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“Quem não tem voz, grita”, diz a cantora brasileira Elza Soares

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A cantora Elza Soares, em Portugal para lançar a sua biografia e apresentar um novo disco, recorda o momento do encontro com Amália Rodrigues e apela a que mulheres denunciem a violência doméstica.

“Não falo nele”, recusa. Ele é Jair Bolsonaro, o atual presidente do Brasil. “Não falo de política. Falo em nós, o povo. O povo, querendo, modifica", disse a cantora

JÚLIO LOBO PIMENTEL/OBSERVADOR

A cantora brasileira Elza Soares, que está em Portugal para lançar a sua biografia e apresentar um novo disco, rejeita a invisibilidade e o racismo, apelando a quem não tem voz para que grite.

“Todos nós somos visíveis, não existe o invisível”, reflete, acreditando que os mais vulneráveis serão “empoderados” através da educação e da cultura.

Entrevistada pela agência Lusa na Livraria da Travessa, em Lisboa, onde apresentou a sua biografia, escrita pelo jornalista Zeca Camargo, Elza Soares assumiu-se “totalmente” feminista, o que, para ela, significa “ter coragem de gritar que se é mulher”.

Octogenária – embora diga que não tem idade, mas apenas tempo –, Elza Soares assistiu a “muita transformação” nas mulheres. No passado, “não falavam nada, iam caladas”. Hoje, “estão falando, as mulheres estão mais unidas, (…) mais conscientes da necessidade umas das outras”, compara.

A cantora acredita “piamente” que o mundo seria mais justo se as mulheres liderassem. “Se o mundo fosse dominado por nós, mulheres, tudo teria sido (…) bem diferente, muito mais suave”, prevê.

“Tanto faz ser branca como ser negra, se é mulher já é discriminada, por isso é que a união da mulher é muito importante”, insiste.

“A fome continua, eu hoje tenho fome de tudo, tenho fome de saúde, tenho fome de paz, tenho fome de amor, tenho fome de cultura, enfim, a fome continua. A fome não é só comida, a fome é tudo isso que você sente”, constata.

Sobre a biografia de “sacrifício e coragem” que Zeca Camargo escreveu – “Elza” –, Elza Soares diz que “conta a história de uma vida que não era para dar certo” – mulher, negra, pobre –, mas que deu. “A vida depende de como ela é vivida”, resume, como se fosse simples.

Elza Soares está em Portugal para um ‘dois-em-um’ – além da biografia, veio apresentar o seu novo disco, “Deus é Mulher”, com um concerto logo à noite, no Capitólio, em Lisboa. É o seu 83.º disco, mas o primeiro depois do trabalho galardoado com o Grammy Latino, “Mulher do Fim do Mundo”.

“Deus é mulher pela paz, deus é mulher pela paciência, deus é mãe. Já viu coisa mais sensível do que a mulher ser mãe?”, pergunta, justificando a escolha do título do disco.

Elza Soares vê “o Brasil de sempre”, quando se lhe pedem comparações que a sua idade permite fazer. “Não falo nele”, recusa. Ele é Jair Bolsonaro, o atual presidente do Brasil. “Não falo de política. Falo em nós, o povo. O povo, querendo, modifica. A voz do povo é a voz de deus. Basta o povo dizer ‘sim’ e tudo será sim”, frisa. À pergunta se o povo brasileiro está desperto, responde: “Está ficando esperto.”

Elza Soares nota que “o povo está mais escondido, mas de repente ele vai par a rua”, acredita. “Precisava muito de ir mais para rua, muito mais”, insta.

Em todas as conversas com os jornalistas, a artista quis recordar o momento em que se cruzou com Amália Rodrigues, no Brasil, num programa em que esta cantou um samba e ela um fado (“Nem às paredes confesso”). “Foi muito bom”, recorda, pedindo aos fadistas portugueses que escrevam “um fado para a Elza”.

No final, Elza Soares deixou uma mensagem às mulheres portuguesas e brasileiras que vivem em Portugal. “Denuncie, não se deixe ser castigada pela violência. A mulher é o mundo, o mudo sem mulher não existe. Nós temos de nos valorizar, cada vez mais. Denuncie, mulher, não aceite a violência, por favor.”

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