O Centro de Prevenção e Controlo de Doença (CDC) chinês vai iniciar um ensaio clínico de fase II para testar uma vacina contra o HIV (que pode provocar sida), noticiou o jornal chinês China Daily. É a primeira vez que uma vacina com partes ativas do vírus VIH (vacina viva) entra nesta fase de ensaios clínicos, diz ao Observador Rui Soares, que faz investigação com o VIH na Faculdade de Medicina na Universidade de Coimbra.

“Houve um momento que nem acreditávamos que fosse possível chegar a esta fase com vacinas vivas”, diz o investigador. “As preocupações eram com o risco de infeção e com o facto de serem pouco fidedignas. Com os riscos a superarem os benefícios.” Mas a verdade, admite, é que a ativação do sistema imunitário é muito melhor desta forma.

A julgar pela informação divulgada, o ensaio de fase I, iniciado em 2007, permitiu verificar que a vacina era segura. A segunda fase, que entretanto vai ter início, pretende verificar qual a forma mais indicada para a toma da vacina. Se passar esta fase, a terceira etapa será testar a eficácia da vacina.

“Esperamos que a segunda fase do ensaio clínico termine em meados do ano 2021 e que a terceira fase tenha início no final desse ano, o que vai envolver milhares de voluntários num ensaio clínico para testar a eficácia da vacina para proteger as pessoas contra o VIH”, disse Shao Yiming, o investigador responsável pela área do VIH no CDC chinês.

A vacina em teste — ADN-rTV — consiste na replicação do material genético do vírus VIH (vírus da imunodeficiência) para estimular a imunização, disse Shao Yiming. Mas o investigador alerta que esta vacina não causará a infeção dos voluntários porque contém apenas porções do ADN e não a molécula completa.

Aliás, quando foi lançado o anúncio da necessidade de recrutar 160 voluntários para o ensaio clínico, uma das maiores preocupações das pessoas foi que pudessem ser infetadas no processo, o que levou um dos médicos envolvidos a esclarecer que não haveria esse risco, como noticiou na altura o jornal South China Morning Post. Até ao momento já foi possível recrutar 130 voluntários.

A vantagem desta vacina, afirmam os promotores da mesma, é que as porções do ADN são capazes de se continuar a replicar, apesar de serem incapazes de provocar infeção. As outras vacinas que estão em ensaios clínicos, tanto na China como noutros pontos do mundo, usam vírus inativos, o que, segundo esta equipa, não permite uma imunização de longo prazo.

Rui Soares considera que este é um avanço importante fruto de um processo difícil. “Temos poucas vacinas vivas, exatamente pelo risco de infeção”, diz. Mas tendo em conta a informação disponibilizada, os investigadores parecem ter contornado esse problema usando partes do vírus que não causam infeção, mas que continuam a despertar o sistema imunitário.

O investigador português deixa, no entanto, dois alertas: nem a vacina vai funcionar como uma cura contra a sida, nem vai impedir que as pessoas sejam infetadas. Por isso, evitar comportamentos de risco, como a partilha de agulhas ou a prática de sexo sem preservativo, continua a ser a forma mais importante de prevenção da doença.

E mesmo com a vacina não vai ser possível prever qual a intensidade da infeção em cada indivíduo. “O que se consegue prever é que vai haver uma resposta mais rápida e mais eficaz do sistema imunitário do que sem a vacina”, diz Rui Soares. “Não estamos a dizer que as pessoas não vão precisar de antirretrovirais [os medicamentos usados para tratar a infeção], mas a doença estará melhor controlada.”

A Johnson&Johnson  também vai iniciar um ensaio clínico de uma vacina contra o VIH, conforme anunciou recentemente. Neste caso serão recrutados 3.800 homens homossexuais, que receberão seis doses da vacina em quatro sessões. Os resultados são esperados para 2023.

Atualizado as 13h35