entrevista ao jornal local Dushi Kuaibao, citado pela CNN, terá sido na noite do dia 3 de julho que manifestaram pela primeira vez a intenção de levarem Zhang a um casamento em Xangai — “Para ser a menina das flores”. Como o pai, a trabalhar numa cidade a várias centenas quilómetros de distância, não autorizou, terão ludibriado os avós e levado a criança sem autorização, no dia seguinte.

Ainda assim, e como Liang e Xie mantiveram a comunicação, prometeram que a trariam de volta dois dias depois e lhe foram enviando via WeChat (a aplicação de mensagens rápidas mais usada naquele país) vídeos, fotografias e ficheiros áudio da filha, Zhang Jun não alertou as autoridades. Em vez disso, no dia em que a menina devia regressar, apanhou o comboio noturno para casa. Na manhã seguinte, 7, voltou a falar com a filha, que lhe disse que estavam no norte do condado de Xiangshan, ainda em trânsito para Xangai. Parecia “calma”, diria mais tarde ao Dushi Kuaibao. Foi a última vez que falou com a filha.

A partir de então, Liang ter-se-á tornado mais esquivo — primeiro terá recusado dizer-lhe onde estavam, para que pudesse ir buscar a filha, finalmente terá concordado em levar a menina de volta, de táxi, pago por Zhang Jun. A seguir desligou o telemóvel para não o voltar a ligar mais.

No dia seguinte, segunda-feira, cinco dias depois de a filha ter sido raptada, o pai de Zhang Zixin apresentou finalmente queixa às autoridades. E a China inteira ficou em suspenso, com milhares de pessoas a partilharem a história da menina nas redes sociais e outras tantas a desenvolverem teorias sobre o seu desaparecimento — uns garantiam que tinha sido levada para uma rede de tráfico de crianças; outros, inspirados pela justificação dada inicialmente a Zhang Jun, juravam que Liang e Xie faziam parte de um culto e tinham raptado a menina para lhes levar flores no casamento que iam celebrar no mundo dos mortos.

Apesar de ter afastado de imediato ambas as hipóteses, a polícia desconhece ainda as motivações de Liang e Xie, que não tinham qualquer registo criminal, não estavam associados a cultos e nem sequer tinham hábitos de consumo de drogas ou álcool. Por muito que a análise aos posts publicados mais recentemente pela dupla nas redes sociais tenha revelado uma tendência para pensamentos suicidas — consubstanciada com o facto de nos últimos meses o casal ter começado a desfazer-se dos bens que possuía (na conta bancária tinham apenas 31,7 yuans, 4,11 euros) –, o rapto e homicídio da criança de apenas 9 anos permanece um mistério.